Tão Longe Tão Perto


O quinto Beatle
19/09/2010, 23:44
Filed under: O quinto Beatle - Jana Mendonça

Texto de Janaína Mendonça

O Quinto Beatle. Nem gravei o nome dele. Amigo de John Lennon, ele entrou para a Banda sem muita convicção, porque o amigo insistiu. Não era um músico muito bom, era um estudante de artes (ou de arquitetura?), que apenas se divertia com aqueles garotos.  O grupo passou uma temporada tocando numa casa noturna na Alemanha, porque na época não podiam se apresentar em Londres (alguém ainda era menor de idade). Logo começaram a chamar a atenção e o lugar estava sempre lotado. Foi lá que o Quinto Beatle conheceu uma linda garota, fotógrafa, com interesses idênticos aos seus. Os dois eram espelhos um do outro. Quando chegou o momento de retornar a Londres, o Quinto Beatle anunciou que deixaria a banda, pra ficar ali com a sua alma gêmea, pra sempre.

– Coitado, se deu mal! – foi o comentário do meu marido. Era exatamente o que eu estava pensando. Como será que uma pessoa ficaria ao saber que deixou de ser um astro de rock mundialmente famoso, parte de um grupo que alcançou um sucesso sem precedentes e que deixaria sua marca incontestável na História? Como um relacionamento poderia resistir a uma comparação tão descomunalmente inigualável, em termos de aventura, ousadia, excitação, imprevisibilidade, criação, viagens, diversão, sexo, dinheiro? Ser casado x ser um Beatle?!? Coitado! Coitado!

Mas continuamos assistindo ao documentário da HBO e logo foi revelado que o Quinto Beatle morreu em poucas semanas, vítima de um derrame fulminante.

– Coitado. No fim das contas, fez a escolha certa. – comentou Hélio.

Bem, nesse momento eu fiquei confusa. Como pode a mesma decisão, que era um equívoco absoluto, de repente se transformar na escolha certa?

Depois de matutar alguns dias, concluí que há uma outra variável que não estava explícita na equação: o tempo. O tempo muda tudo. Sob o poder transformador do tempo, todos os elementos se transmudam. Após 10 anos, a relação que fez o Quinto Beatle ficar na Alemanha já seria outra coisa, enquanto os garotos irresponsáveis de Liverpool se tornariam… The Beatles! Incluir o tempo nessa conta é incluir uma variável imprevisível, é “contar com o ovo no cu da galinha”, é fazer uma operação arriscadíssima. Fazemos nossas escolhas com as informações que temos. Então, sempre fazemos operações de risco!

Eu, no lugar do Quinto Beatle, tomaria exatamente a mesma decisão que ele tomou. Eu não deixaria de ficar com alguém que eu acreditava ser a tampa da minha panela, pra continuar tocando (mal) numa banda de rock, que provalmente não levaria ninguém muito longe. Com sorte, eu morreria antes que o encanto da paixão se esvaísse e antes que o retrato desbotado dos jovens enamorados se apagasse de vez, diante das fotos incríveis de uma vida de aventuras, estamapada nas capas dos LPs. Aí, não precisaria questionar minhas decisões.

A fórmula da felicidade não varia muito. Em livros de auto-ajuda ou em mensagens profundas de iogues santificados, a receita é basicamente a mesma: viver o presente, aceitação, desapego, perdão. O contrário é sofrimento e dor.

Assim, se o Quinto Beatle não morresse, poderia simplesmente prosseguir vivendo sua vida, aceitando os momentos de alegria que desfrutou, aprendendo com as frustrações e perdoando a si mesmo por algum suposto equívoco. E, no fim de sua vida, já bem velhinho, ele poderia nem se lembrar direito de quem foram certos garotos barulhentos. Ele olharia pra trás e se sentiria bem com o que viveu, dentro de suas limitações e de suas capacidades. Talvez só se sentisse bem, sem muita especulação, porque a fórmula da felicidade, na prática, é um pouco disso: let it be!

Mas e se ele não abraçasse o caminho da luz? Se, em seu inconformismo, o cara simplesmente não conseguisse superar a idéia de ter sido o Quinto Beatle? Ele poderia ficar com essa idéia fixa, apegado ao que poderia ter sido, revoltado consigo mesmo por não ter adivinhado o que viria. Nesse caso, ele poderia escrever livros falando sobre como quase fez parte do grupo, poderia participar de alguns encontros com a banda, na condição de amigo do John, vivendo à sombra do brilho deles, como mosca na lâmpada. Sofrimento e dor.

Os dois possíveis destinos desse jovem foram definidos por um só momento, uma única decisão? Credo! O ato de escolha passa a ter um valor absurdamente enorme! Será? Uma amiga uma vez me disse, quando eu tentava definir como certa ou errada determinada escolha: isso não é tão importante assim.

Novamente, fiquei meio confusa. E de novo, depois de meditar um pouco, acho que entendi. Muitos já disseram: o que importa não é a final da viagem, mas o caminho. No fim das contas, tanto faz essa ou aquela cidade, essa ou aquela pessoa, essa ou não essa banda. Tudo é experiência, tudo é bom e ruim, tudo pode trazer felicidade ou infelicidade.

Um terceiro caminho para o Quinto Beatle pareceu ser possível. Ele poderia ter ficado na banda e, se não morresse, poderia ter vivido empolgadamente anos frenéticos que o sucesso e o dinheiro devem proporcionar e, no fim, poderia pensar que gostaria de ter vivido com aquela garota que ficou lá na Alemanha, uma outra vida, com outros tesouros que agora pareceriam pedras preciosas raras.

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Grito de Independência
07/09/2010, 1:25
Filed under: Grito de independência

-Véi, dá tempo. A gente entra na festa e volta pro quartel umas 4 da manhã, toma banho e vai direto marchar na esplanada.

– Mas a fila não anda. Bóra pra outro lugar. Mas onde? A Granja tá lotada, congestionamento até a Asa Norte.

Nunca tinha visto de perto alguém que desfila no 7 de setembro, este evento que parece tão fora de contexto depois de 25 anos do fim da ditadura militar no Brasil. Mas ontem à noite, eu e aqueles meninos que driblaram a disciplina do quartel queríamos ser soldados da música negra e celebrar a véspera da independência na festa do Criolina, que toda segunda transforma um restaurante espanhol cravado no Setor Bancário em pista de samba-rock, soul e hip-hop.

Coisas de uma Brasília de agora, terra de ninguém e de todo mundo que se arrisca a criar diversão e cultura, como aconteceu com a dupla Pezão e Barata. Eles desenterraram os LPs para salvar as férias de 2005 e hoje levam a musicalidade brasileira pra muitos cantos do mundo.

Só que no canto de ontem nem eu nem os soldados conseguimos entrar porque a fila estava de dobrar a esquina que Brasília não tem.

Meu plano B foi voltar pra casa e listar algumas dependências das quais quero me livrar, na esperança de um dia dar um grito pra dentro de mim mesma às margens do meu Ipiranga particular.

Também queria gritar para que Brasília fosse mais bem tratada. Na capital de agora, com muito mais carros e especulação imobiliária, com certeza há mais opções de cultura e lazer. A cidade passou a entrar, por exemplo, na agenda de artistas internacionais. Só este mês tem Stomp, Diana Krall, Alpha Blondy, Cranberries, entre outros, mas os preços são praticamente inviáveis pra quem não comprou o pacotão que inclui carro, emprego estável, altos salários e a mobilidade de quem só sai do avião do plano piloto para entrar em outro avião. Nada contra a vida boa, mas é desolador refletir sobre as condições político-administrativas excludentes do DF. Quase todas as obras que se propunham a melhorar o transporte público foram interrompidas por suspeitas de corrupção, fraude na licitação, entre outras coisas feias e sérias.

Como um oásis neste deserto, tivemos até semana passada a décima edição do Cena Contemporânea, um festival com espetáculos locais e internacional que ocuparam os espaços públicos da cidade com música e teatro de qualidade. O evento foi encerrado no último domingo, dia mais seco do ano, com umidade relativa do ar a 12%, com 6 mil pessoas encantadas com o show do músico sérvio Goran Bregovic no concretão da praça do Museu da República.

Espero que os meninos tenham conseguido um pouco de diversão antes de suar as fardas hoje, no Dia da Independência, resistindo ao sol na moleira da cidade-deserto.



Lá na Índia
01/09/2010, 6:58
Filed under: Lá na Índia

Vi e senti tanta coisa lá na Índia que preciso escrever para não esquecer.

Amizades com a força curativa do gengibre, descobertas iluminadas como curcuma, solidão amarga como neem. Me vi muito, me vi forte, me vi frágil. Prestei muita atenção, mas mesmo assim deixei de conhecer tanto, talvez por pressa ou porque estava ocupada aprendendo, trabalhando ou falando bem alto para meu umbigo ouvir.

Hoje tive a impressão que materializei aqui como sempre estive. Não veio o nome do estado indiano onde os homens usam turbante e nunca fazem a barba. Precisei de 15 minutos pra lembrar…. Punjab! Um dos muitos lugares onde ainda não pisei, mas conheci por meio de pessoas que vem e vão e acabam passando por Bangalore para trabalhar por um tempo, como fiz.

Deixei de ver e sentir tanta coisa lá na Índia que preciso ler para depois esquecer. A química dos temperos, a textura das sedas, as invertidas da ioga, a simbologia das cores e a metáfora de tantas histórias. Me vejo aqui. Como sempre, como nunca.

Uma das coisas mais cansativas de ser estrangeira é o esforço necessário para se comunicar. Antenas ligadas para decifrar o que é dito num sotaque forte e rápido. Caderninho à mão para anotar nomes de gente, comida, lugares. Autotolerância para falar lentamente, assumindo um sotaque “exótico”, como descreveu uma colega de trabalho.

Aqui economizo palavras e posso ter pressa, mesmo sem saber exatamente para quê. Aqui não provenho nada. Sou provida numa generosidade infinita de quem me viu do avesso lá longe. E não preciso dizer nada, mas queria dizer obrigada.