Tão Longe Tão Perto


Sabor Caldas Novas
18/11/2009, 14:52
Filed under: Sabor Caldas Novas

Você já foi num daqueles clubes/hotéis de Caldas Novas com piscinas de água quente? No começo é legal, principalmente pra nadar de noite, no friozinho. Mas aí o dia amanhece, o sol do Goiás racha na nossa cabeça e a gente começa a notar que de todas as torneiras só sai água quente. Todas. Depois de escovar os dentes, nadar, tomar uma chuveirada na beira da piscina, tomar banho no quarto, a pele já mais enrugada que maracujá de gaveta, começa a bater aquela vontade de encontrar uma cachoeira, uma beira de rio ou qualquer fonte de água de bater o queixo, só pra lembrar como é gostoso mergulhar na água quente de novo.

Acho que o efeito Caldas Novas começa a bater em mim depois de três semanas comendo pimenta no café da manhã, almoço, jantar, salgadinhos, biscoitinhos, molhos, sopas. Juro que isso não é uma reclamação. Não como carne e estou no paraíso vegetariano. Também sou grata porque tenho a oportunidade de provar comida caseira, preparada por D. Uma, dona da pensão. A culinária indiana é muito rica: a variedade de folhas, temperos, tipos de lentilha e outros cereais demandam um glossário ilustrado anexo ao caderno de receita que pretendo começar a preparar. Mas como não estava acostumada, parece que preciso cada vez de mais iogurte para aliviar. O intestino agradece. E a reposição de cálcio também está garantida até a menopausa, já que a gente nunca sabe quando ela vai começar.

Ontem, depois de uma pratada de arroz temperado com limão, amendoim, lentilha, semente de mostarda, cominho e… muita pimenta no café da manhã, achei que tinha sentido um gostinho picante também no café. É na pensão que tenho o café mais forte e mais gostoso. Em todo canto, se serve café com leite, mas na pensão e no escritório o pessoal já sabe que gosto só do café, sem açucar, sem nada, embora achem tudo isso muito estranho.

Minha estratégia com Uma é assim: eu coleciono todos os adjetivos que consigo lembrar para elogiar a comida que ela faz. Sei que não é muito espontâneo, mas é verdadeiro e tem dado certo. No início, ela estava muito desconfiada, dizia não pra tudo o que eu pedia e chegou a me dar bronca porque perdi a hora do jantar. Agora ela amaciou e faz questão de me contar como se prepara cada coisa. Vou anotando tudo, sem saber como escrever os nomes dos pratos em Hindi ou Kannada. Então perguntei o que tinha de diferente naquele café que era muito melhor do que os que eu provei na rua. Pois ela torra e mói o café em casa! Na despensa ela guarda os grãos produzidos pela vizinha de baixo. O gostinho picante provavalmente é da chicória, que costuma ser misturado (ou até substituir) o café por ser muito mais barato, mas também mais saudável, já que é mais um regulador da flora intestinal. Então parece que a culinária indiana, assim como tudo o que pude vivenciar aqui até agora funciona assim: somos apresentados ao extremo, ao radical, pra ver até onde se suporta sentir, para então conhecermos o seu contraponto co-existindo ali naquela proposta de equilíbrio sutil.

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