Tão Longe Tão Perto


São Luís mais eu
23/06/2011, 17:01
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Às vésperas do São João, não tinha um lugar vago no vôo de Brasília para São Luís. Entre os passageiros, a média de idade era de 70 anos. Minha companheira de viagem estava nos trinques: ruguinhas cobertas de pó de arroz, cheiro de leite de rosas e a boca vermelhinha de batom, me contando como ela encara todas as doenças que já acometeram sua família, com preocupação especial com a irmã mais nova, hoje com 59 anos. Aos vinte e pouco ela esteve em Brasília protestando contra a ditadura e acabou levando uma porrada tão violenta na cabeça que a deixou com problemas mentais e neurológicos para o resto da vida.

Embaixo da poltrona, sacolas cheias de presente para quem não saiu do Nordeste rumo à capital. Lembrancinhas pra gente como o  Ribamar, pra Creuziane e pra Creidimes, que agora já sabe que na terceira gravidez vem uma menina, pra alegria da caçula de 3 anos, Gleice Kelly, um tiquim de gente com esse nome cheio de “eles”, adaptado da musa de Hollywood que virou princesa. Quando me conheceu, ela pediu a “bença”. E me deixou assim meio sem jeito porque confesso que eu estava despreparada pra lembrar que claro, sou mais velha que a mãe dela. Ali na Vila Maranhão, assim como na Índia, é raro viver até os 36 sem assumir a identidade de uma senhora com uma penca de meninos.

Em comum com o Senado em Brasília, as autoridades de lá têm o mesmo sobrenome há muitos anos. Isso ajuda a explicar boa parte dos contrastes de um lugar que ainda têm presente elementos da corte portuguesa e da escravidão. Viva o boi de todos os sotaques, o tambor de crioula, o chapéu com fita, o bordado colorido, a criatividade do povo! Mas para não fazer parte do cenário do Centro Histórico,  a meninada sem fantasia é levada para longe de onde flanam bandeirinhas coloridas entre os azulejos portugueses. E foi durante a apresentação de uma dança da corte lusitana, que um grupo de bombeiros, policiais e agentes do juizado apareceram para uma operação desafiadora: tirar da vista dos turistas um único menino que ignorou o festival e continuou explicitando sua existência de quem conhece cada paralelepípedo daquela cidade. Mais difícil do que convencê-lo a abandonar a festa para ser levado a um abrigo foi convencer o grupo dos supostos responsáveis por ele a deixar de lado as luvas que faziam o menino tremer e investir no argumento. Mas enquanto a estratégia adotada for de “limpeza urbana” e não uma abordagem de proteção e de direitos, que chega de mansinho e aos poucos  ganha a confiança de quem teve que se defender sozinho desde cedo, como fazem tantos educadores de rua Brasil a dentro, a festa vai ter um gosto mais azedo do que arroz de cuxá quando a vinagreira passa do ponto.  “Que São João te abençoe, querida”.

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