Tão Longe Tão Perto


Em crise com os Petiscos da Paz
19/07/2010, 0:05
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O que fazer quando se descobre uma face até então desconhecida do seu amigo? Algo que não dá pra aceitar, mas está tão arraigado do outro lado que dificilmente vai mudar?

Desde que cheguei em Bangalore, no fim do ano passado, quem me alimenta e me abriga é Shanti Upahar (algo como “Petiscos da Paz”, em Canará), um estabelecimento familiar com estilo daquelas padarias portuguesas antigas do Rio de Janeiro, misturado com o que seria os primórdios das lanchonetes fast food e um toque de PF de cidade do interior. Ali se come em pé, em mesinhas de metal espalhadas na loja e na calçada.

O cardápio varia segundo o horário e inclui pratos rápidos típicos do norte e sul da Índia, sucos naturais, doces e sorvete, servidos de 7h da manhã às 10h30 da noite. O público é igualmente variado: famílias com crianças, comerciantes da região, motoristas de auto riquexó, donas de casa e eu, que ali aprendi a degustar os idlis, dosas e biriyanis, desenvolver a habilidade de cortar o os chapatis e rotis usando apenas a mão direita, observar tudo como se assistisse a um filme e gastar com vontade meu parco vocabulário em canará. Já conheço o menu de cor. Aqueles nomes inicialmente indecifráveis agora já estão guardados na  memória gustativa, junto com os respectivos preços, que nunca ultrapassam 40 rúpias (menos de 2 reais). Toda vez que arrisquei outro lugar me arrependi. Nada é tão bom, bonito e barato quanto Shanti Upahar, meu amigo, meu querido, meu segundo lar na Índia (o primeiro é o escritório, onde passo pelo menos 9 horas do meu dia).

A divisão de trabalho é explicitamente definida. Do lado de lá do balcão, um exército de 20 homens que encaram fogão e chapa quente por mais de 12 horas por dia sem reclamar, com disciplina e atenção para não errar nenhum dos milhares de pedidos diários. Vez ou outra uma brincadeira arranca um sorriso tímido, sem que a distração interfira na lida, supervisionada com rigor pelo dono da bodega. Do lado de fora, um grupo de 3 ou 4 adolescentes juntam os copos e pratos em grandes caixotes de plástico e levam tudo para um canto da cozinha onde há duas pias grandes, comandadas por uma ou duas mulheres.

Esta semana, entretanto, a pimenta ardeu mais que esperava. Pela primeira vez, vi que há uma terceira pia no canto da cozinha. E ali quem enxágua os pratos é um menino que teve que dobrar as mangas e barras do uniforme muitas vezes pra ajustá-lo ao seu tamanho. É… Shanti Upahar emprega mão de obra infantil, assim como a dona da pensão onde fiquei no primeiro mês, a família que passa roupas embaixo da árvore na minha rua, a construção do templo por onde passo em direção ao trabalho, só pra citar exemplos mínimos num raio de 2 quilômetros de um bairro de classe média da capital da informática, que contribuem para que a Índia se mantenha em primeiro lugar no ranking mundial de número de trabalhadores com menos de 14 anos (dado do Unicef/India). As razões para isso vão muito além da pobreza e incluem, entre outros fatores, a falta de estrutura, de qualidade e de valor dado à educação.

Na ONG onde trabalho, consegui com uma colega o contato do órgão do governo indiano responsável pelo enfrentamento ao trabalho infantil. Como estratégia de intervenção, essa instituição trabalha em parceria com ONGs locais, que chegam de mansinho, observam a situação da criança, procuram entender a lógica do trabalho, identificar onde está a família, para então tomar uma atitude que não prejudique ainda mais a vida daquele menino.

Como ensina a professora de Antropologia Rita Segato, da UnB, todo exercício de observação do outro só vale mesmo se servir de espelho. Então vou pegar emprestada uma citação do Senador Cristovam Buarque que a amiga Renata Farret colocou online no dia 13 de julho, quando o Estatuto da Criança e do Adolescente completou 20 anos: “O Brasil ficou entre os 8 melhores do mundo no futebol e ficou triste, mas é o 85º em educação e não há tristeza”.



Quadrilha Indiana*
17/07/2010, 12:44
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*Que Drummond me perdoe.

Max, que amava Seema, não teve culhões pra enfrentar a família cristã e se casou com Nalini, deixando a menina hindu na esperança que alguma coisa poderia dar errado até o último segundo antes do matrimônio.

Seema, que chorou por Max, voltou pra casa e conseguiu segurar a pressão da família por pouco tempo. Acabou, então, aceitando um antigo colega, filho de amigos dos seus pais, como futuro marido, a quem carinhosamente apelidou de controle remoto.

Gowri, que amava Anil, abriu mão da própria felicidade em favor da de seus pais e irmã mais nova, que por tradição, não poderia se casar antes dela. Pediu demissão e fugiu sem despedida pra sua cidade natal. Em casa, é proibida de atender telefone e acessar a internet sem a supervisão materna.

Anil, que amava Gowri, chegou a planejar um sequestro, disposto a bancar a ira da família dela pra ter sua companheira pra sempre. Mas seus planos foram desmantelados por um aviso da polícia, que havia sido contatada pelo pai da moça.

Lakshmi, que aprendeu a amar o pai de seu filho, fechou o coração pra sempre depois de um casamento truculento e imaturo. Divorciada, ela não tem mais sonhos, nem medos, nem nada.

Janaki está louco de amor, mas ainda não sabe por quem. Em meio ao processo de recrutamento de noivas, ele já avisou aos chefes que muito em breve não poderá mais fazer hora extra, pois deverá chegar em casa cedo para jantar em companhia de sua nova esposa.

Smita, que se mudou ainda criança para os Estados Unidos, aprendeu a diversidade do amor. De volta à Índia, trouxe sua companheira para uma temporada de trabalho, ciente que aqui tudo permanece em segredo.

Shruthi, que não amava ninguém, é professora universitária, mulher prática e despojada. Queria se casar, achava lindo o ritual, mas nunca se deixou envolver, nem sentiu o que chamam de paixão, embora tenha tido um namorado legal. Aos 30, conversou então com sua mãe, que sabia muito bem como proceder para um casamento arranjado. Escolhido o pretendente, conviveram por 6 meses e realizaram uma cerimônia compacta com 2 dias de duração. Aos poucos vão se conhecendo, se adaptando, se gostando. O casamento vai muito bem, obrigada.



De 50 a 3000 anos
11/07/2010, 13:10
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Pintura a óleo de Oscar NiemeyerEm visita a Hampi, cidade-império do século 14, mas com registro de presença humana há pelo menos 3000 anos, ficou claro que apreciar ruínas não é lá muito fácil. Minha cidade tem só 50 anos e minhas referências estéticas são beeem mais limitadas que as do crítico francês André Malraux, que comentou com Niemeyer em sua visita à nova capital “Que belas ruínas Brasília daria”. A observação inspirou uma das poucas pinturas a óleo de Oscar Niemeyer, exposta no cinquentenário da cidade (reproduzida ali à esquerda).

Aqui de longe soube disso graças aos amigos que alimentam com inteligência espaços online como o facebook. Letícia Verdi fez a referência e Felipe Berocan comentou: “Assim também pensava o arquiteto de Hitler, construindo obras monumentais, antecipando a grandiosidade de suas ruínas”. Humildade parece não ser mesmo o forte de quem pretende resistir à inexorável condição de mortal e deixar histórias concretas que atravessam os séculos.

No caso de Hampi, no norte do estado de Karnataka, a aridez da paisagem, formada por enormes pedras amareladas que parecem ter caído do céu, mas que resultam de erosões milenares, aos poucos vai sendo preenchida por narrativas mitológicas anteriores à construção de Vijayanagara. A cidade teve importância comercial de 1336 a 1565, quando foi saqueada pelos sultões islâmicos. Sem perceber, começamos a escutar as ruínas sussurrando, contando histórias fantásticas de amor, traição, lutas de deuses, deusas, heróis e heroínas, demônios e de um povo forte e leal a seus líderes, capaz de construir fortalezas, para depois abandonar tudo, fugindo de saques e ataques de outros reinos.

É praticamente impossível distinguir o que é mito de realidade. A cidade foi fundada depois de um sinal auspicioso, quando dois chefes andavam com seus cães pela floresta e surpreendentemente uma lebre virou o jogo e começou a perseguir os farejadores. O cenário também é citado, por exemplo, no épico Ramayana. Foi aqui que Rama, encarnação do Deus Hindu Vishnu, e seu irmão Lakshmana, encontraram Hanuman, o Deus-Macaco, guerreiro que ajuda a resgatar Sita (mulher de Rama), que havia sido capturada pelo demônio Ravana. As referências ao Ramayana são lembradas por imagens de Rama e Sita com Hanuman e Lashmana, cravadas nas pedras de templos e castelos.

Assim como Brasília, Hampi também é Patrimônio Histórico da Humanidade. O apoio da Unesco garante o mínimo de informação em placas erguidas na frente de cada monumento, mais nada além disso. Se na Europa a estrutura turística oferece a versão oficial mastigadinha em troca de muitos tostões, por aqui fica por conta do visitante boa parte das especulações. Por conta do período eleitoral, os guias locais não estavam disponíveis, mas um livro atendeu o básico da história, que continua sendo desvendada a cada pedaço escavado.

Tive sorte por ter sido convidada por dois amigos pra rachar a gasolina e ir de carro. Mas sendo sincera, as ruínas começam ainda na estrada, onde a gente encarou um caminhão atrás do outro, sem ter muita visibilidade da buraqueira provocada pela mineração, que todo mundo bem sabe como destrói qualquer resquício de vida. Mas nada disso impede as dezenas de ônibus com turistas indianos, que vêm conhecer de perto o que não foi possível colocar atrás dos vidros no Museu Britânico.



Dona das divinas tetas
04/07/2010, 16:51
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Hoje quis ser uma vaca. Atravessei a rua e lá estava ela, deitadona ao sol do meio dia, observando o movimento incessante dos carros, que desviavam para não machucá-la. Entre piscadas demoradas num domingo preguiçoso, aqueles olhões de cílios longos não choram a derrota na copa, nem a saudade de casa, nem a angústia do porvir. Apenas abrem e fecham em câmera lenta, olhando tudo o que passa. E o que passa é muito, intenso, colorido, barulhento, confuso. No país dos vegetarianos, ela não se deixa abater. Continua ali, semi-paralisada, num ritmo próprio de quem apenas é. Ninguém é mais zen que as vacas indianas.

Antes de vir pra Índia, pensei que as vacas sagradas fossem colocadas num pedestal, como os santos católicos. Que a elas fossem reservados os melhores pratos, flores e oferendas. Mas que nada. Soltas na cidade, elas compõem um cenário urbano sem pasto, raspando os cascos no asfalto, driblando a artrose em movimentos lentos, cagando e andando. Silenciosamente, se alimentam do lixo ou restos de comida e água oferecida pelos moradores. Contam também com ajuda especializada de ONGs que se organizam para resgatar as doentes e fazer cirurgias para retirar sacos plásticos do estômago. Com liberdade, elas se viram sem competição, dóceis e humildes.

Não sei porque no Brasil é uma ofensa chamar a mulher de vaca. Queria mais é que a mulher fosse tratada como a vaca, respeitada no seu corpão de provedora, que jamais passa despercebido, como acontece com tantos outros corpinhos, vendendo, pedindo, dormindo invisíveis na rua.