Tão Longe Tão Perto


Adeus, Ano Velho!
31/12/2010, 10:25
Filed under: Sem categoria

Querido Ano Velho,

Sem ofensas, mas aconteceu tanta coisa que parece que você ficou velho mais cedo e por isso me despeço sem nostalgia, com a certeza de que você não foi um ano qualquer.

Se fosse te dar um apelido, diria que você foi um ano “Noel Rosa”, que nasceu de fórceps, frágil e mirrado, mas abraçou o mundo em pouco tempo com tanta sede (também de cigarro e cerveja), que fica até difícil dizer que morreu prematuramente aos 26, depois de 630 composições tiradas com deboche do seu chapéu. (Clique aqui para ler mais sobre a vida de Noel)

Mas os tempos são outros e depois de todos os sambas feitos e amores desfeitos, fica muito mais difícil cumprir a missão de inaugurar a década num mundo já sem tanta esperança.

Então para surpreender, você chegou em minha vida como um bebê ano 2010 que não tinha nada de futurista. Nascido na Índia, cumpriu rituais de tradições milenares, me apresentou antigos sabores e temperos, me fez ter medo da solidão, mas provar que consigo fazer amigos verdadeiros, mesmo quando no meio de vacas e sadus adornados e coloridos, o exótico sou eu, com meu cabelo curto e uma fome de autonomia que se relativiza, perdendo e ganhando sentido.

E para finalizar seu ciclo vital, você me traz de volta pra casa, de mãos dadas com alguém que sou eu mesma, pra mostrar o valor de tudo o que foi construído antes, pra dizer que o ano 10 não começou do zero e que tudo aquilo que parecia tão igual jamais será como antes.

 

Anúncios


Muito prazer, eu sou o Brasil.
06/12/2010, 17:03
Filed under: eu sou o Brasil | Tags: , , ,

Quando pisei em Bangalore, na Índia, os colegas do escritório não conseguiram deixar de demonstrar certa decepção com meu visu. Como brasileira, eu bem que podia ser mais Gabriela, baiana, mulata, cabelos de cachos pesados e negros. Mas sou de um pedaço do Brasil formado por descendentes de europeus, camponeses que abarrotaram os navios para a América em busca de novas oportunidades depois do fim do tráfico internacional de escravos africanos.

A vida não foi fácil para esses antepassados, que geralmente trabalhavam nas plantações de café de terceiros, mas um número de políticas públicas e de outras oportunidades não tão institucionalizadas assim contribuiram para que em quatro gerações fosse possível que eu chegasse até a Índia para conhecer alguns lugares por onde passaram os navios que aqui chegaram em 1500. Lá conheci alguns brasileiros, todos com uma trajetória familiar parecida com a minha. E no ano anterior, fiz um ano de mestrado em Londres, onde também conheci e reencontrei muita gente daqui, com quem tinha afinidade, amigos, escolas, histórias, sonhos e perspectivas em comum. Quando descobríamos essas coincidências, alguém sempre comentava “Que mundo pequeno!” e citava aquela teoria que entre alguém e qualquer um haveria no máximo seis níveis de proximidade.

Acontece que a classe média do mundo capaz de bancar a educação superior é realmente muito pequena. E no Brasil, ela tem cor, jeitão e valores tão limitados, longe de representar a diversidade de formação do povo do país.

Não é fácil falar de racismo. Talvez a primeira vez que tenha discutido o tema na mesa de bar foi quando a Universidade de Brasília adotou o polêmico sistema de cotas para afrodescendentes. Talvez o assunto só tenha chegado tão perto porque era visto por alguns como ameaça à garantia de vagas para quem sempre chegou lá. Um dos argumentos contra o sistema de cotas era que num país mestiço como o Brasil, seria impossível definir quem era ou não negro. Mas lembro que o Senador Cristóvão Buarque brincou com essa história, dizendo que o porteiro de qualquer edifício sabia muito bem quem podia entrar pela porta da frente ou pelos fundos.

Este mês, o UNICEF lançou uma campanha linda contra o racismo. Com apoio do ator Lázaro Ramos (veja depoimento dele no blog da campanha), a iniciativa procura mostrar o impacto desse fenômeno nas crianças e adolescentes brasileiros, convocando o Brasil para repensar o tema com dignidade e coragem. 

Em 1995, Darcy Ribeiro procurou reconstituir em seu livro “O Povo Brasileiro: a formação e o sentido do Brasil” o processo de construção do brasileiro por meio da união da língua e dos costumoes dos índios, negros e europeus. A tarefa parecia impossível. “Impossível porque só temos o testemunho de um dos protagonistas, o invasor. Ele é quem nos fala de suas façanhas. É ele, também, quem relata o que sucedeu aos índios e aos negros, raramente lhes dando a palavra de registro de suas próprias falas”.