Tão Longe Tão Perto


O segundo sexo sem cerveja
04/05/2010, 1:30
Filed under: O segundo sexo sem cerveja

Simone de Beauvoir viraria os olhos como Sartre se pisasse num boteco de Pondicherry, território dominado por seus conterrâneos por 300 anos no estado de Tamil Nadu, na Índia. A ex-colônia francesa é conhecida por suas padarias, casas coloniais e pelo baixo preço da cerveja, já que o álcool é isento de algumas taxas cobradas fora do território, originalmente chamado de Puducherry, ou cidade nova, em Tamil.

Depois de um dia que parece já ter amanhecido aos 40 graus, achamos que também merecíamos gelar a goela. O motorista do auto indicou um bar mais invocado. Do lado de fora, uma placa com desenhos de drinques, como nas novelas da Globo nos anos 80. Subimos as escadas e entramos sem pensar num ambiente com ar condicionado totalmente escuro, com luzinhas vermelhas nos cantos e muitas mesas, todas ocupadas por cromossomos Y, fumando, bebendo e arrotando testosterona em alto e bom som. Antes que nossa presença fosse percebida e execrada, o garçom tratou de se aproximar e, gentilmente, se dirigiu ao representante da espécie masculina que nos acompanhava: o estagiário Pablo, francês com nome espanhol que desde o primeiro dia ganhou pontos com a equipe do trabalho, essencialmente formada por mulheres, ao declarar sua vontade de assistir a um festival de filmes feministas. “Acho que vocês se enganaram de lugar”. Pablo perguntou: “Meninas, vocês querem ficar aqui?” Shivani e eu poderíamos até bater o pé no clube do Bolinha, só de pirraça, mas o ambiente era muito insalubre, em todos os sentidos. Então, nos mandamos dali.

A viagem de 350 km Bangalore pra Pondicherry foi num busão relativamente confortável, que cruza a estrada na madrugada. O cansaço da viagem é recompensado pelo cheiro do croissant saindo do forno na padaria Le Cafe, onde chegamos às 5h30, a tempo de ver o dia amanhecer ao som das ondas do mar, que a gente só enxerga lá pras 6h.

Pra acordar no dia seguinte já numa praia propícia para o banho (de sári, se não quiser ser fotografada pelos locais), fomos para Auroville, uma comunidade há 8 km de Pondicherry que abriga malucos de todos os cantos do mundo, em busca de uma vida alternativa, que inclui ioga, meditação e tranquilidade. Por 250 rúpias por cabeça (10 reais), dormimos num bangalô de uma russa que botou o pé ali na praia há 20 anos e nunca mais tirou. Pelo livro de registro das visitas, ficou provado que o potencial internacional da vila procede. Só não tem brasileiro porque com a Chapada dos Veadeiros e Arembepe, é até covardia comparar a força das cachoeiras do cerrado ou o mar morninho do Nordeste com a água escura da Bahia do Bengal. Mas pra mim, explorar essas águas turvas teve um significado especial: é que fiz o caminho contrário ao dos portugueses, que depois de passar por essas praias, na Costa de Coromandel, chegaram até Minas Gerais e batizaram a cidade de onde saíram tantas pedras preciosas, entre elas os diamantes bravos da família Goulart.

Anúncios