Tão Longe Tão Perto


Seis sabores da vida em uma rapadura
17/03/2010, 1:30
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Hoje começa o Ano Novo por aqui! É feriado de Ugadi (Nova Era), dia da criação, que a cada ano cai numa data diferente, seguindo o calendário lunar hindu. Entre os votos de renovação trazidos com a primavera, nada de “muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender”, mas algo como “aceite a raiva, o medo, a tristeza, a alegria, os desgostos e as surpresas. São esses os seis sabores da vida”.

Para representar uma combinação tão realista, o principal prato do dia é uma mistura de rapadura, flores de neem (não achei a tradução, é uma árvore medicinal tipicamente indiana que pelo jeito tem gosto de cabo de guarda-chuva), manga verde, suco de tamarindo, pimenta verde e sal. No caldeirão mágico: o gosto doce, amargo, picante, azedo e ardido do mundo real. Mas como é preciso sonhar, eu caí de boca mesmo foi no Kaayi Holige, uma espécie de crepe doce com um leve gostinho de coco, servido em edição extraordinária no “Dosa Camp”, uma lanchonete especializada naquele prato que me fez passar vergonha no Brasil.

Sentada na escada da loja ao lado, fechada por conta do feriado, devorei o petisco acompanhado de café, que aqui é servido sempre muito doce e com leite. Os atendentes têm uma técnica de esticar a mão que segura a cumbuca de leite até lá em cima e dali jorrar uma cascata branca que chega espumada no copinho de café.

Acontece que meu dia seletivamente açucarado ganhou também outros sabores, narrados por um crítico gastronômico fictício extremamente severo que, no leito de morte, relembra obsessivamente todos os gostos de sua infância, juventude e vida adulta nos melhores restaurantes franceses, na tentativa de levar para a eternidade o que mais marcou seu paladar.

Sua satisfação derradeira deve ter sido parecida com o que senti quando Prasanna, o office-boy mais doce do oriente, anunciou no escritório: “Carta do Brasil!”. Mostrei todos os dentes enquanto rasgava o papel pardo com selos remanescentes do ano da França no Brasil, que apesar de atrasados, tinham tudo a ver com o conteúdo: Eis que Rachel Mello teve a delicadeza e a sagacidade de comprovar a eficiência da ECT e dos Correios Indianos me fazendo receber “A Morte do Gourmet”, de Muriel Barbery, a tempo de devorar tal iguaria entre uma dentada e outra deste feriado. Um doce Ugadi pra vocês!