Tão Longe Tão Perto


O sonho (não) acabou
25/05/2011, 18:39
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Pow! Estouraram as caixas de som. Paul! O besouro vivo entrou no palco com um terninho azul como o do rei Roberto, que ele logo tirou, mantendo um suspensório que parece não fazer sentido em ninguém além dele. Simples, com camisa branca e muita vitalidade. Hello helloooo. Na entrada da área, os amigos cruzaram olhares com a cumplicidade de três gerações. Atrás do outro gol, o sorriso branco exagerado do baterista-percussionista-vocal era pura simpatia. Cada frase ensaiada em português, dita com tanta naturalidade, parecia ter um efeito dilatador das veias, cortando o caminho até as artérias de quem tem o rock inscrito no código genético. E assim, o Engenhão foi transportado para um mundo de sonhos.

Um mundo da música visceral de qualidade técnica impecável, sem apelos pirotécnicos.

Um mundo em que o estádio de futebol é limpo, pacífico, organizado, aconchegante e seguro para eles e para elas.

Um mundo em que a estação Central do Brasil (para ver inglês) é toda sinalizada, policiada, com  equipes simpáticas e treinadas, com seus coletes “Posso Ajudar?”.

E a para a classe média da zona sul e do Brasil, a “Magical Mystery Tour” começou no trem especialmente disponível para o show, com vagões espaçosos, confortáveis, refrigerados e com música ambiente pra galera ir entrando no clima, enquanto viajava até o Engenho de Dentro em 15 breves minutinhos.

Mas na terça de manhã, os vagões especiais já não estavam mais lá. E o trabalhador da zona Norte encarou as latas de sardinha para ir e voltar do trabalho, sem qualquer vaga lembrança do sonho “geladinho” que experimentei em uma das noites musicais mais especiais da minha vida.

Para ver notícia sobre a volta dos trens à rotina, clique aqui.



De olhos abertos
10/05/2011, 2:05
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Daniel, que desembarcou na França há quatro anos, tropeçou no concreto de Niemeyer que abriga a sede do partido comunista e se viu em Brasília no meio de Paris. E se lembrou de uma história de sua infância arquitetônica, contada por seu pai lá nas areias de Ipanema (clique para ler Chéri à Paris desta semana).

Julia, que desembarcou em Brasília há cinco meses, rodava de carro por ruas largas, cheias de árvores, mas nenhum sinal de bípedes pensantes, e imaginou estar dentro de uma nave espacial, visitando um planeta desconhecido e sem oxigênio, onde só é possível sobreviver dentro de cápsulas protetoras. Ela não se lembrou de nada e por isso mesmo se encantou com uma sensação nova, deixando-se levar por uma sensibilidade aberta para a estranheza, que arrebata sem aviso prévio no meio desta cidade.

William, que se virou como motorista de táxi na nova capital quando chegou de Minas, não segurou a bronca quando uma passageira desandou a criticar os preços abusivos dos imóveis em Brasília, sugerindo que com o mesmo valor seria possível comprar um apê em Tóquio ou Nova Iorque. Ele se lembrou de um amigo que, deslumbrado, vendeu tudo para tentar a vida nos Estados Unidos, mas teve que voltar bem antes do que pensava porque o oficial de imigração não foi com a sua cara. E comentou: o que eu faria com uma propriedade num lugar que não é o meu?

Eu, que passei a vida aqui, mas dei um rolé ali do outro lado do mundo que me fez confundir um pouco quem sou, conduzi o possante na madrugada do último sábado até um dos estacionamentos mais antigos da capital. Havia estado no mesmo prédio comercial às 3 da tarde para uma reunião. Desta vez, os escritórios estavam todos fechados. Menos uma sala no último andar acolchoada por espumas acústicas que há três gerações capturam rifles de guitarra. Naquela noite, o estúdio funcionou como passagem para uma outra dimensão: na laje que circunda todo o prédio, um palco foi improvisado com rock de primeira, que vibrava no ritmo da surpresa de conseguir enxergar o plano piloto em 360 graus, mas tão próximo da W3 como nunca seria possível do alto da torre de TV. E me lembrei de tantos amigos que rompem a burocracia com musicalidade, reinventando o que vem a ser Brasília. E ri por ter recebido de presente naquela noite a senha que decifra a sensação de estar de volta num lugar cuja maior familiaridade é o que há de mais estranho. E agradeci por me reconhecer, enquanto mirava as estrelas entre colunas de concreto.