Tão Longe Tão Perto


3 dias, 2 vacas e 1 milhão de novidades

set 09 Lon-BGL 048Depois de três dias em território indiano, num percurso restrito a casa-trabalho-casa, seria muito arriscado expor qualquer tentativa de compreensão sobre a cultura local. No entanto, peço desculpa aos especialistas para jogar as primeiras impressões de forma leiga e tão caótica quanto o trânsito daqui. Sei que corro o risco de escrever bobagem, mas não quero perder a oportunidade de registrar um pouco do milhão de informações que recebo por minuto, o que me dá a sensação de que já cheguei há tempos, mesmo com todas as gafes e improvisos típicos de quem está em terra estrangeira tendo feito o dever de casa pela metade. É, só estudei um pouquinho antes de vir. Provavelmente tudo mudará na medida em que for me familiarizando. Mas em três dias, já deu tempo de:

  1. Ter a sensação que o que vejo se parece com algumas coisas que conheço, mas ao mesmo tempo não se parece com nada do que já tinha visto até então. Confuso? Isso é só o começo.
  2. Confirmar que Bangalore tem um quê de Estados Unidos, com sua vasta indústria tecnológica, shoppings e supermercados. Só que não é uma reprodução do modelo americano, é uma outra versão de produção e de consumo. Com dinheiro, é possível ter acesso a tudo o que se tem nas grandes metrópoles, mas parece que a classe média tem mais o que fazer do que comprar desenfreadamente. Pode ser que eu esteja enganada, mais pra frente vou saber.
  3. Ver todo mundo comendo com a mão – apenas a direita, usada para coisas nobres, enquanto a esquerda é usada para a limpeza (eles não acham papel higiênico higiênico pois espalha a sujeira, preferem um banhinho localizado) . Comer com a mão não tem nada a ver com status, como é no Brasil em relação ao jeito de manejar os talheres. Gente com mestrado, doutorado, donas de casa, estudantes, trabalhadores, todo mundo come do mesmo jeito.
  4. Experimentar o trânsito mais sem lei da história – e como pedestre. Como não tem lei, a regra é esperar os motoristas notarem sua existência e se jogar como uma vaca na pista pra atravessar a rua. Parece não ter perigo. Os motoristas vão buzinar muito de qualquer jeito. Vi todo mundo fazendo assim e adotei o modelo bovino. Tem dado certo.  As faixas que dividem as pistas no asfalto não representam nada. É carro, moto, auto (aquele táxi-triciclo também conhecido como tuctuc), bicicleta, caminhão, ônibus, um tentando ultrapassar o outro por qualquer lado. O motorista leva a mão na marcha e outra na buzina. A cada piscada de olho, um “pêpé”. E como ex-colônia da Inglaterra a Índia herdou a mão inglesa: volante do lado direito.
  5. Ver duas vacas na rua. Uma na avenida movimentada. Era um bezerro adolescente, quase virando vaca.  Os motoristas não pararam e a pobre acelerou o passo. A outra comendo lixo amontoado. Mas não era pra ser sagrada? Hoje uma colega fez um comentário que se não gostasse da comida, ia dar pra uma vaca na rua. Então tive a impressão que vaca é igual cachorro vira-lata de rua. Só que cocô de cachorro é bem menor.
  6. Conhecer MUITA gente legal: no trabalho e na pensão. As pessoas são interessantes, interessadas, gentis, receptivas, engraçadas, mas também sabem ser bravas.
  7. Me confundir com os nomes de todas as pessoas legais que conheci: Krittika, Aishwarya, Anupama, que têm significados lindos como Constelação, Prosperidade, Incomparável. Tenho escrito num caderninho que não sai da bolsa, mas preciso marcar qual a sílaba mais forte na pronúncia.
  8. Curtir a dormência na língua provocada pela pimenta, mas jogando muito iogurte por cima pra aliviar. Estou apenas no início do processo, mas não tem escapatória. A comida apimentada começa no café da manhã com o “sambar”, que aqui é um mollho de “dal” (lentilha) triturada, que também costuma ser servido no almoço e no jantar.
  9. Aprender o nome de três pratos típicos que um dia vou saber preparar: idly, masala dosa e o tal do sambar com curds (iogurte).
  10. Não ver NENHUMA mulher mostrando mais do que a canela. Ombros, pernas, bunda, tudo fechado nos sáris ou batas com calça larga. Mas no meio do tecido entrelaçado, um pedaço da barriga fica a mostra, dependendo do movimento. Os homens usam aqueles panos amarrados como fraldões ou calças largas, mas entre eles há muito mais gente com roupas ocidentais: calça e camisa. Antes de vir, encontrei um colega indiano em Londres que me orientou a ser o mais discreta e conservadora possível até sentir o clima do trabalho e outros ambientes que frequento. Depois que vi a mulherada na rua pensei até em começar com uma burca, pra depois ir me despindo aos poucos: mostrando as mãos, o nariz, para quem sabe chegar até o cotovelo. Mesmo no trabalho, não vi ninguém, por exemplo, usando camiseta que deixa os ombros de fora, apesar do calor. Já ia jogando meus vestidinhos no fundo da mala, mas resolvi perguntar pra uma colega pesquisadora dos direitos das mulheres, que me explicou que quanto mais coberta, menos chance de alguém te incomodar na rua. Segundo ela, no centro da cidade, principalmente no fim de semana, o povo solta mais a franga e libera ombrinhos e pernocas pra galera.

Acabo de perceber que a lista está enorme e poderia continuar, mas vou guardar pro próximo texto. O bom de vir pra morar é que dá pra conter a ansiedade. Cada descoberta a seu tempo. Parece muito, mas há bem mais por vir.

Anúncios