Tão Longe Tão Perto


Fogo da discórdia
16/06/2009, 2:21
Filed under: Fogo da Discórdia

Incêndio 1666

Vivo em Londres. “London? Yes, London. You know: fish, chips, cup ‘o tea, bad food, worse weather, Mary fucking Poppins… London” (Diálogo do filme Snatch, traduzido toscamente como: Londres? É, Londres, sabe: peixe com fritas, chá, comida ruim, clima pior ainda e a porra da Mary Poppins… Londres!). Com essa fama, tratei de requisitar acesso à cozinha na residência estudantil. Por isso, pago um pouco mais, mas garanto comidinhas mais saudáveis e gostosas do que as do bandejão. Não que meus dotes culinários sejam lá essas coisas, mas em terra de cego… É até covardia ter passado tanto tempo observando minha mãe preparar o prato preferido de cada um dos 20 que almoçam lá todo domingo. Resultado: qualquer bolinho batido à mão faz o maior sucesso.

Enquanto não tenho cacife pra provar as iguarias de Jamie Oliver ou do temido chef Gordon Ramsay, sigo acreditando que o melhor da culinária local é produzido na Cozinha N° 3 do 6° andar do meu alojamento.

Nicola garante o Parmiggiano Reggiano de primeira e uma conversa ácida sobre política. Ele capricha nos adjetivos, mas todo xingamento parece insuficiente diante da performance do premiê italiano.

Gaia é doce como o tiramissu que ela prometeu me passar a receita e estoca a geladeira comunitária com o legítimo pesto genovese preparado por sua avó.

David é um canadense que redime o pecado de usar catchup no macarrão com a sua simpatia.

Moetia veio do Taiti pra acompanhar o namorado norueguês que ela conheceu quando estudava na Austrália. Eu sempre tenho a sorte de estar por perto quando ela prepara crepe com nutella.

Tem também a Radca, uma estudante indiana de PhD em economia, que não perde muito tempo na cozinha, mas de vez em quando bate um papo; e a Lilly, uma inglesa que só usa o microondas pra esquentar feijão e sopa em lata. E tantos amigos (brasileiro, colombiano, português, alemão, nepalês, romena, búlgara…) que não têm acesso à cozinha, mas vêm pra tomar um café, celebrar o início e fim de cada semestre, usar o forno pra esquentar uma pizza, conversar, rir um pouco e disfarçar a saudade que cada um sente do tempero de casa.

Só que ultimamente, a cozinha tem nos feito colecionar inimigos. Alguns estudantes mais estressados começaram a ligar para a recepção, reclamando do barulho ou do risco de acionamento dos detectores de fumaça, extremamente sensíveis em todos os prédios londrinos, talvez por trauma do Grande Incêndio de Londres em 1666, que, aliás, começou em uma padaria…

Querem nos fazer obedecer às regras: “Respeitem os outros usuários. Convidados não são permitidos”, diz o cartaz, ignorando qualquer possibilidade de consenso sobre a presença dos amigos.

“Mantenha esta porta SEMPRE fechada”, informa outro cartaz, para onde apontou o dedinho da chinesa CDF que chegou disfarçada de fantasma da ópera, com metade do rosto coberto por uma máscara para a pele e saiu indignada quando percebeu que sugeria um verdadeiro atentado, nos trancando naquele cubículo sem janela ou qualquer ventilação.

Ontem foi a vez do subgerente nos explicar o que teimamos em não compreender: “Vocês não estão em casa. Esta cozinha é pra cozinhar, mas não pra cozinhaaaar. Entenderam?”