Tão Longe Tão Perto


O gato subiu no telhado
12/12/2015, 23:29
Filed under: O gato subiu no telhado | Tags: , ,

mulher-gatoTodo dia, lá pelas 6 e pouco da tarde, Dona Zefa desce na penúltima parada da W3, na altura da 15 sul, e caminha até as quatrocentos via passagem subterrânea. Naquela sexta, a gente acabou alinhando o passo na calçada paralela aos fundos da comercial quando eu saía do Ernesto pra pegar o possante no estacionamento do Bloco C. Seguíamos na convencional cumplicidade silenciosa das superquadras até que a marcha foi interrompida pelo voo de dois tigres negros em nossa frente. Eles saltaram a cerca viva e finalizaram a performance com um mortal acrobático sincronizado na grama, acompanhado do miau mais selvagem que já ouvi.

 

“Tão bonitos esses bichos”, comentou Dona Zefa, admirada, enquanto eu ainda recuperava o fôlego.

 

“Acho que a família cresceu”, respondi, lembrando da mágica do aparecimento e desaparecimento de gatinhos entre um gole e outro de café, no horizonte de quem passa as tardes embaixo da mangueira mais aconchegante da asa sul. “Você gosta de gato?”

 

“Gosto de bicho. Outro dia, passando por aqui, ouvi um miado lá em cima. Achei estranho, dobrei o pescoço e vi só as orelhinhas”, contou Dona Zefa, apontando para o telhado do Bloco A. “O porteiro me contou que  fazia três dias que o gato estava preso na laje. A partir de então, deixo ração e o porteiro entrega”.

 

E nesse pé estava a história quando Dona Zefa se despediu à beira do eixinho, sem explicar se o bichano usou o elevador ou encarou seis andares de escada. Mas agradeço por ter recheado meus cafés de mistério, imaginando a vida de pequenos anti-heróis, que, entre 11 blocos, driblam a muda aridez do concreto.



De olhos abertos
10/05/2011, 2:05
Filed under: Brasil, De olhos abertos | Tags: ,

Daniel, que desembarcou na França há quatro anos, tropeçou no concreto de Niemeyer que abriga a sede do partido comunista e se viu em Brasília no meio de Paris. E se lembrou de uma história de sua infância arquitetônica, contada por seu pai lá nas areias de Ipanema (clique para ler Chéri à Paris desta semana).

Julia, que desembarcou em Brasília há cinco meses, rodava de carro por ruas largas, cheias de árvores, mas nenhum sinal de bípedes pensantes, e imaginou estar dentro de uma nave espacial, visitando um planeta desconhecido e sem oxigênio, onde só é possível sobreviver dentro de cápsulas protetoras. Ela não se lembrou de nada e por isso mesmo se encantou com uma sensação nova, deixando-se levar por uma sensibilidade aberta para a estranheza, que arrebata sem aviso prévio no meio desta cidade.

William, que se virou como motorista de táxi na nova capital quando chegou de Minas, não segurou a bronca quando uma passageira desandou a criticar os preços abusivos dos imóveis em Brasília, sugerindo que com o mesmo valor seria possível comprar um apê em Tóquio ou Nova Iorque. Ele se lembrou de um amigo que, deslumbrado, vendeu tudo para tentar a vida nos Estados Unidos, mas teve que voltar bem antes do que pensava porque o oficial de imigração não foi com a sua cara. E comentou: o que eu faria com uma propriedade num lugar que não é o meu?

Eu, que passei a vida aqui, mas dei um rolé ali do outro lado do mundo que me fez confundir um pouco quem sou, conduzi o possante na madrugada do último sábado até um dos estacionamentos mais antigos da capital. Havia estado no mesmo prédio comercial às 3 da tarde para uma reunião. Desta vez, os escritórios estavam todos fechados. Menos uma sala no último andar acolchoada por espumas acústicas que há três gerações capturam rifles de guitarra. Naquela noite, o estúdio funcionou como passagem para uma outra dimensão: na laje que circunda todo o prédio, um palco foi improvisado com rock de primeira, que vibrava no ritmo da surpresa de conseguir enxergar o plano piloto em 360 graus, mas tão próximo da W3 como nunca seria possível do alto da torre de TV. E me lembrei de tantos amigos que rompem a burocracia com musicalidade, reinventando o que vem a ser Brasília. E ri por ter recebido de presente naquela noite a senha que decifra a sensação de estar de volta num lugar cuja maior familiaridade é o que há de mais estranho. E agradeci por me reconhecer, enquanto mirava as estrelas entre colunas de concreto.



Ao sair em Brasília
16/04/2011, 18:28
Filed under: Ao sair em Brasília | Tags: ,

Açaí da 202 norte, 21h, batendo papo com meu velho amigo:

– Posso me sentar com vocês?

Há, ninguém fala assim em Brasília. Desconfiada, do alto do meu preconceito construído desde a infância no plano piloto, tentei dispensar aquela figurinha de um metro e meio, estilo homem gabiru na estica, com calça jeans e boné. Evidentemente ele não fazia parte do cenário da superquadra: “é que a gente já tá indo embora”.

Ignorando o que devia mesmo ser ignorado, ele sentou e continuou a falar:

– Tenho medo do jeito daquele cara.

“Por quê?”, perguntei, olhando para trás. O cara era forte, grande e tava jogando o caô numa gatinha.

Tirei minhas conclusões sozinha, enquanto ele, mais uma vez ignorou minha pergunta, emendando com outra e outra e outra frase, costurando uma história bem mais interessante do que meu papo interrompido sobre o último final de semana.

– Como é que eu faço pra chegar no aeroporto? Meu amigo ia passar aqui pra me buscar, mas não apareceu. Não vou andando pra rodoviária não que tenho medo do que pode acontecer no caminho. Adoro aeroporto. Nunca andei de avião. Vim do Maranhão de carona num caminhão de frango que veio pra Goiânia. Os motoristas eram chegados meus, nem pela comida eu paguei. Agora só volto se for de avião. E mesmo assim só pra passear. Tenho saudade da praia, mas gosto mais daqui. Na minha cidade só tem praia de rio. Lá não dá pra viver, não tem trabalho. Cheguei em Goiás em janeiro. Vim pra Brasília há um mês. Se não for a essa hora pro aeroporto, não vou hora nenhuma. Tenho que tomar conta da obra. Acho que vai ser um prédio da polícia. Queria ir no Banco do Brasil, mas fechou. Eu durmo dentro do caminhão. Se chegar alguém eu dou partida. Até que gosto do reggae, mas não vou no espaço aberto não, é só confusão, não quero tomar tiro. Quero ver o que vai rolar na esplanada no aniversário de Brasília. Mas acho que só vai dar gangue. Não saí lá do Maranhão pra me meter em confusão aqui. Minha mãe já partiu, mora no céu.

Quando ele respirou, me despedi, pensando que felizmente havíamos embaralhado o sentido de proteção e lembrando da fragilidade e da força de não pertencer. Quem está em casa sempre parece mais protegido, embora se veja pretensamente ameaçado pelo que vem de fora. Mas a força do estranhamento é que faz a gente se reinventar para tentar acolher e ser acolhido.



Debaixo D’água
22/10/2010, 7:51
Filed under: Debaixo D'água | Tags: , , ,

Tchibummm… shiiiiii… blu blu blu…. Ahhhh!

*1, 2 e 3

“Debaixo d’água tudo era mais bonito,
mais azul, mais colorido,
só faltava respirar. Mas tinha que respirar. Debaixo d’água se formando como um feto,
sereno, confortável, amado, completo, 
sem chão, sem teto, sem contato com o ar. Mas tinha que respirar. Todo dia…” (Arnaldo Antunes)

Para chegar até à cachoeira, 150 km rodados com tranquilidade no Possante 99. Do lado de dentro, 4 amigos se reencontraram. Do lado de fora, mais uma estrada que seguiam juntos, com a cumplicidade das coisas que se intensificam longe de casa. Do lado de dentro, renovavam as histórias daquele carro, já recheado de memórias de família e de um amor nascido ali mesmo, quando numa atitude de protesto pró-vegetarianismo, ela dominou o volante e acelerou em direção à parede de uma churrascaria. Do lado de fora, os personagens daquele amor acompanhavam o Possante no golzinho dela. Ela é equilíbrio e flexibilidade: corpo, cabeça e coração. Ele leva musicalidade e tempero pro pregão e pra vida dela. Do lado de dentro, tudo se confessou, quase não se falou de política. Do lado de fora, o cerrado renascia da paisagem queimada.

Debaixo d’agua tudo silenciou.

Anestesiados, voltaram pela estrada de chão. No mata-burro, 4 meninos cruzaram o seu caminho. Como malabaristas, se equilibravam na mesma bicicleta. A cena poderia ter sido na Índia, mas era aqui mesmo no Goiás. O maiorzinho alcançava o pedal. Dois menorzinhos se apertavam na garupa e um outro ainda conseguiu se arranjar sentado de lado, segurando o guidon. Eles já deviam saber que qualquer diferença de idade, tamanho ou experiência de vida desapareceria logo mais, no primeiro tchibum. Do lado de dentro, outros 4 amigos acharam graça, talvez se reconhecendo também como meninos na mesma bicicleta. E fotografaram a cena na memória, pra respirar com mais leveza durante a semana.

*1. Inspirada pela amiga Paula, escrevi sobre o ultimo fim de semana, sem dúvida, o melhor de 2010.

*2. Inspirada pelo amigo Daniel, sugiro uma música durante a leitura deste texto. A música é “Debaixo D’água” de Arnaldo Antunes, que tocou muitas e muitas vezes em 2001, ritmando as primeiras descobertas fora de casa, no apê que dividia com duas amigas. Para ouvir, clique aqui ou no nome do Arnaldo Antunes lá em cima.

*3. Obrigada ao casal Dea e Beto, ex-donos do Possante e protagonistas das suas histórias de amor.



Múuu do cerrado
27/08/2010, 8:23
Filed under: Brasil, Múuu do cerrado | Tags: , ,

Felipe vai lembrar e me ajudar a contar direito. Entrevistamos Hermeto Pascoal na UnB pra aula “lá vem o Brasil da Célia Ladeira”. Acho que era o Gustavo quem carregava a câmera gigante, bem antes da revolução digital. Depois da hipnose, foi impossível editar aquelas histórias. As ideias pareciam brotar na mesma lógica da sua música, passeando na velocidade dos olhinhos em zigue-zague, conectando, num sentido único, elementos tão distantes como as luzes da Times Square, o concreto de Niemeyer e os sapos e passarinhos de Lagoa das Canoas-AL, com quem Hermeto aprendeu a fazer som. E do canto do Sertão, Hermeto voltou a falar de Brasília, mas de uma capital que só existia na sua cabeça, atenta às potencialidades fantásticas da natureza. E descrevia a esplanada como grandes pastagens por onde circulariam carneirinhos e vacas, soltinhos entre os ministérios, berrando, mugindo.

Quinze anos depois, as histórias de Hermeto desenterram da memória e me ajudam a costurar pedaços de um mosaico agora mais diverso, em que cabem mais cores, sons, cheiros e nomes, tudo trazido pra cá, pro que é familiar e conhecido. Que o “cérebro magnético” de Hermeto dê o tom para unir fragmentos do que já vi e do que está para ser visto, embaralhando e desembaralhando as cartas, ampliando a percepção para  ouvir o mudo cerrado.



De 50 a 3000 anos
11/07/2010, 13:10
Filed under: De 50 a 3000 anos | Tags: , , ,

Pintura a óleo de Oscar NiemeyerEm visita a Hampi, cidade-império do século 14, mas com registro de presença humana há pelo menos 3000 anos, ficou claro que apreciar ruínas não é lá muito fácil. Minha cidade tem só 50 anos e minhas referências estéticas são beeem mais limitadas que as do crítico francês André Malraux, que comentou com Niemeyer em sua visita à nova capital “Que belas ruínas Brasília daria”. A observação inspirou uma das poucas pinturas a óleo de Oscar Niemeyer, exposta no cinquentenário da cidade (reproduzida ali à esquerda).

Aqui de longe soube disso graças aos amigos que alimentam com inteligência espaços online como o facebook. Letícia Verdi fez a referência e Felipe Berocan comentou: “Assim também pensava o arquiteto de Hitler, construindo obras monumentais, antecipando a grandiosidade de suas ruínas”. Humildade parece não ser mesmo o forte de quem pretende resistir à inexorável condição de mortal e deixar histórias concretas que atravessam os séculos.

No caso de Hampi, no norte do estado de Karnataka, a aridez da paisagem, formada por enormes pedras amareladas que parecem ter caído do céu, mas que resultam de erosões milenares, aos poucos vai sendo preenchida por narrativas mitológicas anteriores à construção de Vijayanagara. A cidade teve importância comercial de 1336 a 1565, quando foi saqueada pelos sultões islâmicos. Sem perceber, começamos a escutar as ruínas sussurrando, contando histórias fantásticas de amor, traição, lutas de deuses, deusas, heróis e heroínas, demônios e de um povo forte e leal a seus líderes, capaz de construir fortalezas, para depois abandonar tudo, fugindo de saques e ataques de outros reinos.

É praticamente impossível distinguir o que é mito de realidade. A cidade foi fundada depois de um sinal auspicioso, quando dois chefes andavam com seus cães pela floresta e surpreendentemente uma lebre virou o jogo e começou a perseguir os farejadores. O cenário também é citado, por exemplo, no épico Ramayana. Foi aqui que Rama, encarnação do Deus Hindu Vishnu, e seu irmão Lakshmana, encontraram Hanuman, o Deus-Macaco, guerreiro que ajuda a resgatar Sita (mulher de Rama), que havia sido capturada pelo demônio Ravana. As referências ao Ramayana são lembradas por imagens de Rama e Sita com Hanuman e Lashmana, cravadas nas pedras de templos e castelos.

Assim como Brasília, Hampi também é Patrimônio Histórico da Humanidade. O apoio da Unesco garante o mínimo de informação em placas erguidas na frente de cada monumento, mais nada além disso. Se na Europa a estrutura turística oferece a versão oficial mastigadinha em troca de muitos tostões, por aqui fica por conta do visitante boa parte das especulações. Por conta do período eleitoral, os guias locais não estavam disponíveis, mas um livro atendeu o básico da história, que continua sendo desvendada a cada pedaço escavado.

Tive sorte por ter sido convidada por dois amigos pra rachar a gasolina e ir de carro. Mas sendo sincera, as ruínas começam ainda na estrada, onde a gente encarou um caminhão atrás do outro, sem ter muita visibilidade da buraqueira provocada pela mineração, que todo mundo bem sabe como destrói qualquer resquício de vida. Mas nada disso impede as dezenas de ônibus com turistas indianos, que vêm conhecer de perto o que não foi possível colocar atrás dos vidros no Museu Britânico.