Tão Longe Tão Perto


O gato subiu no telhado
12/12/2015, 23:29
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mulher-gatoTodo dia, lá pelas 6 e pouco da tarde, Dona Zefa desce na penúltima parada da W3, na altura da 15 sul, e caminha até as quatrocentos via passagem subterrânea. Naquela sexta, a gente acabou alinhando o passo na calçada paralela aos fundos da comercial quando eu saía do Ernesto pra pegar o possante no estacionamento do Bloco C. Seguíamos na convencional cumplicidade silenciosa das superquadras até que a marcha foi interrompida pelo voo de dois tigres negros em nossa frente. Eles saltaram a cerca viva e finalizaram a performance com um mortal acrobático sincronizado na grama, acompanhado do miau mais selvagem que já ouvi.

 

“Tão bonitos esses bichos”, comentou Dona Zefa, admirada, enquanto eu ainda recuperava o fôlego.

 

“Acho que a família cresceu”, respondi, lembrando da mágica do aparecimento e desaparecimento de gatinhos entre um gole e outro de café, no horizonte de quem passa as tardes embaixo da mangueira mais aconchegante da asa sul. “Você gosta de gato?”

 

“Gosto de bicho. Outro dia, passando por aqui, ouvi um miado lá em cima. Achei estranho, dobrei o pescoço e vi só as orelhinhas”, contou Dona Zefa, apontando para o telhado do Bloco A. “O porteiro me contou que  fazia três dias que o gato estava preso na laje. A partir de então, deixo ração e o porteiro entrega”.

 

E nesse pé estava a história quando Dona Zefa se despediu à beira do eixinho, sem explicar se o bichano usou o elevador ou encarou seis andares de escada. Mas agradeço por ter recheado meus cafés de mistério, imaginando a vida de pequenos anti-heróis, que, entre 11 blocos, driblam a muda aridez do concreto.