Tão Longe Tão Perto


Dona das divinas tetas
04/07/2010, 16:51
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Hoje quis ser uma vaca. Atravessei a rua e lá estava ela, deitadona ao sol do meio dia, observando o movimento incessante dos carros, que desviavam para não machucá-la. Entre piscadas demoradas num domingo preguiçoso, aqueles olhões de cílios longos não choram a derrota na copa, nem a saudade de casa, nem a angústia do porvir. Apenas abrem e fecham em câmera lenta, olhando tudo o que passa. E o que passa é muito, intenso, colorido, barulhento, confuso. No país dos vegetarianos, ela não se deixa abater. Continua ali, semi-paralisada, num ritmo próprio de quem apenas é. Ninguém é mais zen que as vacas indianas.

Antes de vir pra Índia, pensei que as vacas sagradas fossem colocadas num pedestal, como os santos católicos. Que a elas fossem reservados os melhores pratos, flores e oferendas. Mas que nada. Soltas na cidade, elas compõem um cenário urbano sem pasto, raspando os cascos no asfalto, driblando a artrose em movimentos lentos, cagando e andando. Silenciosamente, se alimentam do lixo ou restos de comida e água oferecida pelos moradores. Contam também com ajuda especializada de ONGs que se organizam para resgatar as doentes e fazer cirurgias para retirar sacos plásticos do estômago. Com liberdade, elas se viram sem competição, dóceis e humildes.

Não sei porque no Brasil é uma ofensa chamar a mulher de vaca. Queria mais é que a mulher fosse tratada como a vaca, respeitada no seu corpão de provedora, que jamais passa despercebido, como acontece com tantos outros corpinhos, vendendo, pedindo, dormindo invisíveis na rua.