Tão Longe Tão Perto


Roupa suja se lava em casa

Páh!… Páh!… Páh!… A partir das 6h da manhã, esse pode ser o som do despertar na Índia. Não se trata de fogo cruzado, nem do senador Eduardo Suplicy declamando o Rap dos Racionais. É trabalho, e pesado: a lavadeira já está na laje.

Sindoor (pó vermelho) na testa, piercing no nariz, pé descalço com anel no dedo (que só as casadas usam), sari impecável, ela já fez o puja (ritual de adoração), preparou o idly (panquequinha de arroz fermentado) no café da manhã e está literalmente batendo (n)a roupa da família, algumas vezes com a ajuda de um bastão.

Máquina de lavar não parece muito popular por aqui. No meu apê nem achei onde poderia instalar. Mas na parte de cima das casas, há sempre uma pedra cuja função é aparar a roupa que apanha e se esfrega nas mãos da lavadeira. Depois de um bom mergulho no balde com sabão, ela lança o pano contra a pedra repetidas vezes, com a mesma obstinação do avatar que mata o demônio no hinduismo.

Aqui a lida começa cedo e isso fica muito claro com os sons que a gente escuta antes de levantar. Parece haver uma competição para ver quem é mais dedicado e trabalhador, sem vencedores ou perdedores aparentes. Antes ainda de ouvir as chibatadas de sabão: uuuuuoooô…ôoouuuôoo… um zumbido mântrico parecido com o som das corridas de fórmula 1 transmitidas pela TV chega até os ouvidos (sem a voz do chato do Galvão Bueno, claro). Diariamente, às 5h30, os muçulmanos reúnem-se para a primeira meia hora de cânticos e orações.

Em Roma, como os romanos. Para fazer a minha parte no processo de adaptação, tenho tentado desembarcar do sono com esta toada vinda das mesquitas, a tempo de me juntar a meus vizinhos na aula de ioga das 6h, na escola que fica a um quarteirão de casa. Quando consigo usar a madrugada para dormir mais e pensar menos, integro o coro do ômmmm antes do sol nascer para então iniciar os exercícios de respiração e alongamento conduzidos em kannada, o idioma local. Vou imitando o mestre, só não dá para fechar os olhos. Meu nome é o último da chamada, depois de uma lista de 20 colegas, que inclui diversos deuses e deusas: Gowri, Lakshmi, Ganesh… Gabhrielll “Yes, sir!”.

Voltando para casa, escuto os primeiros “créus” dos corvos e sons de sininhos que emanam junto com o perfume de incenso vindo do altar de cada família. A esta hora (7h30), o trânsito já gerou suas primeiras buzinadas e os vendedores de rua começaram a circular com seus carrinhos, gritando em kannada qual o produto da vez: “Huá!!”, berra a dona das flores (que devem ser renovadas diariamente no puja). “Sopúuuu!”, grita o menino do cheiro verde (que aqui tem muito coentro e folha de curry). “Aiô!!”, brada o homem das bananas, como se aplicasse um golpe de kung fu (tá, sei que em Minas aio é aio, uai, mas o que ele diz é uma cifra para “baale hannu”, como se diz banana em kannada). Eles seguem um estilo entre o “garrafeeeeeiroooo” da minha infância (que não faz mais sentido em tempos de garrafas pet) e os vendedores de “Bixscoito Grobo” de Ipanema, só que bem mais tímidos e lamentadores que os cariocas.

Fecho a porta para me arrumar para o trabalho e ligo o som bem alto antes de entrar no chuveiro (sem banho de cuia desde que me mudei!). É claro que vai ter cantoria. Só que pelo menos ali eu sou o DJ.

P.S. A roupa lavada tem que sair de casa para a etapa seguinte, mas conto sobre o processo de passar roupa em outra ocasião.

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