Tão Longe Tão Perto


Minha vida em café con leche
28/02/2011, 13:01
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Em vôo rasante, a bandeja ultrapassa balcão, cabeças, cadeiras e vasinhos de flores. Como um avião na fila de espera em alta temporada, sobrevoa paralisada o local de pouso, anunciando a aterrissagem da louça chinesa dos anos 40. Os passageiros da vez: café, leite e uma espuma imponente, clara e firme como os novos amores e as certezas não questionadas.

O impacto é imediato. Antes mesmo da discreta chegada do pratinho de petit fours, nem a mais blasé das criaturas consegue segurar o suspiro infantil. E assim, meio de brincadeira, meio levando a sério, começa o ritual portenho do café com leite.

Nas primeiras bebericadas, muito cuidado para não se queimar com as novidades do idioma e da cultura local, tão próximos e ao mesmo tempo distintos do cafezinho de casa. Mas aos poucos, a textura daquela espuma mágica vai se desmanchando no leite das contradições da vida e, já sem muito encantamento, os próximos goles são dados com segurança na mistura agora morna.

Na vida em café com leite , carro, escritório e estudos estão suspensos. Em seu lugar, cabe um tempo definido pelo trajeto da bicicleta, em que aluguel, trabalho e amizade são negociados com a informalidade de quem sabe que daqui a pouco vai embora. Próximo destino: o porto seguro do forno de casa, de onde parte a frota de pães de queijo rumo a lugares ainda desconhecidos.

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Segredos latinos
09/02/2011, 23:49
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“3 cucharaditas de canela, 300 gramos de ananá… Uau, esse bolo de cenoura é muito diferente da receita que roubei do caderno da minha mãe aos 12 anos. Que emoção, graças à caligrafia que a escola me fez treinar até a quinta série, em menos de uma semana de trabalho como garçonete no Pastry Bistrô (clique no link para ver o blog do café), em Buenos Aires, tive acesso a algumas das preciosas fórmulas mágicas da chef. Ela me pediu pra escrever ingredientes e “procedimientos” em cartelinhas, que depois plastifiquei para facilitar a vida do cozinheiro.

Hoje foi um dia friozinho atípico do verão. Choveu pela manhã e, por isso, minhas pernocas foram poupadas de subir e descer as escadas para levar o desayuno (café da manhã) às mesas do terraço, onde turistas e portenhos ficam por horas como lagartixas ao sol, regados a cortado (café com pingo de leite e espuma).

A cada dia acrescento um item à minha lista de tarefas. Meu plano secreto e ambicioso é chegar à cozinha, para um dia, quem sabe, aprender a pilotar aquela batedeira gigante em forma de turbina de avião. Foi lá que, hoje, testemunhei o nascimento de uma receita nova. Sob o olhar atento da chef Georgina, Max, o cozinheiro roqueiro, cabeludo e tatuado, cheio de piercings na boca, transformou farinha, água, sementes e castanha em uma massa integral macia e puxenta, que vai servir de base para as tortas de amanhã.

Foi por acaso que interrompi uma caminhada solitária num sábado de manhã para quebrar o jejum com as delícias perfumadas daquele café charmoso, já meio fora do buxixo de Palermo Soho. Na porta, um aviso: “Necesitamos camarera” (Precisamos de Garçonete). Respirei fundo e gastei o espanhol que aprendi no intensivão de um mês na Universidade de Buenos Aires (UBA) pra oferecer meus serviços, encarando o desafio como o nível 2 do curso na prática. Em troca: uma fonte de aprendizado, amizade, inspiração, pedacinhos do céu chamados de alfajor devorados ainda mornos (Havanna não tá com nada) e as gorjetas acumuladas em uma leiteira de louça antiga, que um dia serão compartilhadas com Tomás, o irmão da chef que me ensinou os malabarismos da bandeja, e a  pequena equipe formada por Max e Miguel, responsáveis por pias e caldeirões lá na cozinha.

Para ver as delícias preparadas na cozinha de Georgina Manghi, clique aqui.