Tão Longe Tão Perto


Os óculos do Chico
30/04/2010, 15:35
Filed under: Os óculos do Chico - Daniel Cariello

“Meu pai, que era um crítico literário e jornalista, foi morar em Berlim no começo dos anos trinta, e foi lá que ele começou a escrever um livro que se tornou um clássico, Raízes do Brasil, quando ele teve uma visão de historiador, de fora do Brasil. A possibilidade de ter esse trânsito, de ir e voltar, eu acho boa. É como voce mudar de óculos, um para ver de longe e outro para ver de perto.”

Chico Buarque em entrevista a Daniel Cariello. Clique aqui para ler o bate-papo entre os craques na Brazuca deste mes.

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Presente de aniversário
15/04/2010, 9:59
Filed under: Presente de aniversário

Na Índia não cabe ponto final. Foi aqui na terra de exclamações, interrogações e reticências que meu odômetro rodou pra marcar a nova quilometragem de 2010. Prestes a me isolar num santuário ecológico de Kerala e passar oito horas num busú de volta a Bangalore, acabei desistindo dos elefantes, pra comemorar os 35 em festa, graças à carona que peguei no aniversário de uma nova amiga. Em plena terça, o terracinho do Mr. Babu bombou, com direito a apresentação de francês com bigode desenhado à lápis e duas dançarinas improvisadas que o guiaram na coreografia de Bollywood ensaiada pós-expediente no escritório.
Minha irmã gêmea na Índia nasceu 10 anos depois de mim. Filha única de um astrônomo e uma professora que decidiram se casar depois dos 30, o que requer muita coragem ainda hoje, Krittika (que significa constelação) foi criada com muita liberdade. Sua formação política familiar, somada a uma personalidade questionadora e despojada, resultaram num dom para a liderança, para a pesquisa na área das ciências sociais e para uma vida cultural agitada. Tive a sorte de conhecê-la na ONG em que trabalho em Bangalore, a tempo nutrir admiração por seu humor sarcástico, conhecer suas amigas mais próximas, descobrir que nascemos no mesmo dia e acompanhar algumas de suas aventuras. A mais recente foi nossa festinha de aniversário.
Depois de cinco meses na Índia, com dificuldade pra encontrar pessoas com afinidade, finalmente minha casa estava cheia de gente e música boa, comida, bebida e… presentes surpreendentes que incluem: a história em quadrinhos de Hanuman, o Deus-Macaco (um dos meus favoritos, porque é poderoso e ajuda as crianças); uma versão do épico Mahabharata, chocolates, roupa e bijou étnica, flores, meu próximo livro de cabeceira: “Sem pontos finais na Índia”, do jornalista da BBC indo-britânico Mark Tully, e cartões de aniversário, inclusive com partes do texto em português.
Confesso que no meio da festa, toda a maturidade da nova marca foi pro Ganges quando descobri que, segundo o costume local, após os parabéns, o primeiro pedaço de bolo vai parar na cara da aniversariante. Na festinha da tarde no escritório eu até encarei a brincadeira numa boa, no melhor estilo Gandhi da não-violência, até porque tenho mais o que fazer do que guerra de gordura hidrogenada. Mas de noite, minha companheira repetiu o feito. Agarrei aqueles bracinhos, numa tentativa de conter a Constelação, subestimando a força das estrelas, capaz de vencer minha resistência e espalhar chocolate em mim e na sala, o que o que me fez perder 30 anos em 2 minutos e virar uma menina de cinco enfezada pela irmã mais nova de dois. Como já tenho fama de psicótica da limpeza, o mal-estar provocado pelo chilique foi aplacado por promessas espontâneas de que não haveria migalhas no chão, se me levantasse para lavar e desamarrar a cara. Me veio na mente a voz metálica da Marta Suplicy, afirmando que  “se você for docinha, fazem picadinho”. Mas longe da casa civil, bastou uma colherada daquela “cup cake” gigante preparada por Anu pra fazermos as pazes. A propósito, acho que doçura não deve ser confundida com submissão e que a gente deve fazer o mundo ficar mais suave pra ninguém ter que embrutecer.
Então terminei de abrir os presentes e me deparei com o melhor deles: uma cartinha engraçada preparada por Pablo e Shivani (os dançarinos). Eles me chamam de Gabi Manchurian Madam (Gobi Manchurian é um prato local e Madam foi o excesso de formalismo trazido pela nova estagiária), sacaneiam meu sotaque forte pra falar “Brazyou, Emayou, Meanwhyou” e me dão um vale presente, que vai transformar meu sonho em realidade. Há duas semanas, estou em busca de aulas de culinária pra tentar decifrar os temperos daqui. Mas até então só tinha achado escolas muito distantes, aulas no meio do expediente ou tutoras de noivas desesperadas pra agradar a sogra. Então meus amigos sacaram da cartola a solução: nos classificados, acharam um cozinheiro de Orissa que está há oito anos em Bangalore trabalhando em restaurantes e casas de família. Prashant será o meu mestre. E a primeira aula é hoje!