Tão Longe Tão Perto


De 50 a 3000 anos
11/07/2010, 13:10
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Pintura a óleo de Oscar NiemeyerEm visita a Hampi, cidade-império do século 14, mas com registro de presença humana há pelo menos 3000 anos, ficou claro que apreciar ruínas não é lá muito fácil. Minha cidade tem só 50 anos e minhas referências estéticas são beeem mais limitadas que as do crítico francês André Malraux, que comentou com Niemeyer em sua visita à nova capital “Que belas ruínas Brasília daria”. A observação inspirou uma das poucas pinturas a óleo de Oscar Niemeyer, exposta no cinquentenário da cidade (reproduzida ali à esquerda).

Aqui de longe soube disso graças aos amigos que alimentam com inteligência espaços online como o facebook. Letícia Verdi fez a referência e Felipe Berocan comentou: “Assim também pensava o arquiteto de Hitler, construindo obras monumentais, antecipando a grandiosidade de suas ruínas”. Humildade parece não ser mesmo o forte de quem pretende resistir à inexorável condição de mortal e deixar histórias concretas que atravessam os séculos.

No caso de Hampi, no norte do estado de Karnataka, a aridez da paisagem, formada por enormes pedras amareladas que parecem ter caído do céu, mas que resultam de erosões milenares, aos poucos vai sendo preenchida por narrativas mitológicas anteriores à construção de Vijayanagara. A cidade teve importância comercial de 1336 a 1565, quando foi saqueada pelos sultões islâmicos. Sem perceber, começamos a escutar as ruínas sussurrando, contando histórias fantásticas de amor, traição, lutas de deuses, deusas, heróis e heroínas, demônios e de um povo forte e leal a seus líderes, capaz de construir fortalezas, para depois abandonar tudo, fugindo de saques e ataques de outros reinos.

É praticamente impossível distinguir o que é mito de realidade. A cidade foi fundada depois de um sinal auspicioso, quando dois chefes andavam com seus cães pela floresta e surpreendentemente uma lebre virou o jogo e começou a perseguir os farejadores. O cenário também é citado, por exemplo, no épico Ramayana. Foi aqui que Rama, encarnação do Deus Hindu Vishnu, e seu irmão Lakshmana, encontraram Hanuman, o Deus-Macaco, guerreiro que ajuda a resgatar Sita (mulher de Rama), que havia sido capturada pelo demônio Ravana. As referências ao Ramayana são lembradas por imagens de Rama e Sita com Hanuman e Lashmana, cravadas nas pedras de templos e castelos.

Assim como Brasília, Hampi também é Patrimônio Histórico da Humanidade. O apoio da Unesco garante o mínimo de informação em placas erguidas na frente de cada monumento, mais nada além disso. Se na Europa a estrutura turística oferece a versão oficial mastigadinha em troca de muitos tostões, por aqui fica por conta do visitante boa parte das especulações. Por conta do período eleitoral, os guias locais não estavam disponíveis, mas um livro atendeu o básico da história, que continua sendo desvendada a cada pedaço escavado.

Tive sorte por ter sido convidada por dois amigos pra rachar a gasolina e ir de carro. Mas sendo sincera, as ruínas começam ainda na estrada, onde a gente encarou um caminhão atrás do outro, sem ter muita visibilidade da buraqueira provocada pela mineração, que todo mundo bem sabe como destrói qualquer resquício de vida. Mas nada disso impede as dezenas de ônibus com turistas indianos, que vêm conhecer de perto o que não foi possível colocar atrás dos vidros no Museu Britânico.