Tão Longe Tão Perto


Airtente outra vez*
03/12/2009, 4:51
Filed under: Airtente outra vez
*Progresso sobre o status da conexão nos comentários deste post.

Se até os ladrões do GDF fazem oração pedindo apoio, eu também posso: Óh, Krishna, sei que prometi não ficar mais estressadinha, mas me ajude a entender porque todas as companhias telefônicas do mundo desrespeitam os clientes de forma tão grotesca. E por que mesmo sabendo disso, seguimos achando que a necessidade de estar conectado 24h por dia é tão vital que jamais desistimos do serviço? Se esbravejamos a ponto de quebrar o contrato com uma, assinamos com a concorrente, tão ruim quanto a primeira opção. Por que a privatização não tem nada a ver com eficiência? Por quê? Por quê? Mesmo sem respostas, óh deidade companheira, me ajude a manter a cabeça fria já que as orelhas não vão esquentar tão cedo pois continuam distantes das ondas eletromagnéticas do celular.

Na mesa: um celular pré-pago que funcionou por uma semana e parou; um celular pós-pago conseguido com muito suor e xerox. Ele envia mensagens e recebe chamadas, mas não liga pra casa; um modem de laptop comprado com a promessa de funcionar imediatamente, mas que um dia e meio depois ainda não disse a que veio.

Nível: dificílimo

Ingredientes:

– algumas rúpias;

– dez toneladas de paciência;

– muitas fotos “tamanho passaporte”, que na Índia fica entre a 3×4 e a 5×6. Melhor não tentar usar as do Brasil e tirar uma dúzia nova aqui mesmo;

– cópias do passaporte (com visto), comprovante de residência, registro de permissão de residência (emitido pela polícia, após uma saga de seis visitas, outras tantas fotos, carimbos e documentos);

– une-dune-tê para escolher uma das 17 empresas que vai te maltratar: Airtel (com grande área de cobertura), Reliance (sei…), Vodafone, TataDoCoMo, etc

Modo de fazer:

Se tiver um conhecido indiano que tope contratar o serviço em nome dele para você, invista nisso e evite dores de cabeça. Se conseguir que ele vá até a loja em seu lugar, você vai se poupar de ver alguns clientes locais se transformando em cachorros-doidos, latindo bravamente para vendedores que parecem nunca perder a cabeça, nem resolver os problemas.

Senão, ommmmm. Respire e mãos a obra!

O documento mais importante para conseguir o mínimo de respeito é o registro de  permissão de residência. Todo brasileiro precisa de visto para entrar na Índia, mas quem fica mais de 180 dias, deve estar atento para o que dizem as letrinhas miúdas do visto escritas primeiro em Hindi, depois em inglês: o registro deve ser feito em até 14 dias da chegada, sob pena de pagar uma multa de 30 dólares por atraso. Mas não é em qualquer delegacia, é no comissariado de polícia, um prédio bem maior e com muito mais filas.

Os documentos necessários estão citados no site da instituição e apenas lá (www.bcp.gov.in). A lista é extensa e inclui o preenchimento de formulários, 5 fotos,  comprovante de residência e, no meu caso que tenho visto de trabalho, o contrato e uma declaração dos empregadores com firma registrada em cartório dizendo que são responsáveis por minha conduta e que se eu vacilar, serei repatriada às custas do patrão. Na semana em que cheguei, a moça do RH pediu demissão e meus chefes viajaram para um congresso no Egito. Resultado: atraso para entender o procedimento  e consequentemente para obter o vale-respeito nas companhias telefônicas.

As duas primeiras visitas ao comissariado foram café-com-leite: primeiro porque, apesar de abrir aos sábados, é feriado nacional todo segundo sábado do mês. E a segunda só para descobrir o endereço do website. As outras quatro visitas foram mesmo do passo-a-passo de tartaruga da burocracia, incluindo o dia de pagar a multa, quando me entregaram um papel escrito em Kannada (o idioma local) para ser pago num banco que ficava a uns 5 quarteirões dali, conforme o agente me explicou rapidamente com um sotaque muito forte. Mas quem tem boca vai ao Banco Estadual de Mysore, que graças aos deuses tinha pelos menos as iniciais em inglês escritas a caneta no boleto. Na fila do banco, mulheres costumam ser ignoradas pelos homens furões, mas eu mostrava o dedinho apontando pra trás: “cheguei primeiro, senhor”. Aliás, agora me lembro que foi por isso que estava nervosa no dia da mudança e com extrema necessidade de me fazer respeitar. Mas depois descobri que Mr. Babu já me respeitava.

Antes de conseguir o registro, Prasanna, o boy do escritório bem que se esforçou para comprar um chip pré-pago em meu nome, mas após uma semana o serviço foi bloqueado por falta de documentos. Quando tentamos solucionar o problema na Airtel, a moça olhou pra mim e disse: “Ih, é estrangeira? Vai demorar”. Então a solução foi comprar outro chip, desta vez pós-pago, já que depois de um mês podia sacar da pasta qualquer coisa que o vendedor me pedisse. Só que hoje, quase 48 horas depois, meus dados ainda estão sendo verificados, como me explicou o moço do call center. Ainda não chegou a hora de poder me conectar com o Brasil quando bem entender.

Voltando pra casa bastante frustrada, chutei um folheto colocado em meu caminho: “Aulas de ioga para prevenir tensão mental e aliviar dores físicas”. Parece que é na minha rua! “Vagas limitadas. Terá preferência quem chegar primeiro”. “Inscrições por… telefone”!

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