Tão Longe Tão Perto


Confissões de estrangeira
03/01/2010, 15:48
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Sou estrangeira pela primeira vez. Mentira. Morei um ano em Londres, mas lá todo mundo é estrangeiro, o que torna impossível estar sozinho, mesmo numa sociedade completamente individualista. Agora, além de estar na Índia, não estou na capital. Não é nenhum vilarejo. Bangalore é “O” pólo de informática com aeroporto internacional. Provavelmente as ligações que fiz de Londres quando meu computador deu pau foram atendidas pelo call center daqui. Muita gente vem pra cá trabalhar. De dentro e de fora do país. Claro que tem estrangeiro. Mas ainda não conheci nenhum. Vi alguns nas seis vezes em que fui ao comissariado de polícia até conseguir a permissão de permanência: muitos asiáticos, principalmente chineses, um grupo de iraquianos, um ou outro branquelo europeu e eu. Do Brasil? Todo mundo imagina que é longe, mas o único que sabia algo além de Kaká e Ronaldo foi o vendedor de frutas do Benison, o mercado dos muçulmanos onde vou quase todo dia. Ops, acabo de perceber que mesmo na Índia tenho uma rotina parecida com a da minha mãe, que vai diariamente ao Carrefour Bairro e troca presentes de Natal e de aniversário com as Carrefour-girls. Ainda não fiz essas amizades todas. Mas o cara das frutas lembrou da Gabriela Sabatini quando falei meu nome. Tá, ela é argentina, mas até então o máximo que tinham conseguido entender do meu nome era Gabriel. Ele é lutador de artes-marciais e joga até capoeira. Assim me disse. Só mais uma pequena demonstração da falta de fronteiras pras coisas da Bahia, que teimam em me acompanhar desde que eu era criança e ajudava a vender patuá do lado da baiana de acarajé da Festa dos Estados, mesmo sendo de família mineira (um dia eu explico).

Em Bangalore, levo meu status de estrangeira de forma explícita e constante, como se carregasse um outdoor brilhando em pisca-pisca neon. Em ambientes lotados ou no trabalho ninguém parece dar muita bola e até eu esqueço que tenho um sinal de “não pertenço” na testa.

Geralmente, essa condição de estrangeira me dá leveza ao olhar e faz com que coisas corriqueiras tornem-se muito divertidas. É bom ver a empolgação da meninada jogando “pelada” de cricket na rua; receber visita surpresa da filha do Mr. Babu trazendo masala dosa preparada por sua mãe para o café da manhã; aguardar ansiosamente pelo momento em que a muçulmana de burca levanta o véu negro para – Nhac! –  abocanhar seu petisco no upahar (fast-food indiano); se encantar pelas cores e brilhos dos saris que envolvem as indianas; observar homens que se acariciam e caminham de mãos dadas ou abraçados  porque são amigos, se gostam e não sofrem estigma por isso; se impressionar pelo olhar dos bebês com olhos maquiados com cajau, combinando com uma pintinha feita na testa ou na bochecha; se confundir com menininhos vestidos como meninas e vice-versa para entender que eles são relativamente livres da definição de gênero até a puberdade, quando então as marcas do que é feminino e masculino se instalam de forma definitiva.

Outras vezes, meu painel luminoso barra minha entrada em certos ambientes. Não há o que disfarçar. Não sei como agir, sou excluída, iletrada, desconheço os códigos. E tudo o que seria curioso se fosse uma viagem de férias precisa ser decifrado porque amanhã continuo aqui. Vou selecionando pra ver onde posso passar com meu carro alegórico, serrando algumas arestas para me ajustar aos formatos locais. Ao mesmo tempo, esse esforço se limita pela consciência de que minha passagem por aqui é temporária. Então às vezes simplesmente me conformo com as diferenças e guardo tudo em casa, onde estou protegida e ligada ao meu mundo pela janela do computador.

Acho que só agora caíram algumas fichas do livro “O Estrangeiro”, de Albert Camus, que li aos 20 e poucos motivada pela música “Killing an Arab”, do Cure. O mundo do argelino morto não caberia nunca no mundo de Mersault nem no do júri que o condenou.