Tão Longe Tão Perto


Em crise com os Petiscos da Paz
19/07/2010, 0:05
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O que fazer quando se descobre uma face até então desconhecida do seu amigo? Algo que não dá pra aceitar, mas está tão arraigado do outro lado que dificilmente vai mudar?

Desde que cheguei em Bangalore, no fim do ano passado, quem me alimenta e me abriga é Shanti Upahar (algo como “Petiscos da Paz”, em Canará), um estabelecimento familiar com estilo daquelas padarias portuguesas antigas do Rio de Janeiro, misturado com o que seria os primórdios das lanchonetes fast food e um toque de PF de cidade do interior. Ali se come em pé, em mesinhas de metal espalhadas na loja e na calçada.

O cardápio varia segundo o horário e inclui pratos rápidos típicos do norte e sul da Índia, sucos naturais, doces e sorvete, servidos de 7h da manhã às 10h30 da noite. O público é igualmente variado: famílias com crianças, comerciantes da região, motoristas de auto riquexó, donas de casa e eu, que ali aprendi a degustar os idlis, dosas e biriyanis, desenvolver a habilidade de cortar o os chapatis e rotis usando apenas a mão direita, observar tudo como se assistisse a um filme e gastar com vontade meu parco vocabulário em canará. Já conheço o menu de cor. Aqueles nomes inicialmente indecifráveis agora já estão guardados na  memória gustativa, junto com os respectivos preços, que nunca ultrapassam 40 rúpias (menos de 2 reais). Toda vez que arrisquei outro lugar me arrependi. Nada é tão bom, bonito e barato quanto Shanti Upahar, meu amigo, meu querido, meu segundo lar na Índia (o primeiro é o escritório, onde passo pelo menos 9 horas do meu dia).

A divisão de trabalho é explicitamente definida. Do lado de lá do balcão, um exército de 20 homens que encaram fogão e chapa quente por mais de 12 horas por dia sem reclamar, com disciplina e atenção para não errar nenhum dos milhares de pedidos diários. Vez ou outra uma brincadeira arranca um sorriso tímido, sem que a distração interfira na lida, supervisionada com rigor pelo dono da bodega. Do lado de fora, um grupo de 3 ou 4 adolescentes juntam os copos e pratos em grandes caixotes de plástico e levam tudo para um canto da cozinha onde há duas pias grandes, comandadas por uma ou duas mulheres.

Esta semana, entretanto, a pimenta ardeu mais que esperava. Pela primeira vez, vi que há uma terceira pia no canto da cozinha. E ali quem enxágua os pratos é um menino que teve que dobrar as mangas e barras do uniforme muitas vezes pra ajustá-lo ao seu tamanho. É… Shanti Upahar emprega mão de obra infantil, assim como a dona da pensão onde fiquei no primeiro mês, a família que passa roupas embaixo da árvore na minha rua, a construção do templo por onde passo em direção ao trabalho, só pra citar exemplos mínimos num raio de 2 quilômetros de um bairro de classe média da capital da informática, que contribuem para que a Índia se mantenha em primeiro lugar no ranking mundial de número de trabalhadores com menos de 14 anos (dado do Unicef/India). As razões para isso vão muito além da pobreza e incluem, entre outros fatores, a falta de estrutura, de qualidade e de valor dado à educação.

Na ONG onde trabalho, consegui com uma colega o contato do órgão do governo indiano responsável pelo enfrentamento ao trabalho infantil. Como estratégia de intervenção, essa instituição trabalha em parceria com ONGs locais, que chegam de mansinho, observam a situação da criança, procuram entender a lógica do trabalho, identificar onde está a família, para então tomar uma atitude que não prejudique ainda mais a vida daquele menino.

Como ensina a professora de Antropologia Rita Segato, da UnB, todo exercício de observação do outro só vale mesmo se servir de espelho. Então vou pegar emprestada uma citação do Senador Cristovam Buarque que a amiga Renata Farret colocou online no dia 13 de julho, quando o Estatuto da Criança e do Adolescente completou 20 anos: “O Brasil ficou entre os 8 melhores do mundo no futebol e ficou triste, mas é o 85º em educação e não há tristeza”.

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Quadrilha Indiana*
17/07/2010, 12:44
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*Que Drummond me perdoe.

Max, que amava Seema, não teve culhões pra enfrentar a família cristã e se casou com Nalini, deixando a menina hindu na esperança que alguma coisa poderia dar errado até o último segundo antes do matrimônio.

Seema, que chorou por Max, voltou pra casa e conseguiu segurar a pressão da família por pouco tempo. Acabou, então, aceitando um antigo colega, filho de amigos dos seus pais, como futuro marido, a quem carinhosamente apelidou de controle remoto.

Gowri, que amava Anil, abriu mão da própria felicidade em favor da de seus pais e irmã mais nova, que por tradição, não poderia se casar antes dela. Pediu demissão e fugiu sem despedida pra sua cidade natal. Em casa, é proibida de atender telefone e acessar a internet sem a supervisão materna.

Anil, que amava Gowri, chegou a planejar um sequestro, disposto a bancar a ira da família dela pra ter sua companheira pra sempre. Mas seus planos foram desmantelados por um aviso da polícia, que havia sido contatada pelo pai da moça.

Lakshmi, que aprendeu a amar o pai de seu filho, fechou o coração pra sempre depois de um casamento truculento e imaturo. Divorciada, ela não tem mais sonhos, nem medos, nem nada.

Janaki está louco de amor, mas ainda não sabe por quem. Em meio ao processo de recrutamento de noivas, ele já avisou aos chefes que muito em breve não poderá mais fazer hora extra, pois deverá chegar em casa cedo para jantar em companhia de sua nova esposa.

Smita, que se mudou ainda criança para os Estados Unidos, aprendeu a diversidade do amor. De volta à Índia, trouxe sua companheira para uma temporada de trabalho, ciente que aqui tudo permanece em segredo.

Shruthi, que não amava ninguém, é professora universitária, mulher prática e despojada. Queria se casar, achava lindo o ritual, mas nunca se deixou envolver, nem sentiu o que chamam de paixão, embora tenha tido um namorado legal. Aos 30, conversou então com sua mãe, que sabia muito bem como proceder para um casamento arranjado. Escolhido o pretendente, conviveram por 6 meses e realizaram uma cerimônia compacta com 2 dias de duração. Aos poucos vão se conhecendo, se adaptando, se gostando. O casamento vai muito bem, obrigada.



De 50 a 3000 anos
11/07/2010, 13:10
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Pintura a óleo de Oscar NiemeyerEm visita a Hampi, cidade-império do século 14, mas com registro de presença humana há pelo menos 3000 anos, ficou claro que apreciar ruínas não é lá muito fácil. Minha cidade tem só 50 anos e minhas referências estéticas são beeem mais limitadas que as do crítico francês André Malraux, que comentou com Niemeyer em sua visita à nova capital “Que belas ruínas Brasília daria”. A observação inspirou uma das poucas pinturas a óleo de Oscar Niemeyer, exposta no cinquentenário da cidade (reproduzida ali à esquerda).

Aqui de longe soube disso graças aos amigos que alimentam com inteligência espaços online como o facebook. Letícia Verdi fez a referência e Felipe Berocan comentou: “Assim também pensava o arquiteto de Hitler, construindo obras monumentais, antecipando a grandiosidade de suas ruínas”. Humildade parece não ser mesmo o forte de quem pretende resistir à inexorável condição de mortal e deixar histórias concretas que atravessam os séculos.

No caso de Hampi, no norte do estado de Karnataka, a aridez da paisagem, formada por enormes pedras amareladas que parecem ter caído do céu, mas que resultam de erosões milenares, aos poucos vai sendo preenchida por narrativas mitológicas anteriores à construção de Vijayanagara. A cidade teve importância comercial de 1336 a 1565, quando foi saqueada pelos sultões islâmicos. Sem perceber, começamos a escutar as ruínas sussurrando, contando histórias fantásticas de amor, traição, lutas de deuses, deusas, heróis e heroínas, demônios e de um povo forte e leal a seus líderes, capaz de construir fortalezas, para depois abandonar tudo, fugindo de saques e ataques de outros reinos.

É praticamente impossível distinguir o que é mito de realidade. A cidade foi fundada depois de um sinal auspicioso, quando dois chefes andavam com seus cães pela floresta e surpreendentemente uma lebre virou o jogo e começou a perseguir os farejadores. O cenário também é citado, por exemplo, no épico Ramayana. Foi aqui que Rama, encarnação do Deus Hindu Vishnu, e seu irmão Lakshmana, encontraram Hanuman, o Deus-Macaco, guerreiro que ajuda a resgatar Sita (mulher de Rama), que havia sido capturada pelo demônio Ravana. As referências ao Ramayana são lembradas por imagens de Rama e Sita com Hanuman e Lashmana, cravadas nas pedras de templos e castelos.

Assim como Brasília, Hampi também é Patrimônio Histórico da Humanidade. O apoio da Unesco garante o mínimo de informação em placas erguidas na frente de cada monumento, mais nada além disso. Se na Europa a estrutura turística oferece a versão oficial mastigadinha em troca de muitos tostões, por aqui fica por conta do visitante boa parte das especulações. Por conta do período eleitoral, os guias locais não estavam disponíveis, mas um livro atendeu o básico da história, que continua sendo desvendada a cada pedaço escavado.

Tive sorte por ter sido convidada por dois amigos pra rachar a gasolina e ir de carro. Mas sendo sincera, as ruínas começam ainda na estrada, onde a gente encarou um caminhão atrás do outro, sem ter muita visibilidade da buraqueira provocada pela mineração, que todo mundo bem sabe como destrói qualquer resquício de vida. Mas nada disso impede as dezenas de ônibus com turistas indianos, que vêm conhecer de perto o que não foi possível colocar atrás dos vidros no Museu Britânico.



Dona das divinas tetas
04/07/2010, 16:51
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Hoje quis ser uma vaca. Atravessei a rua e lá estava ela, deitadona ao sol do meio dia, observando o movimento incessante dos carros, que desviavam para não machucá-la. Entre piscadas demoradas num domingo preguiçoso, aqueles olhões de cílios longos não choram a derrota na copa, nem a saudade de casa, nem a angústia do porvir. Apenas abrem e fecham em câmera lenta, olhando tudo o que passa. E o que passa é muito, intenso, colorido, barulhento, confuso. No país dos vegetarianos, ela não se deixa abater. Continua ali, semi-paralisada, num ritmo próprio de quem apenas é. Ninguém é mais zen que as vacas indianas.

Antes de vir pra Índia, pensei que as vacas sagradas fossem colocadas num pedestal, como os santos católicos. Que a elas fossem reservados os melhores pratos, flores e oferendas. Mas que nada. Soltas na cidade, elas compõem um cenário urbano sem pasto, raspando os cascos no asfalto, driblando a artrose em movimentos lentos, cagando e andando. Silenciosamente, se alimentam do lixo ou restos de comida e água oferecida pelos moradores. Contam também com ajuda especializada de ONGs que se organizam para resgatar as doentes e fazer cirurgias para retirar sacos plásticos do estômago. Com liberdade, elas se viram sem competição, dóceis e humildes.

Não sei porque no Brasil é uma ofensa chamar a mulher de vaca. Queria mais é que a mulher fosse tratada como a vaca, respeitada no seu corpão de provedora, que jamais passa despercebido, como acontece com tantos outros corpinhos, vendendo, pedindo, dormindo invisíveis na rua.



Subindo pelas paredes
20/06/2010, 19:22
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A marmanja no oriente: “Alô, pai. Tô no meio de uma tarefa ingrata”. “Já é quase meia noite aí, filha, o que foi?”. “A gorda! Tá grudada na porta do armário de roupa no meu quarto, já mais pra dentro que pra fora!”.

Pausa para o contexto:

Praticamente 8 meses de Índia e tenho uma lista de visitantes recebidos com toda hospitalidade, mas delicadamente convidados a se retirar. Em um ano de Londres, biodiversidade zero, só houve uma visita – a de It, que sumiu sem deixar rastros. Aqui, circundada por coqueiros e flamboyans, asfalto adubado diariamente por inúmeras vaquinhas que vem e vão, bem que a poluição do trânsito da nova capital da tecnologia vem destruindo muitas vidas, mas a raça é forte e acostumada a adversidades. Os mais resistentes sobrevivem e aparecem de vez em quando pra dar um alô.

Boa parte do exercício de estar tão longe é encarar os medos de frente, aproveitar que ninguém está olhando pra observar como é que a gente se vira diante da suposta ameaça (que muitas vezes é a gente mesmo). Fora de casa, até que consegui me esquivar de morcegos, ignorar cachorros famintos que viram lobisomen de madrugada e saltar ratazanas, apesar do arrepio na espinha. Dentro de casa, vinha usando o método “copo de iogurte” (que consiste em capturar o visitante entre o copo de plástico e uma revista) pra mostrar que a porta da rua é a serventia da casa. Foi assim com dezenas de abelhinhas cegas, que teimavam em se arriscar no calor da lâmpada; 3 grilos falantes, que pela altura do cri cri devem ter as pernocas bem cabeludas; e um louva-deus gigante, de tamanho proporcional à louvação nesta terra espiritualizada, que olhava pra mim, balançando a cabecinha como se tivesse o pescoço de mola.

Foi então que um novo hóspede começou a deixar vestígios. Religiosamente, mandava uma caquinha por dia na cozinha: às vezes no chão, na bancada da pia, em cima da geladeira ou na beirada da janela. Depois do menino Krishna, herança que Mr. Babu deixou no apê, pensei ter comigo a ilustre presença de Ganesha, Deus com cabeça de elefante, cujo veículo divino é um ratinho. Definitivamente não estava preparada. Um dos critérios pra alugar o apartamento foi justamente não ser no térreo, já avisada da presença de roedores.

Desesperada, falei com Ramy, experiente trabalhadora que há anos limpa a casa de toda a vizinhança, sem perder a elegância, sempre de sári, trança, brinco de ouro e tornozeleira de prata. Nossa conversa é limitada porque ela fala pouquinho inglês e eu falo menos ainda o canará, mas nos entendemos. Ela disse “Nada de rato, é ralli”, mostrando o dedo pra indicar que era algo comprido. Mas lagartixa com caca daquele tamanho? Dias depois, a primeira aparição: lá em cima, metade do corpo escondido atrás do armário da cozinha, a outra metade pra fora. Cabeça em formato de losango, olhos arregalados e bem mais encorpada que as magrelinhas do Brasil. Estaria grávida? Não faço idéia de como se reproduzem, mas já li que algumas espécies nem precisam do macho para isso. Coincidência ou não, logo apareceu uma lagartixinha baby perdida no chão da sala. Convivíamos bem, enquanto a gorda mãe circulava entre a cozinha e o banheiro (que aprendeu a usar depois do filme “Como treinar o seu dragão”). Na minha ausência, Ramy se livrou da pequetita e fingiu ter calafrios quando perguntei pela grande. Aos poucos, ela foi perdendo a timidez e aparecendo aqui, ali, geralmente com parte do corpo gorducho escondido em alguma fresta, sempre batizando a cozinha. Mas limpava tudo com paciência pois fui convencida que era até sorte ter uma caçadora de insetos em casa. Depois Shruti me avisou que machucar um bicho desse só traz maldição.

Só que naquela noite ela abusou. E ao sair do banho, vi o pontinho preto embaixo do armário de roupas. Fui subindo os olhos e lá estava ela, a gorda, como descrevi pro meu pai, aquele ser estranho, rápido, incolor e eu sei, eu sei, inofensivo.

Mexi na porta entreaberta e ela correu pra dentro, saltou no casaco que usava em Londres que aqui é peça de museu, escorregou pra dentro do bolso, conseguiu escalar até o colarinho e se escondeu atrás do gorro, deixando aquelas unhas de dragão pra fora. Tirei todas as outras roupas, morrendo de medo de ter que tocar naquela pelezinha enrugada. Se eu tinha alguma chance de expulsá-la era naquele momento. Era só embrulhar o casaco e sacodir no terracinho num movimento de Indiana (Jones), como sugeriu meu pai, a esta altura totalmente aprisionado na conversa virtual, mas sempre solidário ao embate. “Vai lá, filha, ela não faz nada, só tá achando que a casa é dela também”. “Ela é mais rápida que eu! Vou tentar”. Respirei fundo e … morri de vergonha. Tentei justificar: “Ela não é uma lagartixa comum, tá? É grande, gorda, quase um jacaré, um tipo que nunca vi na vida”. “Lagartixa indiana”. “É tão grande que eu achei que o cocô fosse de rato. Mas vamos lá. Me deseje sorte”. “Bom, você pode pegar um pau e dar na cabeça dela também”. “Não, pai, estou na terra de Gandhi, sou contra a violência, só mato barata e pernilongo”. “Então vai, coragem”. “Ok”.

“Fudeu! Demorei! Ela saiu do casaco! Está dentro do armário, com aquele olho estatelado! Estou paralisada na frente dela e ela na minha frente!”. “Varre ela com a vassoura e empurra pra porta”. “É um longo caminho. Pai, cê não tem noção da rapidez da bicha”. “Então tá danado, melhor esquecer e amanhã você pede pra alguém tirar ela daí. Ela não vai atacar. Pode até ser grande, mas você é maior. E desse jeito vocês duas estão ficando nervosas”. Acho que foi isso que mexeu com meus brios. Como confessar minha incompetência e meu medo pra um estranho? “Nada disso, a casa é minha e vou expulsar esta invasora. Vou me acalmar e deixá-la calma também. Vamos conversar”. Fiz um movimento com a vassoura e ela saiu do armário. Fiquei chocada. “Ela não tem rabo!!! É feia de dar dó”. Mais calma, fui movimentando a vassoura e ela fugiu rapidamente para fora do quarto. Entre um movimento e outro, meu pai me mandava trechos de uma enciclopédia:

“…pequena, inofensiva e se esconde em frestas de paredes, sótãos, forros de telhados. E é útil para o ser humano: come insetos que incomodam, como baratas, traças e mosquitos; além de artrópodes, como aranhas, centopéias e escorpiões”.

“Já está na sala, atrás da cortina”!

“Como a comida humana não a atrai, ela dificilmente freqüenta locais contaminados. Por isso não transmite doenças. Apesar de tantas qualidades, muitos têm medo deste bichinho: a lagartixa”.

“Abri a cortina e a danada correu pra cozinha, pro velho esconderijo”.

“Seu nome científico é Hemidactylus mabuia. Trata-se de uma réptil caseira, de cor terrosa ou acinzentada, cuja pele escurece, quando há pouca luz. É o mimetismo, que a ajuda a se disfarçar no ambiente para que inimigos naturais não a vejam”.

“A perdi de vista. Continuo com minha inquilina”.

“Suas patinhas têm saliências adesivas, que facilitam os maiores malabarismos. Nossa amiga sobe em qualquer superfície e fica até de cabeça para baixo. Seus predadores naturais são grandes aranhas, cobras, corujas e mamíferos de pequeno porte, como os ratos. Mas nossa amiga tem uma defesa: é capaz de desprender um pedaço da cauda, que fica na boca do inimigo. Mais tarde a parte carnosa do seu rabo se regenera”.

“Então, BRAVO! BRAVISSIMA! Pelo menos esta você já conhece. Aprenda a conviver com ela”.

Contei o feito pra Ramy, que morreu de rir e me ensinou: “De manhã, abra todas as janelas. Ela deve sair pra caçar. De tarde, feche tudo. Faça isso por três dias”.

E não é que deu certo? Mas será que ela sobreviveu aos predadores lá fora? Se ela bater à porta pedindo pra voltar, vou pensar. Opa, o que este pontinho preto tá fazendo aqui de novo?



O segundo sexo sem cerveja
04/05/2010, 1:30
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Simone de Beauvoir viraria os olhos como Sartre se pisasse num boteco de Pondicherry, território dominado por seus conterrâneos por 300 anos no estado de Tamil Nadu, na Índia. A ex-colônia francesa é conhecida por suas padarias, casas coloniais e pelo baixo preço da cerveja, já que o álcool é isento de algumas taxas cobradas fora do território, originalmente chamado de Puducherry, ou cidade nova, em Tamil.

Depois de um dia que parece já ter amanhecido aos 40 graus, achamos que também merecíamos gelar a goela. O motorista do auto indicou um bar mais invocado. Do lado de fora, uma placa com desenhos de drinques, como nas novelas da Globo nos anos 80. Subimos as escadas e entramos sem pensar num ambiente com ar condicionado totalmente escuro, com luzinhas vermelhas nos cantos e muitas mesas, todas ocupadas por cromossomos Y, fumando, bebendo e arrotando testosterona em alto e bom som. Antes que nossa presença fosse percebida e execrada, o garçom tratou de se aproximar e, gentilmente, se dirigiu ao representante da espécie masculina que nos acompanhava: o estagiário Pablo, francês com nome espanhol que desde o primeiro dia ganhou pontos com a equipe do trabalho, essencialmente formada por mulheres, ao declarar sua vontade de assistir a um festival de filmes feministas. “Acho que vocês se enganaram de lugar”. Pablo perguntou: “Meninas, vocês querem ficar aqui?” Shivani e eu poderíamos até bater o pé no clube do Bolinha, só de pirraça, mas o ambiente era muito insalubre, em todos os sentidos. Então, nos mandamos dali.

A viagem de 350 km Bangalore pra Pondicherry foi num busão relativamente confortável, que cruza a estrada na madrugada. O cansaço da viagem é recompensado pelo cheiro do croissant saindo do forno na padaria Le Cafe, onde chegamos às 5h30, a tempo de ver o dia amanhecer ao som das ondas do mar, que a gente só enxerga lá pras 6h.

Pra acordar no dia seguinte já numa praia propícia para o banho (de sári, se não quiser ser fotografada pelos locais), fomos para Auroville, uma comunidade há 8 km de Pondicherry que abriga malucos de todos os cantos do mundo, em busca de uma vida alternativa, que inclui ioga, meditação e tranquilidade. Por 250 rúpias por cabeça (10 reais), dormimos num bangalô de uma russa que botou o pé ali na praia há 20 anos e nunca mais tirou. Pelo livro de registro das visitas, ficou provado que o potencial internacional da vila procede. Só não tem brasileiro porque com a Chapada dos Veadeiros e Arembepe, é até covardia comparar a força das cachoeiras do cerrado ou o mar morninho do Nordeste com a água escura da Bahia do Bengal. Mas pra mim, explorar essas águas turvas teve um significado especial: é que fiz o caminho contrário ao dos portugueses, que depois de passar por essas praias, na Costa de Coromandel, chegaram até Minas Gerais e batizaram a cidade de onde saíram tantas pedras preciosas, entre elas os diamantes bravos da família Goulart.



Presente de aniversário
15/04/2010, 9:59
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Na Índia não cabe ponto final. Foi aqui na terra de exclamações, interrogações e reticências que meu odômetro rodou pra marcar a nova quilometragem de 2010. Prestes a me isolar num santuário ecológico de Kerala e passar oito horas num busú de volta a Bangalore, acabei desistindo dos elefantes, pra comemorar os 35 em festa, graças à carona que peguei no aniversário de uma nova amiga. Em plena terça, o terracinho do Mr. Babu bombou, com direito a apresentação de francês com bigode desenhado à lápis e duas dançarinas improvisadas que o guiaram na coreografia de Bollywood ensaiada pós-expediente no escritório.
Minha irmã gêmea na Índia nasceu 10 anos depois de mim. Filha única de um astrônomo e uma professora que decidiram se casar depois dos 30, o que requer muita coragem ainda hoje, Krittika (que significa constelação) foi criada com muita liberdade. Sua formação política familiar, somada a uma personalidade questionadora e despojada, resultaram num dom para a liderança, para a pesquisa na área das ciências sociais e para uma vida cultural agitada. Tive a sorte de conhecê-la na ONG em que trabalho em Bangalore, a tempo nutrir admiração por seu humor sarcástico, conhecer suas amigas mais próximas, descobrir que nascemos no mesmo dia e acompanhar algumas de suas aventuras. A mais recente foi nossa festinha de aniversário.
Depois de cinco meses na Índia, com dificuldade pra encontrar pessoas com afinidade, finalmente minha casa estava cheia de gente e música boa, comida, bebida e… presentes surpreendentes que incluem: a história em quadrinhos de Hanuman, o Deus-Macaco (um dos meus favoritos, porque é poderoso e ajuda as crianças); uma versão do épico Mahabharata, chocolates, roupa e bijou étnica, flores, meu próximo livro de cabeceira: “Sem pontos finais na Índia”, do jornalista da BBC indo-britânico Mark Tully, e cartões de aniversário, inclusive com partes do texto em português.
Confesso que no meio da festa, toda a maturidade da nova marca foi pro Ganges quando descobri que, segundo o costume local, após os parabéns, o primeiro pedaço de bolo vai parar na cara da aniversariante. Na festinha da tarde no escritório eu até encarei a brincadeira numa boa, no melhor estilo Gandhi da não-violência, até porque tenho mais o que fazer do que guerra de gordura hidrogenada. Mas de noite, minha companheira repetiu o feito. Agarrei aqueles bracinhos, numa tentativa de conter a Constelação, subestimando a força das estrelas, capaz de vencer minha resistência e espalhar chocolate em mim e na sala, o que o que me fez perder 30 anos em 2 minutos e virar uma menina de cinco enfezada pela irmã mais nova de dois. Como já tenho fama de psicótica da limpeza, o mal-estar provocado pelo chilique foi aplacado por promessas espontâneas de que não haveria migalhas no chão, se me levantasse para lavar e desamarrar a cara. Me veio na mente a voz metálica da Marta Suplicy, afirmando que  “se você for docinha, fazem picadinho”. Mas longe da casa civil, bastou uma colherada daquela “cup cake” gigante preparada por Anu pra fazermos as pazes. A propósito, acho que doçura não deve ser confundida com submissão e que a gente deve fazer o mundo ficar mais suave pra ninguém ter que embrutecer.
Então terminei de abrir os presentes e me deparei com o melhor deles: uma cartinha engraçada preparada por Pablo e Shivani (os dançarinos). Eles me chamam de Gabi Manchurian Madam (Gobi Manchurian é um prato local e Madam foi o excesso de formalismo trazido pela nova estagiária), sacaneiam meu sotaque forte pra falar “Brazyou, Emayou, Meanwhyou” e me dão um vale presente, que vai transformar meu sonho em realidade. Há duas semanas, estou em busca de aulas de culinária pra tentar decifrar os temperos daqui. Mas até então só tinha achado escolas muito distantes, aulas no meio do expediente ou tutoras de noivas desesperadas pra agradar a sogra. Então meus amigos sacaram da cartola a solução: nos classificados, acharam um cozinheiro de Orissa que está há oito anos em Bangalore trabalhando em restaurantes e casas de família. Prashant será o meu mestre. E a primeira aula é hoje!