Tão Longe Tão Perto


Feliz Saturnália!
25/12/2011, 23:09
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–       Quando você acha que vou nascer?

–       Por que a pergunta, criaturinha?

–       Sensibilidade natalina, talvez. Me lembro do nascimento do bebê mais importante da história ocidental e me dá certa ansiedade pra vir logo ao mundo.

–       Que bobagem, bem antes disso, os romanos já cultuavam Saturno em uma festa pagã estilo vale tudo nesta mesma época do ano. Todo mundo curtia sem culpa, trocava presentes, pedindo ao sol pra ele se manter firme e forte e, assim, proteger as plantações no inverno.

–       Como se todo dia fosse sexta-feira?

–       É, só que por menos de dez dias.

–       Hmmmm, que nem no carnaval. Então vou tentar segurar a ansiedade até fevereiro, aí aumentam muito minhas chances de nascer.

–       Mas você quer mesmo nascer gente? Meio imperfeito demais, não? Por que não nasce amor?

–       Ah, isso morre logo.

–       Mas pode renascer, ué. Cê preferiria ser pedra?

–       Pode renascer… Que otimismo o seu!

–       Deve ser o espírito natalino.

–       Ahá, você acabou de falar que isso é só uma invenção da Igreja!

–       Pensa bem, tanto faz, de qualquer forma, é mais uma tentativa de controlar o incontrolável e gerenciar a esperança de ser feliz.

–       Tá, dá aqui um abraço. Te desejo que nasça muito feliz, sendo inteiro no seu estado de gente imperfeita, pedra dura, água mole ou amor inconstante.

–       Não me venha com ironias, a gente ainda nem existe!

–       Mas a gente pensa.

–       Xi… descartou Descartes…

–       Feliz Natal!

–       Feliz Saturnália!



Marginal brasileiro
04/12/2011, 21:08
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Sugestão: clique para ouvir Zé Keti

Não sei onde o Baiano mora, mas deu uma preocupação danada porque ele ficou mais de uma semana sem aparecer no estacionamento. Veio uma lembrança triste do Antônio, que acabou preso depois de protagonizar uma tragédia familiar daquelas de capa da imprensa marrom. Magrinho e gentil, ele abria a porta do carro e chamava a mulherada de linda ali num pedaço do que simula o centro de uma capital – a plataforma da rodoviária.

A versão contada no escritório é que o Baiano arruma uns bicos nas casas das pessoas de vez em quando. Ele já estava lá há dez, quinze anos, só que ao contrário de grande parte dos que estacionam ali, não vai se aposentar.

Não sei o nome do Baiano, mas ele me chama de Gabi, seguido de um sorrisão malandro, para o qual respondo perguntando: “bóra dar um banho no possante hoje”? Custa 15 reais por dentro e por fora. De manhã ele ensaboa uns dez carros e de tarde ele perde ou ganha mais que isso na jogatina com os porteiros e outros trabalhadores informais . Vi da janela do segundo andar.

Brasília tem uma vida ímpar embaixo dos blocos, um vai e vem de domésticas, babás, crianças e gente que vêm de longe. Alguns parecem ter saído de um filme surrealista:  o vendedor de espelhos que exibe molduras pro céu, o empurrador do carrinho de música com CDs originais e chineses, e adolescentes que, com a falta de praças, namoram ali no pasto verdinho das entrequadras nesse tempo de chuva.

Nem sei o dia do aniversário do Baiano, mas me iludo achando que sou amiga dele. Bem que ele me defendeu quando um baixinho invocado, funcionário do Banco do Brasil, saiu do carrão branco cuspindo grosserias porque eu não tinha olhado pelo retrovisor.

Trim. “Lava-jato móvel está aqui”, diz Nina, a recepcionista mais elegante de todos os tempos.

E lá vem ele, nos trinques, fim de mais um expediente, depois de se ajeitar no vestiário do edifício da W3.