Tão Longe Tão Perto


Marginal brasileiro
04/12/2011, 21:08
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Sugestão: clique para ouvir Zé Keti

Não sei onde o Baiano mora, mas deu uma preocupação danada porque ele ficou mais de uma semana sem aparecer no estacionamento. Veio uma lembrança triste do Antônio, que acabou preso depois de protagonizar uma tragédia familiar daquelas de capa da imprensa marrom. Magrinho e gentil, ele abria a porta do carro e chamava a mulherada de linda ali num pedaço do que simula o centro de uma capital – a plataforma da rodoviária.

A versão contada no escritório é que o Baiano arruma uns bicos nas casas das pessoas de vez em quando. Ele já estava lá há dez, quinze anos, só que ao contrário de grande parte dos que estacionam ali, não vai se aposentar.

Não sei o nome do Baiano, mas ele me chama de Gabi, seguido de um sorrisão malandro, para o qual respondo perguntando: “bóra dar um banho no possante hoje”? Custa 15 reais por dentro e por fora. De manhã ele ensaboa uns dez carros e de tarde ele perde ou ganha mais que isso na jogatina com os porteiros e outros trabalhadores informais . Vi da janela do segundo andar.

Brasília tem uma vida ímpar embaixo dos blocos, um vai e vem de domésticas, babás, crianças e gente que vêm de longe. Alguns parecem ter saído de um filme surrealista:  o vendedor de espelhos que exibe molduras pro céu, o empurrador do carrinho de música com CDs originais e chineses, e adolescentes que, com a falta de praças, namoram ali no pasto verdinho das entrequadras nesse tempo de chuva.

Nem sei o dia do aniversário do Baiano, mas me iludo achando que sou amiga dele. Bem que ele me defendeu quando um baixinho invocado, funcionário do Banco do Brasil, saiu do carrão branco cuspindo grosserias porque eu não tinha olhado pelo retrovisor.

Trim. “Lava-jato móvel está aqui”, diz Nina, a recepcionista mais elegante de todos os tempos.

E lá vem ele, nos trinques, fim de mais um expediente, depois de se ajeitar no vestiário do edifício da W3.