Tão Longe Tão Perto


Meu tempo é hoje*
31/10/2011, 8:32
Filed under: Brasil

*título do filme documentário de Izabel Jaguaribe sobre Paulinho da Viola

Depois de um domingo de jazz com minha família de Londres, acordei no meio da madrugada fria, tomei um copo de coragem e um Alegra D, vesti as luvas cirúrgicas e finalmente abri a mala que o Igor já tinha feito a gentileza de tirar da garagem.

E então me encontrei comigo mesma. Mas não eu hoje. Eu antes da Índia, onde 9 meses talvez tenham sido 9 anos. Eu depois da Inglaterra, onde o mundo encolheu tão rápido, que não deu tempo de planejar o que viria depois, achando perfeitamente aceitável cair do outro lado do planeta como num xote desavisado – dois passinhos pra lá, dois pra cá.

Antes do ritual solitário que só tem importância pra mim mesma, passei dois dias sem conseguir tocar na mala, com receio não sei bem do quê. Talvez da cápsula do tempo revelar fragilidades que estavam estocadas no mofo. Ou quem sabe por prudência, para evitar que os fantasmas da saudade fugissem da caixa de pandora. Mas não haveria data melhor que hoje, Dia das Bruxas, para desafiar medinhos antigos com a leveza das crianças fantasiadas de monstro em busca de guloseimas.

Agora tenho a chance de separar o que vai ser descongelado do que já perdeu o prazo de validade por pertencer exclusivamente àquele tempo, tão próximo e ao mesmo tempo tão distante. Começo a selecionar o que será reaquecido, reutilizado, resignificado, saboreado com doçura, responsabilidade e uma dose de desapego. No melhor estilo “Quando eu penso no futuro, não esqueço o meu passado”, desfaço a mala no ritmo de Paulinho da Viola, em “Meu tempo é hoje”, excelente documentário de Izabel Jaguaribe lançado em 2003, mas que assisti ontem pela primeira vez.

Fala, Paulinho:

“Sempre falo que não sinto saudade. Para mim, vale o que está no presente. É difícil de traduzir, como se o passado fosse vivo em mim. Mas tudo que vivi faz parte de uma única vida, é uma coisa só. A saudade anula a vida e, quando digo isso, pode até ser uma certa pretensão. Mas veja bem: a perda de uma pessoa, o que você sente em relação à ela, é natural; mas não é isso de que eu estou falando. É outra coisa, aquilo dos momentos vividos, que você guarda como se tivesse que voltar exatamente como era, o saudosismo. Isso que não é bom e eu não carrego comigo”.