Tão Longe Tão Perto


No meio do caminho tinha uma brasileira
01/03/2010, 5:28
Filed under: No meio do caminho tinha uma brasileira

Tinha uma brasileira no meio do caminho. Só me dei conta da distância ao ver as letrinhas embaralhando em minha frente: Ashkhabad, Faisalabad, Mashhad, Yerevan… Não me lembro dessas cidades constarem nos livros de geografia… Kabul. Opa, essa eu reconheço. Sob meus pés estão as tropas que Obama prometeu retirar sem cumprir. O visual em nada se parece com o noticiário de guerra. São montanhas recortadas cobertas de neve numa extensão quase infinita. É lindo! Minha hipnose é interrompida pela comissária pedindo pra fechar a cortina. Os passageiros querem dormir. Faltam mais de 15 horas até o Brasil.

Depois de três meses no sul da Índia, a bagagem foi diferente pra casa. Não havia suvenirs inusitados de turista no oriente, mas pedacinhos do que aprendi a apreciar e que só fazem sentido se puder compartilhar com quem gosto. O tesouro da mala era um pacote de urd dhal, um dos inúmeros tipos de lentilha consumida diariamente na Índia. É com ela que se prepara os dois itens mais pedidos no café da manhã: o Idli, um bolinho fermentado cozido em banho-maria, e a Masala Dosa, uma espécie de panqueca recheada de batatas, com sementes de mostarda e açafrão e tantos outros temperos que estou longe de identificar. Já tinha testado a receita antes de viajar e tive até a ousadia de oferecer pra meus colegas indianos. Então, confiante, anunciei aos quatro ventos que só provaria a dosa quem chegasse cedo pro almoço de domingo. A família inteira já estava à mesa e eu suava para que aquele chiclete grudado na chapa se transformasse numa panqueca. O almoço esfriava e eu ainda tentava lembrar que parte do ritual tinha faltado. Na quinta tentativa frustrada,minha mãe assumiu o comando, depois de um olhar fulminante a la Gordon Ramsay, e criativamente fez a mistura virar um bolo, que só saiu do forno depois do almoço, quando todo mundo já estava com a pança cheia. Não tem jeito, mesmo no mundo globalizado, a massa sempre desanda ao transpor elementos de uma cultura para a outra.

“O Brasil não é para principiantes”. A frase atribuída a Tom Jobim e apreciada pelo antropólogo Roberto DaMatta dá uma esculachada no maniqueísmo gringo e exalta a complexidade de uma cultura em que depende; pode ser, mas não é bem assim; digo sim, mas é não; digo não, mas é sim. Confesso que já usei a citação muitas vezes, uma delas rindo de um colega dos Estados Unidos que se mudou pro Brasil e precisou de tradutor pra perceber que tinha sim que ir embora quando o dono da casa dizia “fica mais, tá cedo”. Com medo de ser mal educado, ele sempre sentava de volta, para desespero dos anfitriões, que já tinham colocado a vassoura atrás da porta.

Só que toda a malemolência que meu país me deu não é suficiente para compreender os códigos por aqui. Nem pra ser compreendida. Para começar, aqui sou simplesmente não-indiana. Mesmo se eu andasse com camisa da seleção escrito Ronaldinho (como farei na copa do mundo), muita gente nem saberia de onde vim. Ontem, estava no upahar (fast food indiano) com o estagiário francês que acabou de chegar e passou um senhor muito bravo gritando pra gente: “Australianos, vocês vieram destruir a Índia!”. Foi uma resposta aos ataques racistas sofridos por estudantes indianos na Austrália.

Então, deixa eu calçar a sandália da humildade. Um país com mais de 9 mil anos, 23 línguas oficiais, mais de 400 idiomas e dialetos, uma prática religiosa intensa e diversa, um arcabouço mitológico complexo, uma democracia em debate, um forte pólo tecnológico e científico definitivamente não é para principiantes. Quem sabe as posições invertidas da ioga me ajudem a ver o mundo de cabeça pra baixo e compreender um pouco do que se passa.

No cotidiano, me confundo o tempo todo por códigos aparentemente contraditórios. Para ficar no mais leve: sabe aquela mania carioca de te convidar, dizer que vai ligar, mas nunca aparecer? Aqui também rola. Sabe no interior de Minas, quando você tá perdido na estrada, e pergunta a direção pra alguém e ele te explica tudo errado, porque nunca vai admitir que não sabe? Aqui também tem. Sabe aquele atraso pontual, em que a gente marca um evento pras 7h porque sabe que o pessoal só chega às 8h? Normal aqui. E o cara que combinou de fazer um serviço, todo dia você liga pra lembrar, ele diz que aparece às 10h, mas nunca vem? De praxe. E muito mais. A cabecinha que balança, por exemplo, pode ser sim, pode ser não, pode ser não tô nem aí pro que você está dizendo. A colega que diz que adora o que você pensa pode estar querendo te matar. A chefe que se diz aberta para críticas pois as relações são horizontais pode estar demarcando o território hierárquico. E por aí vai.

Na volta de/para casa, o desafio agora é aterrissar, descer do avião, de onde a gente olha pela janela o desconhecido, sempre conferindo na tela em nossa frente a distância percorrida desde o local de origem.

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