Tão Longe Tão Perto


Gritando em silêncio
14/12/2009, 1:18
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Na quarta-feira (10 de dezembro), Dia Internacional dos Direitos Humanos, minha colega Niveditha,  pesquisadora na área de gênero, não almoçou com a gente. Ela e outros ativistas de ONGs indianas ficaram em jejum até as 6 da tarde em solidariedade à jornalista e poetisa Irom Sharmila, que há dez anos está em greve de fome pela retirada da lei de 1958 que garante poderes especiais às forças armadas no estado de Manipur, Nordeste da Índia. Sharmila começou o protesto no ano 2000, quando tinha 28 anos. Seu jejum foi motivado pela morte de dez pessoas num ponto de ônibus (sete anos após a Chacina da Candelária, só para não esquecer da nossa própria luta contra os abusos da polícia). Em nome da segurança e da ordem pública, os militares de Manipur matam, estupram, prendem, torturam, incendeiam. Volta e meia, Sharmila é levada à força ao hospital, alimentada por sonda e presa por tentativa de suicídio.

Após as seis, os manifestantes acenderam velas em frente à estátua de Mahatma Gandhi, encerrando a manifestação com uma vigília.

No mesmo dia 10, o líder político separatista K Chandrasekhara Rao quebrou a greve de fome que fazia há 11 dias depois que o congresso anunciou a abertura do processo pela criação do estado de Telangana, até então  integrado a Andhra Pradesh, no sul do país.

Em tempos de protesto contra a corrupção no DF, cinicamente justificada pela compra de panetones, é intrigante observar como do lado de cá a lição de não-violência de Gandhi permanece viva: líderes fecham a boca para gritar e assim conseguem mobilizar tanta força política. Tá certo que cada cultura encontra suas ferramentas de resistência, mas qual o preço do silêncio dos mártires?