Tão Longe Tão Perto


Subindo pelas paredes
20/06/2010, 19:22
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A marmanja no oriente: “Alô, pai. Tô no meio de uma tarefa ingrata”. “Já é quase meia noite aí, filha, o que foi?”. “A gorda! Tá grudada na porta do armário de roupa no meu quarto, já mais pra dentro que pra fora!”.

Pausa para o contexto:

Praticamente 8 meses de Índia e tenho uma lista de visitantes recebidos com toda hospitalidade, mas delicadamente convidados a se retirar. Em um ano de Londres, biodiversidade zero, só houve uma visita – a de It, que sumiu sem deixar rastros. Aqui, circundada por coqueiros e flamboyans, asfalto adubado diariamente por inúmeras vaquinhas que vem e vão, bem que a poluição do trânsito da nova capital da tecnologia vem destruindo muitas vidas, mas a raça é forte e acostumada a adversidades. Os mais resistentes sobrevivem e aparecem de vez em quando pra dar um alô.

Boa parte do exercício de estar tão longe é encarar os medos de frente, aproveitar que ninguém está olhando pra observar como é que a gente se vira diante da suposta ameaça (que muitas vezes é a gente mesmo). Fora de casa, até que consegui me esquivar de morcegos, ignorar cachorros famintos que viram lobisomen de madrugada e saltar ratazanas, apesar do arrepio na espinha. Dentro de casa, vinha usando o método “copo de iogurte” (que consiste em capturar o visitante entre o copo de plástico e uma revista) pra mostrar que a porta da rua é a serventia da casa. Foi assim com dezenas de abelhinhas cegas, que teimavam em se arriscar no calor da lâmpada; 3 grilos falantes, que pela altura do cri cri devem ter as pernocas bem cabeludas; e um louva-deus gigante, de tamanho proporcional à louvação nesta terra espiritualizada, que olhava pra mim, balançando a cabecinha como se tivesse o pescoço de mola.

Foi então que um novo hóspede começou a deixar vestígios. Religiosamente, mandava uma caquinha por dia na cozinha: às vezes no chão, na bancada da pia, em cima da geladeira ou na beirada da janela. Depois do menino Krishna, herança que Mr. Babu deixou no apê, pensei ter comigo a ilustre presença de Ganesha, Deus com cabeça de elefante, cujo veículo divino é um ratinho. Definitivamente não estava preparada. Um dos critérios pra alugar o apartamento foi justamente não ser no térreo, já avisada da presença de roedores.

Desesperada, falei com Ramy, experiente trabalhadora que há anos limpa a casa de toda a vizinhança, sem perder a elegância, sempre de sári, trança, brinco de ouro e tornozeleira de prata. Nossa conversa é limitada porque ela fala pouquinho inglês e eu falo menos ainda o canará, mas nos entendemos. Ela disse “Nada de rato, é ralli”, mostrando o dedo pra indicar que era algo comprido. Mas lagartixa com caca daquele tamanho? Dias depois, a primeira aparição: lá em cima, metade do corpo escondido atrás do armário da cozinha, a outra metade pra fora. Cabeça em formato de losango, olhos arregalados e bem mais encorpada que as magrelinhas do Brasil. Estaria grávida? Não faço idéia de como se reproduzem, mas já li que algumas espécies nem precisam do macho para isso. Coincidência ou não, logo apareceu uma lagartixinha baby perdida no chão da sala. Convivíamos bem, enquanto a gorda mãe circulava entre a cozinha e o banheiro (que aprendeu a usar depois do filme “Como treinar o seu dragão”). Na minha ausência, Ramy se livrou da pequetita e fingiu ter calafrios quando perguntei pela grande. Aos poucos, ela foi perdendo a timidez e aparecendo aqui, ali, geralmente com parte do corpo gorducho escondido em alguma fresta, sempre batizando a cozinha. Mas limpava tudo com paciência pois fui convencida que era até sorte ter uma caçadora de insetos em casa. Depois Shruti me avisou que machucar um bicho desse só traz maldição.

Só que naquela noite ela abusou. E ao sair do banho, vi o pontinho preto embaixo do armário de roupas. Fui subindo os olhos e lá estava ela, a gorda, como descrevi pro meu pai, aquele ser estranho, rápido, incolor e eu sei, eu sei, inofensivo.

Mexi na porta entreaberta e ela correu pra dentro, saltou no casaco que usava em Londres que aqui é peça de museu, escorregou pra dentro do bolso, conseguiu escalar até o colarinho e se escondeu atrás do gorro, deixando aquelas unhas de dragão pra fora. Tirei todas as outras roupas, morrendo de medo de ter que tocar naquela pelezinha enrugada. Se eu tinha alguma chance de expulsá-la era naquele momento. Era só embrulhar o casaco e sacodir no terracinho num movimento de Indiana (Jones), como sugeriu meu pai, a esta altura totalmente aprisionado na conversa virtual, mas sempre solidário ao embate. “Vai lá, filha, ela não faz nada, só tá achando que a casa é dela também”. “Ela é mais rápida que eu! Vou tentar”. Respirei fundo e … morri de vergonha. Tentei justificar: “Ela não é uma lagartixa comum, tá? É grande, gorda, quase um jacaré, um tipo que nunca vi na vida”. “Lagartixa indiana”. “É tão grande que eu achei que o cocô fosse de rato. Mas vamos lá. Me deseje sorte”. “Bom, você pode pegar um pau e dar na cabeça dela também”. “Não, pai, estou na terra de Gandhi, sou contra a violência, só mato barata e pernilongo”. “Então vai, coragem”. “Ok”.

“Fudeu! Demorei! Ela saiu do casaco! Está dentro do armário, com aquele olho estatelado! Estou paralisada na frente dela e ela na minha frente!”. “Varre ela com a vassoura e empurra pra porta”. “É um longo caminho. Pai, cê não tem noção da rapidez da bicha”. “Então tá danado, melhor esquecer e amanhã você pede pra alguém tirar ela daí. Ela não vai atacar. Pode até ser grande, mas você é maior. E desse jeito vocês duas estão ficando nervosas”. Acho que foi isso que mexeu com meus brios. Como confessar minha incompetência e meu medo pra um estranho? “Nada disso, a casa é minha e vou expulsar esta invasora. Vou me acalmar e deixá-la calma também. Vamos conversar”. Fiz um movimento com a vassoura e ela saiu do armário. Fiquei chocada. “Ela não tem rabo!!! É feia de dar dó”. Mais calma, fui movimentando a vassoura e ela fugiu rapidamente para fora do quarto. Entre um movimento e outro, meu pai me mandava trechos de uma enciclopédia:

“…pequena, inofensiva e se esconde em frestas de paredes, sótãos, forros de telhados. E é útil para o ser humano: come insetos que incomodam, como baratas, traças e mosquitos; além de artrópodes, como aranhas, centopéias e escorpiões”.

“Já está na sala, atrás da cortina”!

“Como a comida humana não a atrai, ela dificilmente freqüenta locais contaminados. Por isso não transmite doenças. Apesar de tantas qualidades, muitos têm medo deste bichinho: a lagartixa”.

“Abri a cortina e a danada correu pra cozinha, pro velho esconderijo”.

“Seu nome científico é Hemidactylus mabuia. Trata-se de uma réptil caseira, de cor terrosa ou acinzentada, cuja pele escurece, quando há pouca luz. É o mimetismo, que a ajuda a se disfarçar no ambiente para que inimigos naturais não a vejam”.

“A perdi de vista. Continuo com minha inquilina”.

“Suas patinhas têm saliências adesivas, que facilitam os maiores malabarismos. Nossa amiga sobe em qualquer superfície e fica até de cabeça para baixo. Seus predadores naturais são grandes aranhas, cobras, corujas e mamíferos de pequeno porte, como os ratos. Mas nossa amiga tem uma defesa: é capaz de desprender um pedaço da cauda, que fica na boca do inimigo. Mais tarde a parte carnosa do seu rabo se regenera”.

“Então, BRAVO! BRAVISSIMA! Pelo menos esta você já conhece. Aprenda a conviver com ela”.

Contei o feito pra Ramy, que morreu de rir e me ensinou: “De manhã, abra todas as janelas. Ela deve sair pra caçar. De tarde, feche tudo. Faça isso por três dias”.

E não é que deu certo? Mas será que ela sobreviveu aos predadores lá fora? Se ela bater à porta pedindo pra voltar, vou pensar. Opa, o que este pontinho preto tá fazendo aqui de novo?

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