Tão Longe Tão Perto


Roteiro macabro à minha janela

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Uma voz forte ecoou lá de baixo. Não conseguia ouvir toda a história, só as palavras-chave, ditas num tom dramático: “prostituta”, “assassinato”… Bastou um dia quieta no quarto para descobrir que esta é sim uma região turística. Não aquele passeio-família dos cartões postais, mas um turismo sinistro, que segue a rota do assassino mais famoso do século 19 – Jack, o estripador. Cerca de dez grupos pararam em frente ao meu prédio ontem e outros tantos hoje. Aos poucos, fui pescando partes da história. O mais performático dos guias de turismo empostou a voz até que eu entendesse que o lugar para onde acabo de me mudar, um antigo refúgio para mulheres sem-lar gerenciado por irmãs de caridade abrigou também Mary Kelly, a quinta e última vítima do serial killer.

Os contadores de história desta empresa de turismo são treinados para reconstruir o clima funesto dos becos escuros de Spitalfields no século 19, num tempo bem anterior à CCTV (as câmeras de segurança espalhadas pela cidade). Numa época em que a imprensa em ascensão já apostava na fórmula sexo + violência para vender notícia, foi um jornalista quem batizou o assassino Jack como “o estripador”, contribuindo para a fama deste legendário caso que queimaria a bufunfa de Sherlock Holmes: Jack assassinou cruelmente cinco mulheres numa mesma região em cerca de 12 semanas. Ninguém sabe explicar o porquê e sua identidade continua desconhecida.

Mary Kelly foi sua vítima mais nova. Era muito bonita e tinha apenas 25 anos, mas já colecionava algumas tragédias pessoais como a morte do marido numa carvoaria e a vulnerabilidade da vida na prostituição, onde encontrou um companheiro com quem chegou a morar, mas foi abandonada depois que ele perdeu o emprego, e acabou voltando para as ruas antes de se tornar ela própria personagem principal de uma história sinistra, narrada com excessivos detalhes pelo líder do grupo de adolescentes que finalizou a sessão-turismo de hoje. A curiosidade mórbida da meninada não foi suficiente para evitar certo nervosismo, caras de repúdio e suspiros de horror. Alguns tampavam os ouvidos nas partes mais sangrentas, como quem fecha os olhos num filme de terror, como pude observar de minha janela indiscreta, tentada a dar um grito mais agudo que o alarme de incêndio, só pra ver qual seria a reação da galera. Mas contive a pequena maldade.