Tão Longe Tão Perto


Sem celu, com lar
02/12/2009, 5:09
Filed under: Sem celu com lar

Alugar uma casa em Bangalore, terra da tecnologia, é muito, mas muito mais fácil que conseguir um celular em seu nome. Compare os dois processos, começando pelo produto final. A luta por um chip vai no próximo post.

Na mesa: Apê de um quarto a 5 minutos do trabalho com direito a companhia especial de alguém mais famoso que os Beatles*.

Nível: fácil, mas depende de uma grana inicial.

Ingredientes:

– Uma bolada financeira equivalente a 11 meses de aluguel. Os proprietários costumam cobrar 10 meses adiantado como caução, além do pagamento mensal. Esse dinheiro será devolvido no término do contrato.  A 11ª parcela vai para o corretor. Sem dúvida é salgado, mas substitui a garantia dos fiadores, que no Brasil pode ser uma dor de cabeça para quem é de outra cidade, imagine outro país. De qualquer forma, os valores são bem inferiores aos aluguéis no Brasil, que dirá Brasília, onde o setor imobiliário é dominado pelo vice-governador. O aluguel de um apê de um quarto varia de 4000 a 9000 rúpias (150 a 350 reais), bem menos do que coube na meia do deputado Prudente.

– O semanário de classificados chamado Add Mag (10 rúpias), lançado no domingo e vendido em qualquer banca ou birosca.

– Aproximadamente 30 minutos para ver cada imóvel anunciado. Quatro visitas são suficientes para conhecer o padrão.

– Um telefone. Se já tiver sido bem-sucedido na saga para conseguir um celular antes do aluguel, ótimo. Senão, em cada esquina há um telefone público. Cada ligação sai por 1 rúpia.

Modo de fazer:

Os imóveis são anunciados por bairro e número de quartos. À primeira vista, os termos parecem indecifráveis (vaastu, lndp, brokers excuse, a/b, kavery), mas é só tirar as dúvidas com o corretor. Atenção pois alguns proprietários restringem o uso da cozinha para vegetarianos, mas isso costuma estar explicitado se for o caso.

Depois de selecionar um apartamento de dois quartos no jornal, marquei com o corretor na frente do Coffee Day (rede local de cafés, nada de Starbucks!) mais próximo do escritório. Segunda de manhã ele passou lá de moto, me deu carona e, quando viu que era só para mim, ofereceu um imóvel de um quarto, que ainda nem tinha sido anunciado. Topei ver primeiro. Pronto, já estava decidido. Os outros seis apartamentos só vi para achar os defeitos. Os de dois quartos são gigantes. Num quarto dorme o casal com alguns filhos. E no outro os sogros com o resto da meninada. Estou longe de precisar disso.

Marcamos um encontro com Mr. Babu, o proprietário. Ele quis mostrar o apartamento novamente. As coisas do antigo morador ainda estavam lá. Se eu não quisesse comprar os sofás deixados pelo moço, Mr. Babu o faria para equipar o imóvel. E assim foi. A próxima reunião foi pra assinar o contrato, bem parecido com o brasileiro e registrado em cartório.

No dia combinado, peguei a chave e me mandei com minha mala. Mas ao chegar no terracinho do terceiro e último andar, vi roupas no varal e poltronas do lado de fora. Na porta de casa, flores penduradas, e desenhos de giz e cumcum (pó vermelho usado para fazer uma marquinha na testa como forma de proteção/benção. Seria urucum?) na soleira para trazer bons fluidos. Na estante, a imagem de Krishna, geralmente retratado como um menino gordinho e mimado, num altarzinho recheado com flores, leite, açúcar, incenso. Esse Mr. Babu não tem palavra? Combina uma data em que o apartamento ainda não foi desocupado? Liguei brava para o corretor e descasquei. “No problem, madam. Vou falar com o proprietário para verificar”. Quando ligou de volta, morri de vergonha. Mr. Babu  tinha feito puja (o ritual de adoração às deidades) especialmente para pedir proteção e prosperidade por minha entrada na casa!. Acredita-se que por meio dos mantras entoados nesse ritual, a energia cósmica desce, mantendo aquele ícone vivo. O puja é então o procedimento para comunicar espiritualmente seu desejo aos deuses. Lembrei que quando visitei o templo do poderoso Hanuman (o Deus-Macaco) em Mysore, vi uma pessoa levando uma moto novinha para ser “abençoada” por um puja antes de usar. Depois me explicaram que, numa casa nova, devemos deixar o leite ferver até derramar, para que não falte nada no novo lar.

Depois da primeira noite, ao sair para o trabalho, não consegui trancar a porta do lado de fora. Na minha confusão matinal, pensei que aquilo poderia ser uma lição de Krishna por eu ter me comportado como uma ocidentalzinha nervosa e desconfiada na noite anterior. Então comprei flores (vendidas nas ruas e na frente dos templos por toda a cidade), pedi desculpas e colori ainda mais o altar antes de acordar Mr. Babu para falar do problema da chave. Ele mora a duas casas da minha. Conheci sua esposa e sua filha, que deve ter uns 20 anos e ajuda na tradução quando os pais não se lembram das palavras em inglês. Me convidaram para o café da manhã, mas aleguei urgência por causa do trabalho. Ele se prontificou a verificar imediatamente e conseguiu trancar a porta com toda tranquilidade!

Pode ter sido só falta de jeito ou fraqueza sem o café da manhã. De qualquer forma, fiquei feliz por ter feito as pazes com Krishna e sigo cantando para ele aquela música do Jorge Ben (Frases), que como bem lembrou o baiano Luma, ficou famosa na voz do Caetano: “Eu só quero que Deus me ajude e o menino muito mais também… olha o menino, ui. Olha o menino, ui ui ui”.

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*Há uma semana, estava mostrando para as meninas da pensão as fotos da celebração dos 40 anos do disco Abbey Road. Dizia que uma multidão compareceu à frente da gravadora em Londres para imitar a famosa foto em que os quatro atravessam a faixa de pedestre, quando fui interrompida: “Que Beatles?”.

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