Tão Longe Tão Perto


Carnaval sem tanga
06/03/2011, 14:55
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Buenos Aires, sábado de carnaval. Num boteco da Hipólito Yrigoyen, um banquinho, um violão e um bumbo que interrompe a comparação com a bossa na primeira batida. Sentada despretenciosamente, sem maquiagem ou grandes produções, a voz grave feminina cala as conversas de botequim e rasga a noite sem piedade. Na mesa, um letrista de tango, uma professora de espanhol dançarina de milongas e algumas de suas alunas, curiosas para conhecer a noite portenha local. Entre elas, Bansari, minha nova amiga londrina/indiana que conheci no bistrô em que trabalhei.

Na faixa dos 30 anos, esses músicos reinventam o tango “de raiz”, sem interferência eletrônica, revivendo dores antigas e criando novos dramas, recheados de saudade, solidão, dor de cotovelo, ciúmes, entre outras feridas humanas que preferiríamos nunca abrir, mas que volta e meia insistem em entupir as coronárias.

A cantora é Viviana Scarlassa. Para conhecer seu trabalho, clique aqui.

“En carne propia, sentirás la angustia sorda de saber que aquel que amaste más es quien te hiere…
Serás inútil que supliques por la gracia del perdón.
Será en vano que pretendas esquivarte del dolor.
Porque algún día, con la misma ruin moneda, con que pagan mal, te pagarán!”

Trecho da música “En carne propia”, de Carlos Bahr (1946), com que Viviana abriu o show ontem à noite.



Mi Buenos Aires querido
04/03/2011, 10:07
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Mi Buenos Aires, querido vizinho,

Obrigada por me ensinar, nos primeiros meses do ano, a diferença entre café con leche, apenas cortado, solo, en jarrito e lágrima. Obrigada por me apresentar a gente interessante e guerreira, por mostrar que não é só na Índia e no Brasil que o povo rala de manhã até de noite, mas procura fazer o que gosta, ri de si mesmo, rebola no improviso e me inspira pra me virar também quando tudo aparentemente dá errado.

Gracias también por me aproximar de amigas que estavam distantes, ampliando minha rede de calor humano e apoio agora também na América Latina. Valeu pela liberdade desse tempo sem carro, nem escritório ou celular e por me lembrar como é gostoso sentir o ventinho na cara, com atenção para motoristas que às vezes respeitam os ciclistas. E que sorte me manter perto de casa o suficiente para não perder conexões e oportunidades profissionais.

Obrigada por me fazer trabalhar músculos adormecidos e cada centímetro das minhas papilas gustativas, por mostrar que ainda sou jovem pra aprender e me reinventar, mas já estou velha para a covardia. E se vieram varizes de brinde no subir e descer as escadas, que elas simulem as sinapses que os neurônios afogados no vinho já não fazem, para me lembrar histórias engraçadas do jogo de decifrar o castellano e o jeito porteño. Em uma semana me voy.

Hasta lueguito!