Tão Longe Tão Perto


Música Salva a dor
26/08/2013, 21:54
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ImagemEu adoro adoro adoro ave maria adoro os nomes das ruas, praças e demais logradouros em Salvador.

As placas parecem traduzir toda a angústia, resignação ou deboche com nossas imperfeições no Largo dos Aflitos, Ladeira da Preguiça, Beco da Gasosa, Bairro do Pau Miúdo ou na Graça, para quem sabe um dia alcançar a Rua da Paz.

E as manchetes de jornal não conseguem evitar contradições ou cenas surreais: “Assassinato na Praça da Piedade”, “Atropelamento no Alto do Coqueirinho”, “Janelas serradas na Sete Portas”, “Silêncio no Chame Chame”.

Da janela do busú, ler as placas é como acionar a discoteca mental dos anos 70 e reconhecer de onde vem Beleza Puura, Federação. Beleza Puura, Boca do Rio. E no fim de semana, ver quem é João, que naquele domingo não foi pra lá, pra Ribeira, foi namorar no Farol, iluminando as águas da Bahia. Onde se chega de barco, mãe. Que nem lá  – na Ilha de Maré!

Tudo é chique demais, tudo é muito elegante.

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Histórias de paralelepípedo
18/08/2013, 14:08
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Imagem“Tu eres guapa”. A ousadia do rasta pra gringa que subia a ladeira do Pelô teve troco imediato: “No, no, tu eres lo mas hermoso”, revidou, sem prever o que viria, mas aberta para que aquele rabo de arraia mudasse o rumo da viagem e da vida dos dois. Pelo menos enquanto durasse o axé.

Ela tinha vindo da Espanha com a mãe, interessada em comprar terras no sul da Bahia para montar uma pousada quando se aposentasse. Ele tinha a manha da negociação desde menino. Criado no Pelourinho pré-revitalização, sua lábia convencia gringos e locais do Porto da Barra à Itapoã. O casamento foi inevitável. Ele se deixou levar até Maiorca, onde tirou de letra o trabalho com turismo. Depois de dois anos, veio de visita e o amor pelo surf na própria língua foi maior do que a vontade de voltar.

Foi aqui que conheceu todas as mulheres da sua vida, antes e depois da espanhola. Povoou o mundo com 5 filhos: dois no interior com a menina que tirou da pia do branco pra construir a vida junto com ele. Para eles, deixou tudo o que tinha. “Sente-se, senhor Edson”, disse o juiz na audiência. Preferiu não sentar na cadeira pomposa molhado de chuva, nem brigar. Ele começaria tudo de novo. As gêmeas com a uruguaia. E o primogênito com a amiga da mulher que mais amou. Ela aceitou a traição e ainda ficaram juntos por um tempo. Ele ajudava a mãe dela a vender feijão para os funcionários do aeroporto. A moça, no entanto, mudou-se para Brasília e entregou-se à bebida.

Falando nisso, acabou a cerveja. Tenho que ir. Se cuida! Nos vemos no Pelô.



Be-a-bá da Ba-hi-a
06/08/2013, 20:49
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Tupique é van. Roda de madrugada e faz a rota das praias. Dependendo da simpatia pode-se cobrar bandeira 1 ou 2. Cabem 10, mas 20 se ajeitam. Motorista e cobrador cantam. Não, não te cantam. Estou falando de pagode romântico melódico, vocais ensaiados para ouvir e amar, rasgando rodovias.

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Arretado não tem nada a ver com retado. Sulista é bicho besta, pensa que sabe falar baianês só porque vê novela da Globo. É constrangedor! Ahhh, retei!

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Não tem lugar pra blasé não. No ônibus, na praia, na loja, no rock, na rua, no bar: se chegou, nem adianta virar os olhinhos como Baby porque ninguém vai fingir que não te viu. A recíproca deve ser verdadeira, seguida do básico da educação que a gente acha chique esquecer: Boa tarde. Boa!

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Não sorrir, não dançar, não gostar de música, não enxergar o que tem de bom na sua vida, por mais miserável que ela pareça, é crime inafiançável, sujeito à expatriação imediata.

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Relações de parentesco não têm nada a ver com sangue. O irmão é o vizinho. O primo é o amigo do amigo. O pai é o taxista. A mãe é a líder espiritual.

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Relações de amizade não têm nada a ver com afinidade, mas com alteridade. A troca acontece justamente com o “outro”, que aprendeu por uma trajetória completamente diferente da minha.

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No domingo de tardezinha, nem a fome, a seca, o amor ou a falta dele tem importância diante do pôr do sol no Farol da Barra.

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