Tão Longe Tão Perto


Pensão para moças de fino trato
08/11/2009, 15:42
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Almoço de domingo

Quarto das meninas

Daqui a três meses, Sam (Samyuktha, que significa União) assume um compromisso. Ela ainda não sabe quem será o noivo, mas seus pais já separaram o ouro do dote e estão em contato com as famílias amigas em busca de um moço à altura. Ela tem 23 anos, dois a mais que a idade considerada limite para se casar em sua comunidade, próxima a Hampi. Sam é formada em finanças e veio para Bangalore há quase um ano trabalhar na HP, que fica há mais de 20 quilômetros de casa. Mas a empresa banca o táxi, isso não é problema. Seus pais procuram alguém com nível educacional e profissão equivalentes. Este negócio que os opostos se atraem parece não colar por aqui. Antes de se casar, Sam deve voltar a Hampi para dez dias de intensivão com sua mãe. É que faz tempo que ela não cozinha, já que na pensão onde moramos o café da manhã e o jantar já estão inclusos no valor mensal. Aliás, Uma, a dona da pensão, cozinha super bem e procura fazer o gosto de cada uma. Tem usado menos pimenta em consideração a mim e me explica com toda paciência do mundo o modo de preparo de cada alimento. Até agora meu preferido foi o poori (purí), que parece um pastel  frito, servido com batatas ao curry, preparado geralmente aos finais de semana ou feriados.

Pago 6000 rúpias por mês por um quarto só pra mim. Quando divido os preços daqui por 27 para chegar ao valor aproximado em reais, tudo parece de graça, mas tenho que me lembrar que agora meu salário também será na moeda local. É tudo muito simples no bangalô de Bangalore. Bem mais do que na minha vidinha de classe média em Brasília ou mesmo no alojamento estudantil de Londres. Faz todo sentido viver de forma simples, mas a adaptaçao mais difícil é com algo bem cotidiano – o banheiro, que fica no mesmo terraço onde está meu quarto, mantendo a tradição do vaso embutido no chão (já tinha visto em beira de estrada) e banho de cuia, combinado com meia hora de antecedência pra dar tempo da água esquentar. Paguei mais 100 rúpias para ter direito à segunda torneirada quente no fim do dia. Como disse Julieta, amiga que passou três meses na Ásia, o banho de cuia é educativo pra gente ver que precisa de pouca água. Mas aqueles lindos cabelões de Iracema das indianas requerem dois baldes no mínimo. Os banheiros públicos de shoppings ou restaurantes também me pregaram uma peça. A maioria tem o vaso ocidental, mas dingobel, nada de papel, só chuveirinho ou torneira com baldinho. Minha colega indiana contou que quando morou nos EUA ela é que teve dificuldade para se adaptar pois é a água que dá sensação de limpeza. E com roupas de algodão, tudo seca rápido.

Mas essas dificuldades são totalmente esquecidas na hora da refeição, quando fico totalmente entretida na conversa com Sam, Sujatha, Goura e Rashmi, meninas de 23 a 28 anos que vieram de outras cidades para trabalhar. Elas me ensinam algumas palavras em Kannada, o idioma local, fazem perguntas sobre o Brasil, falam sobre seus planos e traduzem o que Priya quer dizer. Ela é uma menina tímida que trabalha na casa, como um daqueles casos clássicos de trabalho infantil doméstico que a gente tanto vê no Brasil. Veio do estado de Tamil Nadu com George e Uma, os donos da pensão, e só fala Tamil, a língua daquela região. Não tem mãe, o pai é motorista e vive viajando. Ela tem um problema de audição e não se dá com a madrasta, então o pai prefere que ela fique aqui. Parece ter 11 anos. Uma disse que ela tem 19. Então, fazendo a média imagino que tenha uns 14 ou 15. Priya ficou muito preocupada porque eu tenho cabelo de menino, mas falei que a vantagem é que meu banho é mais rápido e econômico. As outras meninas falam pelo menos três idiomas: inglês e hindi, ensinados na escola, e kannada, o idioma de Karnataka, estado de Bangalore. Mas acabam aprendendo também a língua do lugar de origem dos seus pais e de seus amigos mais próximos.

Sam parece não ter dramas sobre seu futuro casamento arranjado. De fato, há casos bem sucedidos, em que as pessoas aprendem a se respeitar e se amar. Mas Goura coleciona algumas histórias menos felizes, como a de uma prima médica estudiosa e dedicada cujo marido (da mesma profissão) não aguentou o complexo de inferioridade e começou a maltratá-la, inclusive com violência física. Hoje divorciada e com uma filha, ela continua muito bem profissionalmente, mas o coração ficou congelado. A própria Goura não tem muita certeza se quer se casar. Ela é arquiteta, tem 28 anos, e já rejeitou uma proposta porque o pretendente era divorciado. “Se sou de primeira mão, porque devo aceitar alguém de segunda?”, disse. O problema é que se ela não se casar, empata a futura vida matrimonial da irmã mais nova, hoje com 19 anos, que só estará disponível depois que a primogênita  se arranjar. Já Sujatha parece viver o meio termo. Foi ela quem escolheu seu futuro marido, que conheceu na Inglaterra, durante um curso de software. Ele é cristão e vai aproveitar a vinda para o Natal para apresentar sua noiva hindu para a família. Ela está contando os dias para preparar os dois casamentos – um em cada religião.

As meninas sabem que, como ocidental, minhas escolhas são bem mais flexíveis e menos impactantes na vida do restante da família. A pergunta mais pessoal que me fizeram foi minha idade, depois de uma aposta entre elas pra tentar adivinhar. Claro que o fato de ter 34 sem marido nem filhos gera um abismo entre nós, mas sigo observando sem juízo de valor. Seria muito precipitado arriscar qualquer comparação sobre o grau de liberdade e de respeito à mulher. A diferença não é tão óbvia assim. No Brasil, o leque de pessoas casáveis é bem restrito para cada grupo social, o que não deixa de ser um pouco arranjado. As festanças de bodas ainda são símbolo de status. E a máxima “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher” não ajuda a conter os índices de violência doméstica. Pelo menos a Lei Maria da Penha, tem conseguido aumentar a quantidade de denúncias e levar os machõezinhos pro xillindró.