Tão Longe Tão Perto


A revanche dos claptomaníacos
15/05/2009, 1:06
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dr1014_eric_clapton_c753347_1203811723Naquela tarde de 1990 fui a pé até a 2001 do Conjunto Nacional pra comprar o ingresso do Diogo pro show do Eric Clapton no Nilson Nelson. Tinha 15 anos e no dia seguinte eu descolaria a grana com meu pai pra comprar o meu, mas aí já era tarde demais. Esgotados. E na Gabriela Discos? Nada. Me consolei pensando que o Diogo merecia mais que eu pois ele era guitarrista, estava até deixando o cabelo crescer há um ano e eu nunca passei dos dois acordes de RPM. Até os 12, quando fazia aula de violão, eu achava que Paulo Ricardo era roqueiro e pedi pro professor me ensinar a única música que não sei tocar até hoje.

Ouvi Clapton pela primeira vez na casa dos meus primos, que me apresentaram muitos outros sons, entre otras cositas más, incluindo o filme que sempre associei com ele, apesar de ter sido inspirado no Robert Johnson: A Encruzilhada, em que Ralph Macchio (de Karatê Kid, cadê ele?) é levado até o lugar onde o bluesman fez um pacto com o demo. (Duelo de guitarras com Steve Vai).

She don’t lie, she don’t lie não fazia sentido nas aulas da Cultura Inglesa, mas foi tema de algumas conversas no gramadão do Sigma. Era apologia à Cocaína? Parece que o Clapton teria dito que a letra na verdade era anti-droga (If you wanna get down, down on the ground; cocaine), mas pouca gente sabia a história do bluesman J. J. Cale, que escreveu e gravou a música no ano em que eu nasci, pra tentar argumentar algo mais consistente.

O fato é que perdi o show e tive que amargar o silêncio no recreio do dia seguinte, quando todo mundo comentava o virtuosismo do mestre Clapton, que deu uma aula pra galera. Realmente, aluno de guitarra era o que não faltava naquela escola. Num churrasco dois anos depois, a idéia era fazer uma Jam, mas ficou meio inviável, pois apareceram uns 13 guitarristas (Robert, Diogo, Tales…), 1 baixista (quem era? A Krishna também tocava baixo, mas só sozinha porque era tímida) e uns 3 bateristas (meu primo, Karine, não lembro mais).

Eis que 19 anos depois, consegui a chance da reparação: show do Eric Clapton na próxima quarta-feira, no Royal Albert Hall, em Londres (acústica perfeita), com direito a recreio no dia seguinte na LSE pra me fartar nos comentários. E ainda tenho dois ingressos extras pra levar mais gente, pois meu namorado adiou a viagem pra Londres pra que eu pudesse estudar mais. E meu amigo que iria comigo vai ter que se fantasiar de garçom pra um jantar Black Tie de trabalho. Pelo tempo que já se passou desde que anunciei que tenho os ingressos disponíveis sem ninguém se manifestar, estou desconfiada que vou ter que ligar pro Brasil pra contar minhas impressões depois do show. Meus colegas têm em média dez anos a menos que eu. Eles nunca ouviram o chiado dos bolachões, nem gravaram fita-cassete pra namorada. Quem conhecia Eric Clapton me perguntou: “mas ele ainda tá vivo?”, desavisados do pacto.

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