Tão Longe Tão Perto


Jantar dos deuses
07/12/2009, 17:32
Filed under: Jantar dos deuses

Na mesa: um fogão novo*

*Obs: O fogão mais comum da Índia é um fogareiro a gás de duas bocas. Longe dos panetones eleitoreiros e da carne assada, por aqui ninguém tem forno em casa. Os pratos locais são basicamente fritos e cozidos. Como não vivo sem bolinhos, já iniciei uma pesquisa por um forno elétrico. Mas o pão de queijo vai ter que esperar, pois até agora só vi daqueles pequeninos de tostar o pão.

Nível: médio

Ingredientes: uma xícara de leite, uma fruta, dois incensos e um punhado de: flores, folhas de curry, açúcar, lentilha e kumkum (aquele pó vermelho que os indianos usam na testa para pedir proteção. É açafrão).

Modo de fazer:

A vantagem do fogão/fogareiro é que é tão leve e pequeno que a gente transporta da loja para casa até de ônibus. Um com acendedor automático custa 3100 rúpias (115 reais), mas eu paguei só 2000 (R$ 74) graças ao Mr. Babu, o senhorio mais gente boa do pedaço que tive a sorte de encontrar. Ele é aposentado das forças armadas e por isso tem acesso a uma cooperativa que vende tudo a preço de custo. Pena que não tinha geladeira pois a que comprei no domingo em outra loja, cuja entrega foi prometida para o mesmo dia, até hoje necas. Para compensar a pechincha do batalhão, enfrentamos uma fila de duas horas, em meio ao pelotão inteiro, que se acotovelava no domingão livre para as compras. A segurança também é de dar medo, mas com Mr. Babu por perto estava tudo sob controle. Aliás, aqui não se pode perder o recibo antes de sair de qualquer loja, pois há sempre um guarda na porta que confere os pacotes e dá uma furadinha na nota, indicando que o cliente já saiu com o produto.

Chegando em casa feliz com o fim da ditadura da pimenta, conferi os procedimentos para a instalação.

– É só encaixar o cabo do gás encanado aqui do lado ó, explicou Mr. Babu pacientemente.

– Então posso começar a cozinhar?

– Que horas são?, perguntou Shruti, filha dele.

– 5 da tarde.

– Ainda não. Voltaremos aqui às 6h em ponto para o ritual de inauguração.

Antes da campanhia tocar, liguei pros meus pais para que eles pudessem participar via skype. Minha mãe riu um pouco durante o processo, mas a família do Mr. Babu também achou graça da gente, então tá 1 a 1. Aliás, a sogra dele já tinha vindo aqui só de curiosa. A velhinha subiu os três lances de escada, deixou o chinelinho do lado de fora e circulou pelo apê, rindo baixinho. Mas depois comentou que me achou gente-boa, pelo menos esta foi a tradução oficial feita pela neta dela. Talvez ela tenha até se decepcionado um pouco, porque apesar de ter cabelo curto e a pele mais clara, não há tanta diferença assim. Nada comparado a Mel, uma amiga do Rio Grande do Sul linda, branquinha, loirinha e de olhos azuis que encontrei no fim de semana passado em Goa. Pude ver de perto como os locais (principalmente homens) tentavam fotografá-la “sem ela perceber”, como acontece com as celebridades (só que sem o salário dos astros). Ela ficou dois meses e meio fazendo um estágio no norte da Índia e quando visitava os monumentos, tinha que segurar os bebês para uma foto com a fada encantada na frente dos templos.

Às seis badaladas, hora em que as rádios do interior do Brasil tocam “Ave Maria”, Jayanthi, esposa de Babu, trouxe a bandejinha com todos os ingredientes incluindo uma cumbuca de barro cheia de leite. Antes de usar o fogão pela primeira vez, deve-se deixar o leite ferver até derramar, como sinal de fartura, para nunca faltar nada nesta casa.

Ela enfeitou o fogão, passou kumkum em todos os botões, ofereceu uma fruta aos deuses, colocada em cima de uma folha, junto com a lentilha e o açúcar (no hinduismo pode-se comer os alimentos depois da oferenda), rezou, espalhando a fumaça do incenso, e me chamou para acender  a primeira chama. Mas na minha vez, derrubei a bandejinha e a oferenda no chão, o que acabou dando um toque Chico Science ao ritual, no melhor estilo “Que eu desorganizando posso me organizar”.

Nunca esperei tão ansiosamente pela borbulha daquela panela. A gente sempre sabe que mais cedo ou mais tarde o leite vai ferver, mas não dá para calcular exatamente quando. E é mais ou menos assim que me sinto em relação ao meu processo de adaptação aqui. “O leite caiu pro lado direito, ótimo sinal”, comentou Jayanthi.



Anúncios