Tão Longe Tão Perto


Prova de Amor
22/05/2009, 19:09
Filed under: Prova de Amor

blog 2 imageNa adrenalina da primeira vez, não me sentia preparada, mas o jeito era encarar sem medo três horas de suor que estavam por vir. Tentei memorizar os passos mais importantes até o minuto anterior para garantir ao menos a performance básica. “Sexo, parentesco e gênero” foi o tema da primeira prova do mestrado. A matéria foi interessante do começo ao fim, mas foi estudando na carreira pra prova que percebi como foi bom ter lido tanta coisa sobre a gente, como amamos e nos relacionamos. De alguma forma, as aulas deram continuidade aos debates dos almoços familiares de domingo, conversas e pensamento que povoavam meu golzinho enquanto cruzava o eixo até chegar ao fim da Asa Norte.

Só que a minha sala de aula era bem mais diversa que minha família, que por sorte minha já abriga diferentes estilos, credos, estados civis, posicionamentos políticos e ideológicos, garantindo acaloradas discussões entre as garfadas nas delícias que minha mãe prepara.

Só pra dar uma idéia de quem são meus colegas, vou citar alguns: uma mulher inglesa que divide seu tempo entre o mestrado e seus cinco filhos (outro dia, ela foi interrompida no grupo de estudos por um telefonema da escola porque o de 8 anos teimava em ficar pendurado na janela da sala de aula como estratégia pra ser mandado pra casa); uma doce iraniana que deve ter uns 20 e poucos anos, esconde os cabelos com lenços coloridos e está sempre acompanhada por um barbudão enquanto estuda na biblioteca; uma paquistanesa com os olhos muito maquiados e um cabelo de Iracema , que resolveu estudar antropologia para ter uma visão mais holística da vida. Ela já está com o dote garantido, mas comentou que depois do mestrado ficará mais complicado conseguir um noivo à altura; uma simpática indiana que me conta sobre as contradições de um sistema de castas que se transforma na vida pública, gerando mais oportunidades políticas e econômicas, mas se mantém na vida privada, reproduzindo em casa as tradições alimentares e a maneira como se define quem serão seus/suas companheiros(as) e como celebram essas uniões. Há também um psicólogo búlgaro que estudou sobre o suicídio, uma inglesa que morou no Quênia, uma islandesa que estudou antropologia nos EUA, uma chinesa andrógina.

Pois um dos temas mais discutidos na aula foi justamente o assunto onipresente nas revistas femininas, nas conversas das amigas a partir dos 30 anos, o que move a indústria de bolos, docinhos e buffets, é discutido nos divãs, cartórios, igrejas, é ritualizado com a troca de alianças e grandes festas, o cimento e o tijolo usado na construção da sociedade: o casamento.

Até que ponto somos livres para escolher se casamos ou não, e com quem? Casamentos com primos cruzados, tão comuns tanto nas tradicionais famílias inglesas da era vitoriana como nas sociedades consideradas primitivas pelos mesmos ingleses, indicavam de forma explícita não apenas quem estava proibido como potencial parceiro(a), mas também a que grupo pertencia o(a) noivo(a) mais apropriado(a). Desde então, ficou claro que quando falamos em casamento, estamos tratando da aliança entre dois grupos, clans, famílias, não da aliança entre duas pessoas (quem nunca ligou pra ex-sogra pra justificar a “devolução da mercadoria”?).  Lévi-Strauss foi além e disse que a aliança entre os grupos acontece por meio da troca de bens, direitos, obrigações e… mulheres. As mulheres não seriam, portanto, agentes nessa negociação,  mas objetos – os mais preciosos objetos que o clan poderia oferecer, já que elas não apenas simbolizam a união, mas a constituem, e geram os filhos que garantirão a continuação daquela linhagem.

E a polêmica esquentou mesmo quando fomos apresentados aos textos que comparam o casamento heterosexual “por amor” com os casamentos arranjados, mostrando que eles podem não ser tão distintos assim. Madhu Kishwar foi a autora mais enfática. Ela rebatizou o casamento por amor como casamento “auto-arranjado”, e mostrou as suas desvantagens, já que a mulher é responsável por traçar sozinha, sem a ajuda dos seus familiares, as estratégias para caçar um marido e para manter outras longe dele, se submetendo a algumas humilhações e torturas (ela não cita, mas poderíamos exemplificar: lipo, cilicone e afins) para aumentarem as suas chances no mercado das “casáveis”.

Apesar de radicalizar, trazendo apenas exemplos negativos de casamentos ocidentais para fazer valer o seu argumento (o que poderia ser contra-argumentado por exemplos de casamentos legais, que contam com o apoio da família dos dois lados), a pesquisadora indiana trouxe alguns pontos interessantes: nos dois tipos de casamento, pesam os mesmos fatores: desejo por sexo regularmente, segurança financeira, status social e o desejo de ter filhos. E no ocidente, a tendência não é que os casamentos aconteçam entre grupos da mesma classe social, origem, formação… casta?

No final, ela arrisca uma receita que pode determinar o destino da mulher no casamento: 1. a independência financeira  (bem que minha mãe dizia que o melhor marido é a profissão!); 2. a disposição do marido em assumir as responsabilidades de ter uma família (mas todo o debate não se resume à definição de quais seriam essas responsabilidades? Acho que cada um acha que é uma coisa, ninguém fala nada supondo que o outro já sabe, e aí…); a receptividade da família do marido; o respeito entre as famílias envolvidas no contrato; possíveis restrições sociais, familiares e comunitárias em relação ao comportamento masculino; a disponibilidade (ou não) de outras mulheres para o homem depois ele que cagou na cabeça de sua esposa; o apoio dos seus pais. Qualquer semelhança com o teste da Marie Claire é mera coincidência!

P.S.: pedi ajuda à alma do Malinowski, que fundou o curso de antropologia da minha escola, para me iluminar na prova, mas o resultado só sai em julho. Pelo que entendi até agora, na antropologia, assim como na vida fora dos textos, longas observações sobre o comportamento humano resultam em conclusões que vêm em forma de mais perguntas.

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