Tão Longe Tão Perto


Minha novela das oito
02/11/2009, 10:12
Filed under: Minha novela das oito

DSCN3629

Domingo, 01/11. Engraçado ter tanto número 1 na data de hoje. Estou saindo de Londres, Longitude 0° 0′ 0″, e começando a contar o tempo a partir de outras referências, reordenando também minha noção de espaço, estilo de vida, valores. Aparentemente sou uma das sete pessoas ocidentais entre os passageiros que aguardam o vôo da Air India no aeroporto de Heathrow. Depois de mais de quatro horas de atraso, a funcionária (de Sári vermelho) nos informa que vamos finalmente decolar. Daqui a 8h e meia estarei em Bombaim (Mumbai). De lá sigo para Bangalore, onde vou trabalhar na ONG IT for Change, que pesquisa o impacto das novas tecnologias nas mudanças sociais.

Não assisti a novela da Glória Peres e confesso com humildade minha ignorância sobre o país de Gandhi. Até o ano passado a Índia parecia um lugar muito distante, onde minha professora de ioga fez um curso de formação e Mila e Geraldinho encontraram seus gurus. Apesar da excelente produção da novela das oito, tenho minhas dúvidas se ela ajudou na compreensão da cultura oriental ou se reforçou ainda mais a arrogante déia de que vivemos no mundo civilizado à frente do exotismo dos costumes milenares, como se uma linha evolutiva dividisse as sociedades e tradição não pudesse co-existir com o moderno.

Para quem está em Londres, a Ryanair e o eurocentrismo do império parecem encurtar as distâncias entre os cantos do mundo. A Ryanair é a companhia aérea irlandesa com vôos de baixo custo, mas sem conforto. Em setembro, consegui uma passagem por 6 pounds (taxas inclusas) para fazer uma viagem emocionante até a terra dos meus antepassados, no Veneto. Fácil e rápido.

O histórico europeu de imigração – seja para dominar ou buscar melhores condições de vida – parece ter gerado pessoas mais desgarradas, que se lançam no mundo ainda hoje sem medo de perder suas raízes. Por aqui ninguém achou estranho que eu tenha decidido morar tão longe de casa por um tempo. Por outro lado, a presença dos indianos é fortíssima em Londres. Eles têm resignificado ícones britânicos e integrado elementos orientais no cotidiano da cidade, para além de tudo o que foi roubado e exposto no Museu Britânico: ioga, meditação, curry e a pimenta usada sem moderação são alguns exemplos mais óbvios. Achei simbólico que durante a comemoração dos 40 anos da foto do álbum Abbey Road, na frente da gravadora, estava tudo muito sem graça, com aquela multidão atravessando a famosa faixa de pedestres de um lado pro outro, tirando fotos sem parar até que dois indianos salvaram o evento, sacando um violão para levar as baladas dos Beatles e botar todo mundo pra cantar e dançar.

Mas minha ida para a Índia talvez tenha muito mais a ver com a tendência de cooperação sul-sul entre duas ex-colônias constantemente citadas nas aulas de mestrado por suas complexas experiências de desenvolvimento político e econômico. Assim como no Brasil, as contradições socioeconômicas da Índia não são fáceis de entender. É o pais das castas, mas garantiu eleições democráticas sem voto de cabresto. É conhecida por sua pobreza extrema, mas integra o chamado BRIC, termo referente aos países emergentes economicamente, junto com Brasil, Rússia e China. Agricultores são explorados nas plantações de chá, mas a indústria tecnológica cresce a passos largos, criando empregos, gerando renda e inovação.

Não tenho dúvida dos ganhos pessoais que esta experiência vai trazer. Já no avião, traço o plano ideal enquanto devoro o arroz doce da sobremesa: me concentrar no presente, observar a novidade, aceitar o estranhamento e domar a maior tecnologia brasileira que vou levando na bagagem – saudade.