Tão Longe Tão Perto


De zero a dez
29/12/2009, 11:45
Filed under: De zero a dez

Mais que um ano novo qualquer, 2010 nos dá a chance de chegar a dez e começar do zero ao mesmo tempo.  Já estamos na última semana do nove. Não há melhor hora, portanto, para elaborar uma lista em duas colunas. De um lado, o que já está quase chegando no dez, derramando, saturando, o que foi suficiente, “saco” (como se diz em canará). De outro, o que vai preencher o vazio do zero, o que dá pra fazer acontecer.

Sei que na aula de ioga o exercício é justamente não pensar, desapegar dos pensamentos. Mas como isso é muito difícil, aprendi uma coisa com a Betinha, professora de ioga de Brasília, que pretendo usar principalmente nesta semana de faxina pré-ano novo. E como não entendo o que o professor daqui fala  (em canará), é a voz da Betinha que vou escutar no fim da aula, nos minutos dedicados ao pranayama, o exercício respiratório em que a gente inspira por uma narina e expira pela outra. Ela sugeriu que, ao expirar, a gente visualize o que quer jogar fora. E ao inspirar, lembre do que queremos trazer de positivo pra vida.

Mas se a gente espera a grande virada de zero a dez para encontrar os símbolos da renovação, por aqui, terra dos rituais, esse é um exercício cotidiano. Toda manhã, depois de limpar a casa, as mulheres do sul da Índia usam pó de arroz para desenhar formas geométricas a sua porta. O “kolam”, como é conhecido, traduz em desenho uma prece. O pó de arroz é um convite ao novo, à energia positiva, à prosperidade, trazida pela deusa Lakshmi, que além da riqueza também simboliza generosidade, sabedoria, fertilidade, coragem. LakS em sânscrito significa perceber, observar. Lakṣya é traçar uma meta. Ela é a deusa que provê os meios para alcançar os objetivos.

Ao longo do dia, o branco é pisado, borrado, apagado pelo vento ou pela chuva.  Mas uma pintura é feita no dia seguinte, para garantir a vinda de novos seres (passarinhos e formigas, que podem aparecer para fazer uma boquinha no arroz, por exemplo), para dar as boas-vindas aos deuses, para receber o novo.

Quando criança, eu morria de medo do ano novo. Sei disso porque está registrado numa foto de família daquelas que não quero mostrar pra ninguém. Todo mundo festejando e eu abrindo o berreiro, com medo do que entraria pela porta, em meio a fogos de artifício e gritos de “lá vem o ano novooo”! Continuo sem saber o que vai chegar. Mas aqui no terceiro andar, é preciso passar por muitos “kolans” pra entrar na minha casa. Então melhor arrumar a bagunça pra receber a visita.

Seja bem-vindo, 2010!

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