Tão Longe Tão Perto


Grito de Independência
07/09/2010, 1:25
Filed under: Grito de independência

-Véi, dá tempo. A gente entra na festa e volta pro quartel umas 4 da manhã, toma banho e vai direto marchar na esplanada.

– Mas a fila não anda. Bóra pra outro lugar. Mas onde? A Granja tá lotada, congestionamento até a Asa Norte.

Nunca tinha visto de perto alguém que desfila no 7 de setembro, este evento que parece tão fora de contexto depois de 25 anos do fim da ditadura militar no Brasil. Mas ontem à noite, eu e aqueles meninos que driblaram a disciplina do quartel queríamos ser soldados da música negra e celebrar a véspera da independência na festa do Criolina, que toda segunda transforma um restaurante espanhol cravado no Setor Bancário em pista de samba-rock, soul e hip-hop.

Coisas de uma Brasília de agora, terra de ninguém e de todo mundo que se arrisca a criar diversão e cultura, como aconteceu com a dupla Pezão e Barata. Eles desenterraram os LPs para salvar as férias de 2005 e hoje levam a musicalidade brasileira pra muitos cantos do mundo.

Só que no canto de ontem nem eu nem os soldados conseguimos entrar porque a fila estava de dobrar a esquina que Brasília não tem.

Meu plano B foi voltar pra casa e listar algumas dependências das quais quero me livrar, na esperança de um dia dar um grito pra dentro de mim mesma às margens do meu Ipiranga particular.

Também queria gritar para que Brasília fosse mais bem tratada. Na capital de agora, com muito mais carros e especulação imobiliária, com certeza há mais opções de cultura e lazer. A cidade passou a entrar, por exemplo, na agenda de artistas internacionais. Só este mês tem Stomp, Diana Krall, Alpha Blondy, Cranberries, entre outros, mas os preços são praticamente inviáveis pra quem não comprou o pacotão que inclui carro, emprego estável, altos salários e a mobilidade de quem só sai do avião do plano piloto para entrar em outro avião. Nada contra a vida boa, mas é desolador refletir sobre as condições político-administrativas excludentes do DF. Quase todas as obras que se propunham a melhorar o transporte público foram interrompidas por suspeitas de corrupção, fraude na licitação, entre outras coisas feias e sérias.

Como um oásis neste deserto, tivemos até semana passada a décima edição do Cena Contemporânea, um festival com espetáculos locais e internacional que ocuparam os espaços públicos da cidade com música e teatro de qualidade. O evento foi encerrado no último domingo, dia mais seco do ano, com umidade relativa do ar a 12%, com 6 mil pessoas encantadas com o show do músico sérvio Goran Bregovic no concretão da praça do Museu da República.

Espero que os meninos tenham conseguido um pouco de diversão antes de suar as fardas hoje, no Dia da Independência, resistindo ao sol na moleira da cidade-deserto.