Tão Longe Tão Perto


Direito de ir e vir
23/03/2010, 22:57
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A vida fora de Brasília não tem carro nem eixo.

Em Londres, o transporte é caro e famoso pela eficiência, mas ninguém comenta sobre a imprevisibilidade das linhas de metrô, principalmente nos finais de semana. Sem consultar o site do serviço de transporte antes de sair de casa não há muita certeza de onde ou quando se chega. Aqui na Índia, tudo pode acontecer. Faixas e sinais de trânsito são meros objetos decorativos. Como dá pra ultrapassar pelos dois lados, todo mundo buzina o tempo todo como pra avisar “ó, tô aqui atrás, tô aqui do lado, já passei”.

Dizer que o ônibus ou qualquer outro ambiente coletivo na Índia tá lotado seria redundância. No segundo país mais populoso do mundo não dá pra ter medo de gente, nem de cheiro de gente. Nas ruas, só sei que o número de motos não é maior do que o de pessoas porque famílias inteiras rasgam a cidade numa só garupa: o pai no comando, 3 filhos atrás dele e a esposa na rabeira, segurando o bebê no colo e deixando um rastro colorido pelo sári ao vento.

Como quase não saio do bairro onde moro e trabalho, ando mais a pé. Desde a primeira semana, adotei a estratégia vaca de atravessar a rua, que é extremamente eficiente. Ninguém atropela as vaquinhas. Mas é preciso ter certeza de que foi vista pelos motoristas antes de se jogar entre os carros. E como a vaca é bem maior, usar roupas de cores berrantes contribui para o sucesso da tarefa.

Táxi, só pra ir pro aeroporto. Mas descobri a Meru Cabs, uma empresa super organizada com filial em várias cidades indianas que agenda tudo pela internet. Quando preciso cruzar Bangalore o transporte que mais uso é o auto riquexó, ou tuctuc , o famoso triciclo amarelinho. Ele funciona como táxi, só que bem mais barato e com uma lógica peculiar, que vou compreendendo pouco a pouco.

O pagamento do auto pode ser feito na barganha ou segundo o taxímetro (metro) analógico ou digital, esse último bem mais honesto e por isso mais concorrido. Depois das 9h30 da noite tem choro, mesmo se o taxímetro for ligado. Pra estrangeiro, o choro é sempre mais alto, mas agora já sei mais ou menos quanto valem os trajetos, então rola negociata: 30 rúpias além do “metro”. Não senhor, 15 no máximo. Bóra. Por mais que o cara tente explorar, ao converter as moedas, a gente percebe quão pouco ele leva dessa batalha insalubre diária no trânsito. Mesmo para bairros distantes, nunca paguei mais que 100 rúpias, o que dá uns 4 reais. Mas acho que ninguém deve aceitar passivamente qualquer tentativa de extorsão, que acontece nas portas de shoppings e hotéis, onde andam turistas desavisados. Mas a injustiça geralmente é identificada por uma risadinha do motorista, logo após jogar o preço lá em cima. Outra coisa: aqui é forte a cultura da negociação, da barganha, então os valores nunca são tão fixos assim.

Mas no uso do auto, mais que o preço do serviço, a própria ida é negociada. Se tenho o direito de ir, o motorista tem o de não querer me levar. E os motivos podem ser os mais variados: por ser muito perto (e não valer a corrida), por ser muito longe (e sair do trajeto dele), porque ele tem mais o que fazer naquele momento, por ser quem sou. Outro dia estava em busca de um auto com uma amiga cuja família é de Caxemira, mas cresceu nos Estados Unidos. Ela fala hindi e tem as feições de uma iraniana. Por isso, os indianos ficam em dúvida se ela é gringa ou indiana-muçulmana. O motorista parou e tentou a facada. Ela negociou em hindi e ele saiu balbuciando alguma coisa que ela traduziu: se você ficar andando com estrangeiro não vai conseguir nada pelo preço certo. Mas conseguimos sim. E várias vezes andei com motoristas ótimos, muito interessantes e interessados. Nem sempre dá pra conversar muito pelo limite do idioma.

O fato é que ninguém pega um auto pra rodar a esmo. A negociata começa com a certeza do passageiro sobre o lugar para onde quer ir. Aliás, essa é uma pergunta muito frequente por aqui. Quando desço as escadas do predinho onde moro, costumo cruzar com a Leela, que trabalha na casa da vizinha, enquanto ela água as plantas do terraço. Logo depois do “Bom Dia”, ela metralha: “onde você vai?”.

Mas a vida fora de Brasília não tem carro nem eixo e tudo parece mais imprevisível que o metrô londrino nos finais de semana.