Tão Longe Tão Perto


No mesmo lugar
09/09/2012, 21:06
Filed under: No mesmo lugar

ImagemA calça teimou em descosturar no mesmíssimo lugar. Os botões também já pipocaram outra vez. Nas idas e vindas, agulha e linha se perderam no palheiro.

O jeito é improvisar com aquele lenço indiano colorido que roubei do armário da minha mãe quando eu tinha uns 12 anos. Acho que foi presente da Vovó Alice. Ela não poderia imaginar que ele viajaria à sua terra natal. E voltaria comigo já rasgado e desbotado para um dia circular por Brixton, onde a gente brinca de interpretar o som do Clash enquanto observa o que resiste ou desiste da influência caribenha. E é como se eu pudesse sentir a maciez da mão da avó observando tudo enquanto atravessa a rua comigo.

Me mudei semana passada. Já estava por perto, mas agora ando só cinco minutos até o Brixton Village, onde a gente tropeça na feira livre para chegar nos cafés cheios de estrelas anunciados na Time Out. Brixton embranqueceu e virou cool, mas o reggae não morreu.

O casal de landlords é engraçado. Raul, o argentino, me deu a piada pronta no primeiro dia. Entre 300 palavras por minuto em 3 idiomas, disse ser muito humilde. Tatiana, a brasileira, depois de ter limpado toda a casa, feito almoço e jantar, explicou que só tem 5% da visão. Comentei que não tinha percebido e ela respondeu que é porque ela não perdeu o colorido do olho. Nem do olhar, como ficou fácil entender depois de ouvir suas peripécias pela Espanha, sua fascinação pelas flores e pelas couves plantadas no quintal. “Elas não só sobrevivem no inverno, como ficam ainda mais lindas na neve”.

A regra da casa é que tudo tem que estar sempre no seu lugar. Panos verdes para a cozinha. Azuis para o banheiro. Tapetinho pendurado depois de usar.

A agulha eu compro por menos de uma libra. Mas desta vez quero evitar a cegueira e conseguir enxergar o lugar das coisas, costurando viagens embaixo do novo travesseiro que me faz ninar.