Tão Longe Tão Perto


Enquanto o pão de queijo não vem

beigelr-23

Não tem jeito de driblar saudade. Nem a própria palavra pode ser substituída por outra no idioma local, que dirá aquilo do que a gente sente falta. Mas em busca de adaptação, iniciei hoje uma busca por potenciais substitutos temporários para coisas que proporcionaram aconchego familiar por muitos anos.

A mudança para uma região mais antiga da cidade será fundamental nesse processo. Aqui do leste, é possível vivenciar o multiculturalismo característico de Londres relativamente livre das excursões, souvenires e dos preços para viajantes. Nada contra o turismo, mas é impossível sentir-se em casa em meio a tantos cliques e poses como na Ponte do Milênio, que atravessava diariamente no caminho para casa. Com a chegada do verão, o número de máquinas fotográficas quintuplicou naquela área e a corrida de obstáculos exigia mais e mais atenção, entre uma gracinha e outra para as câmeras.

Pode ser que boa parte da adaptação dependa de criatividade e disposição, como provou minha amiga italiana, que chamava o museu de arte moderna e contemporânea de “Mamma Tate”, quando avistava a chaminé da antiga central elétrica de Bankside, feliz por já estar chegando em casa. Então vou usar a nostalgia para tentar descobrir meu lugar e superar o estranhamento.

Agora moro na Crispim Street, nome que me remete a meu querido amigo baiano Joselito Crispim, figura doce e genial, artista e empreendedor que inventou uma organização paradoxalmente chamada Grupo Cultural Bagunçaço, que colore a vida nos Alagados, periferia de Salvador, com percussão, cinema, teatro, saúde preventiva, reciclagem. Para manter vivo o centro cultural, que também promove intercâmbios e turnês internacionais das bandas de lata, ele dialoga com suavidade com os pais da criançada, moradores, padres, políticos, músicos, estudantes, cineastas, burocratas e representantes de organismos internacionais. Inspirador pra uma fase de pesquisa intensa sobre a identidade das meninas em situação de exploração sexual no Brasil, tema da dissertação que devo finalizar em agosto.

A dois quarteirões da Crispim Street, está a rua mais diversa e vivaz que conheci até agora – Brick Lane. O nome deriva das antigas fábricas de tijolos (bricks) do século 15, mas a história do lugar foi sendo construída do século 17 pra cá por imigrantes franceses (os calvinistas conhecidos como Huguenotes), irlandeses, judeus, bengaleses, muçulmanos. No domingo, durante uma espécie de “feira do rolo” onde se vende de bicicleta a disco de vinil, mulheres de burca procuram brinquedos para seus filhos enquanto chinesas de cabelo vermelho, mini-saia e meia arrastão expõem roupas usadas ao som da guitarra de um clone do Jimmy Hendrix antes das drogas. Do outro lado da rua, dezenas de restaurantes indianos oferecem comida boa e barata.

Tia Marina, Érico, Andrea e minha amiga Aline me ajudaram a explorar a região e tudo indica que já encontramos o substituto pras travessas de pão de queijo de domingo: o beigel, um pãozinho judaico em formato de anel que não tem o queijo curado de Coró, mas deve ter a mesma quantidade de calorias. Viciei, principalmente no que vem com recheio de cream cheese. Já fui à padaria três vezes desde que cheguei e me disseram que é lá que os boêmios terminam a noitada, pois é uma das únicas casas abertas 24horas. Perigo.

Mais tarde, nos deixamos levar pelo cheiro do curry e encerramos as andanças com um jantar a base de papadam e cerveja Cobra gelada, enquanto rolava um clipe de Bollywood na TV.