Tão Longe Tão Perto


Noite Feliz
26/12/2009, 6:22
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Em meio a tantos deuses e deusas do hinduísmo, seres poderosos com cabeça de elefante ou macaco, criaturas com vários braços, deidades cultuadas diariamente, Jesus Cristo torna-se uma figura modesta, talvez mais próxima do personagem da história bíblica original.

Imersa no país da espiritualidade, sem pinheiro, amigo-oculto ou maratona de compras, até que foi fácil deixar o tal espírito de renovação chegar de mansinho, sem pressa, já que estou 7h e meia na frente dos meus amigos e familiares. Confesso que estava com certo medo da “dança da solidão”, mas em tempos de reconciliação, fiz as pazes com a Airtel, companhia de telefonia celular responsável também pela banda larga, que não falhou uma vez na noite de Natal e permitiu conversas, chats e troca de mensagens carinhosas com gente querida do outro lado do globo.

Aqui no sul da Índia, o Natal provou existir um certo sincretismo que me lembrou a Bahia, nas devidas proporções comparativas. Mas não é assim em todo o país. Estou mais perto do mar e longe de Caxemira, onde a guerra religiosa (entre hindus e muçulmanos) dá o tom da luta na fronteira com o Paquistão. Estou distante também das florestas de Orissa, onde grupos hindus reagem com veemência tentando impedir a controversa conversão praticada por missionários cristãos nas comunidades tribais.

Dia 25 de dezembro é feriado nacional, celebrado pelos cristãos, que representam 2,3% dos indianos, o que acaba sendo muita gente num país com mais de 1 bilhão de habitantes, segunda maior população do mundo (depois de China). Na véspera de Natal, já tinha ido ao shopping, onde vi um Papai Noel vestido de verde (provavelmente vindo da COP) e comprei pequenos luxos para minha ceia particular: produtos importados – macarrão Barilla, molho de tomate com manjericão e queijo granapadano – tudo um pouco mais caro que os petiscos locais, mas me prometi que naquela noite minha língua só adormeceria pelo vinho sul-africano, não pela pimenta.

No fim da tarde do dia 24, uma torta surpresa em que estava escrito com glacê “Merry Christmas” (Feliz Natal) interrompeu o ritmo de trabalho no escritório. Não sei se a galera estava comemorando o nascimento de Cristo ou a viagem dos chefes, que sairiam de férias no dia seguinte, mas foi legal fazer um intervalo. Alguém sugeriu um cântico natalino, mas ninguém foi capaz de ir além do Dingobel. Então na falta de saber o que fazer e condicionados pela presença de uma torta na sala de reuniões, cantamos parabéns pra você: “Happy Biiiirthday, dear Jesus…”.

Meus colegas hindus disseram que acompanhariam seus amigos cristãos na missa noturna. Fui à igreja conferir o presépio, mas a missa era em canará, o idioma local. Todos tinham também um convite para o almoço natalino no dia 25, inclusive eu! Levei uns brigadeiros para a casa dos avós da Nalini Andrade, de família 100% indiana, mas cujo sobrenome português veio com o “pacote conversão” recebido do catequizador de seus antepassados.

O que não sabia é que a trupe de Vasco da Gama não é a única responsável pela presença dos católicos em terras indianas. Acredita-se o apóstolo São Tomé (aquele do ver pra crer) tenha vindo ao sul da Índia em missão evangelizadora e que no ano 72 d.C. ele teria sido perseguido e morto sob mando do Rei de Mylapore (ao sul de Chennai, capital do estado de Tamil Nadu). Mas como a história é sempre contada pelos vencedores, hoje fica difícil saber o que de fato aconteceu depois que os portugueses dominaram essa região no século XVI, classificaram os hindus como pagãos, destruíram o maior templo dedicado a Shiva e construíram a Catedral de São Tomé. O lugar ficou famoso há exatamente cinco anos, quando o Tsunami destruiu tudo ao redor, mas não tocou a igreja, onde, conta a tradição, São Tomé teria cravado um poste na areia (hoje os degraus da catedral), anunciando que as águas não passariam dali.

Hoje, em ondas mais calmas, sigo firme no propósito de entender um pouco mais o lado de cá, mas sempre grata aos meus amigos e parentes que me mantêm em conexão afetiva constante com o lado de lá.

PS: Acabo de descobrir que a roupa original do Papai Noel era verde!! Vivendo e aprendendo. Roupa vermelha deve ser coisa da Coca-Cola!!! Vejam o link: Santa Claus

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