Tão Longe Tão Perto


Série Livro de Receitas – Parte 1. Ressalvas
20/11/2009, 8:01
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Série Livro de Receitas

“B com I do BRIC”

Parte 1: Ressalvas

Com 7h e meia de diferença para o Brasil, quando começo o expediente, tenho conseguido alguns encontros virtuais felizes com minha tia Antonieta Goulart, cuja cabeça nunca pára e cujo corpo só descansa depois das 3 da manhã. Como seu instinto jornalístico foi e sempre será fortíssimo, ela me sugeriu que escrevesse para brasileiros interessados na Índia, misturando as culturas. Pensei no desafio de fazer algo como o “B com I do BRIC”.  Mas preciso ser honesta e expor as ressalvas primeiro:

  1. Seria impossível generalizar para outras regiões da Índia o que acontece aqui no sul, mais especificamente em Bangalore, onde as mais antigas tradições estão no mesmo caldeirão do pensamento feminista, da valorização da ciência e academia, do rock, da pizza Domino’s, do shopping, das empresas de software. Mesmo se o país tivesse congelado no tempo, o estado de Karnataka já teria suas idiossincrasias, sua língua, seu modo de se organizar ou desorganizar diferente de outros estados indianos.
  2. Da mesma forma, seria complicado generalizar o encontro de um(a) brasileiro(a) com a cultura indiana, já que o resultado dependeria também das origens da pessoa, seus valores, sua fase na vida etc.
  3. Os amigos brasileiros que já tinham vindo pra cá foram motivados por algo completamente diferente de mim: vieram para ashrams praticar a meditação, numa viagem profunda de auto-conhecimento e espiritualidade, seguindo a orientação de seus gurus. Tenho muito respeito por escolhas corajosas como essa e acho que um dia vou me aventurar num mergulho pra dentro de mim mesma. Mas atualmente, tenho exercitado a flexibilidade e tolerância numa proposta bem mundana, que inclui trabalho, salário, aluguel, negociação, choques culturais descobertos na intimidade do banheiro, na pronúncia dos nomes, na compra do supermercado, na hora do jantar. Então é só isso que posso oferecer.

Para não reduzir a idéia a um relato do cotidiano, vou tentar me inspirar no que mais me chamou a atenção até o momento – sem dúvida a comida – e apresentar o que se passa como se fosse um livro de receitas, mesmo sabendo que por conta dos itens 1 e 2 não há receita para ninguém. Cada experiência é única.

Então vai funcionar assim: cada item – comunicação, transporte, registro, acomodação etc – terá um post neste blog, indicando o grau de dificuldade, os ingredientes e o modo de preparo. E cada um fica a vontade para testar a receita ou incrementá-la. Bom apetite!



Sabor Caldas Novas
18/11/2009, 14:52
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Você já foi num daqueles clubes/hotéis de Caldas Novas com piscinas de água quente? No começo é legal, principalmente pra nadar de noite, no friozinho. Mas aí o dia amanhece, o sol do Goiás racha na nossa cabeça e a gente começa a notar que de todas as torneiras só sai água quente. Todas. Depois de escovar os dentes, nadar, tomar uma chuveirada na beira da piscina, tomar banho no quarto, a pele já mais enrugada que maracujá de gaveta, começa a bater aquela vontade de encontrar uma cachoeira, uma beira de rio ou qualquer fonte de água de bater o queixo, só pra lembrar como é gostoso mergulhar na água quente de novo.

Acho que o efeito Caldas Novas começa a bater em mim depois de três semanas comendo pimenta no café da manhã, almoço, jantar, salgadinhos, biscoitinhos, molhos, sopas. Juro que isso não é uma reclamação. Não como carne e estou no paraíso vegetariano. Também sou grata porque tenho a oportunidade de provar comida caseira, preparada por D. Uma, dona da pensão. A culinária indiana é muito rica: a variedade de folhas, temperos, tipos de lentilha e outros cereais demandam um glossário ilustrado anexo ao caderno de receita que pretendo começar a preparar. Mas como não estava acostumada, parece que preciso cada vez de mais iogurte para aliviar. O intestino agradece. E a reposição de cálcio também está garantida até a menopausa, já que a gente nunca sabe quando ela vai começar.

Ontem, depois de uma pratada de arroz temperado com limão, amendoim, lentilha, semente de mostarda, cominho e… muita pimenta no café da manhã, achei que tinha sentido um gostinho picante também no café. É na pensão que tenho o café mais forte e mais gostoso. Em todo canto, se serve café com leite, mas na pensão e no escritório o pessoal já sabe que gosto só do café, sem açucar, sem nada, embora achem tudo isso muito estranho.

Minha estratégia com Uma é assim: eu coleciono todos os adjetivos que consigo lembrar para elogiar a comida que ela faz. Sei que não é muito espontâneo, mas é verdadeiro e tem dado certo. No início, ela estava muito desconfiada, dizia não pra tudo o que eu pedia e chegou a me dar bronca porque perdi a hora do jantar. Agora ela amaciou e faz questão de me contar como se prepara cada coisa. Vou anotando tudo, sem saber como escrever os nomes dos pratos em Hindi ou Kannada. Então perguntei o que tinha de diferente naquele café que era muito melhor do que os que eu provei na rua. Pois ela torra e mói o café em casa! Na despensa ela guarda os grãos produzidos pela vizinha de baixo. O gostinho picante provavalmente é da chicória, que costuma ser misturado (ou até substituir) o café por ser muito mais barato, mas também mais saudável, já que é mais um regulador da flora intestinal. Então parece que a culinária indiana, assim como tudo o que pude vivenciar aqui até agora funciona assim: somos apresentados ao extremo, ao radical, pra ver até onde se suporta sentir, para então conhecermos o seu contraponto co-existindo ali naquela proposta de equilíbrio sutil.



Pensão para moças de fino trato
08/11/2009, 15:42
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Almoço de domingo

Quarto das meninas

Daqui a três meses, Sam (Samyuktha, que significa União) assume um compromisso. Ela ainda não sabe quem será o noivo, mas seus pais já separaram o ouro do dote e estão em contato com as famílias amigas em busca de um moço à altura. Ela tem 23 anos, dois a mais que a idade considerada limite para se casar em sua comunidade, próxima a Hampi. Sam é formada em finanças e veio para Bangalore há quase um ano trabalhar na HP, que fica há mais de 20 quilômetros de casa. Mas a empresa banca o táxi, isso não é problema. Seus pais procuram alguém com nível educacional e profissão equivalentes. Este negócio que os opostos se atraem parece não colar por aqui. Antes de se casar, Sam deve voltar a Hampi para dez dias de intensivão com sua mãe. É que faz tempo que ela não cozinha, já que na pensão onde moramos o café da manhã e o jantar já estão inclusos no valor mensal. Aliás, Uma, a dona da pensão, cozinha super bem e procura fazer o gosto de cada uma. Tem usado menos pimenta em consideração a mim e me explica com toda paciência do mundo o modo de preparo de cada alimento. Até agora meu preferido foi o poori (purí), que parece um pastel  frito, servido com batatas ao curry, preparado geralmente aos finais de semana ou feriados.

Pago 6000 rúpias por mês por um quarto só pra mim. Quando divido os preços daqui por 27 para chegar ao valor aproximado em reais, tudo parece de graça, mas tenho que me lembrar que agora meu salário também será na moeda local. É tudo muito simples no bangalô de Bangalore. Bem mais do que na minha vidinha de classe média em Brasília ou mesmo no alojamento estudantil de Londres. Faz todo sentido viver de forma simples, mas a adaptaçao mais difícil é com algo bem cotidiano – o banheiro, que fica no mesmo terraço onde está meu quarto, mantendo a tradição do vaso embutido no chão (já tinha visto em beira de estrada) e banho de cuia, combinado com meia hora de antecedência pra dar tempo da água esquentar. Paguei mais 100 rúpias para ter direito à segunda torneirada quente no fim do dia. Como disse Julieta, amiga que passou três meses na Ásia, o banho de cuia é educativo pra gente ver que precisa de pouca água. Mas aqueles lindos cabelões de Iracema das indianas requerem dois baldes no mínimo. Os banheiros públicos de shoppings ou restaurantes também me pregaram uma peça. A maioria tem o vaso ocidental, mas dingobel, nada de papel, só chuveirinho ou torneira com baldinho. Minha colega indiana contou que quando morou nos EUA ela é que teve dificuldade para se adaptar pois é a água que dá sensação de limpeza. E com roupas de algodão, tudo seca rápido.

Mas essas dificuldades são totalmente esquecidas na hora da refeição, quando fico totalmente entretida na conversa com Sam, Sujatha, Goura e Rashmi, meninas de 23 a 28 anos que vieram de outras cidades para trabalhar. Elas me ensinam algumas palavras em Kannada, o idioma local, fazem perguntas sobre o Brasil, falam sobre seus planos e traduzem o que Priya quer dizer. Ela é uma menina tímida que trabalha na casa, como um daqueles casos clássicos de trabalho infantil doméstico que a gente tanto vê no Brasil. Veio do estado de Tamil Nadu com George e Uma, os donos da pensão, e só fala Tamil, a língua daquela região. Não tem mãe, o pai é motorista e vive viajando. Ela tem um problema de audição e não se dá com a madrasta, então o pai prefere que ela fique aqui. Parece ter 11 anos. Uma disse que ela tem 19. Então, fazendo a média imagino que tenha uns 14 ou 15. Priya ficou muito preocupada porque eu tenho cabelo de menino, mas falei que a vantagem é que meu banho é mais rápido e econômico. As outras meninas falam pelo menos três idiomas: inglês e hindi, ensinados na escola, e kannada, o idioma de Karnataka, estado de Bangalore. Mas acabam aprendendo também a língua do lugar de origem dos seus pais e de seus amigos mais próximos.

Sam parece não ter dramas sobre seu futuro casamento arranjado. De fato, há casos bem sucedidos, em que as pessoas aprendem a se respeitar e se amar. Mas Goura coleciona algumas histórias menos felizes, como a de uma prima médica estudiosa e dedicada cujo marido (da mesma profissão) não aguentou o complexo de inferioridade e começou a maltratá-la, inclusive com violência física. Hoje divorciada e com uma filha, ela continua muito bem profissionalmente, mas o coração ficou congelado. A própria Goura não tem muita certeza se quer se casar. Ela é arquiteta, tem 28 anos, e já rejeitou uma proposta porque o pretendente era divorciado. “Se sou de primeira mão, porque devo aceitar alguém de segunda?”, disse. O problema é que se ela não se casar, empata a futura vida matrimonial da irmã mais nova, hoje com 19 anos, que só estará disponível depois que a primogênita  se arranjar. Já Sujatha parece viver o meio termo. Foi ela quem escolheu seu futuro marido, que conheceu na Inglaterra, durante um curso de software. Ele é cristão e vai aproveitar a vinda para o Natal para apresentar sua noiva hindu para a família. Ela está contando os dias para preparar os dois casamentos – um em cada religião.

As meninas sabem que, como ocidental, minhas escolhas são bem mais flexíveis e menos impactantes na vida do restante da família. A pergunta mais pessoal que me fizeram foi minha idade, depois de uma aposta entre elas pra tentar adivinhar. Claro que o fato de ter 34 sem marido nem filhos gera um abismo entre nós, mas sigo observando sem juízo de valor. Seria muito precipitado arriscar qualquer comparação sobre o grau de liberdade e de respeito à mulher. A diferença não é tão óbvia assim. No Brasil, o leque de pessoas casáveis é bem restrito para cada grupo social, o que não deixa de ser um pouco arranjado. As festanças de bodas ainda são símbolo de status. E a máxima “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher” não ajuda a conter os índices de violência doméstica. Pelo menos a Lei Maria da Penha, tem conseguido aumentar a quantidade de denúncias e levar os machõezinhos pro xillindró.



3 dias, 2 vacas e 1 milhão de novidades

set 09 Lon-BGL 048Depois de três dias em território indiano, num percurso restrito a casa-trabalho-casa, seria muito arriscado expor qualquer tentativa de compreensão sobre a cultura local. No entanto, peço desculpa aos especialistas para jogar as primeiras impressões de forma leiga e tão caótica quanto o trânsito daqui. Sei que corro o risco de escrever bobagem, mas não quero perder a oportunidade de registrar um pouco do milhão de informações que recebo por minuto, o que me dá a sensação de que já cheguei há tempos, mesmo com todas as gafes e improvisos típicos de quem está em terra estrangeira tendo feito o dever de casa pela metade. É, só estudei um pouquinho antes de vir. Provavelmente tudo mudará na medida em que for me familiarizando. Mas em três dias, já deu tempo de:

  1. Ter a sensação que o que vejo se parece com algumas coisas que conheço, mas ao mesmo tempo não se parece com nada do que já tinha visto até então. Confuso? Isso é só o começo.
  2. Confirmar que Bangalore tem um quê de Estados Unidos, com sua vasta indústria tecnológica, shoppings e supermercados. Só que não é uma reprodução do modelo americano, é uma outra versão de produção e de consumo. Com dinheiro, é possível ter acesso a tudo o que se tem nas grandes metrópoles, mas parece que a classe média tem mais o que fazer do que comprar desenfreadamente. Pode ser que eu esteja enganada, mais pra frente vou saber.
  3. Ver todo mundo comendo com a mão – apenas a direita, usada para coisas nobres, enquanto a esquerda é usada para a limpeza (eles não acham papel higiênico higiênico pois espalha a sujeira, preferem um banhinho localizado) . Comer com a mão não tem nada a ver com status, como é no Brasil em relação ao jeito de manejar os talheres. Gente com mestrado, doutorado, donas de casa, estudantes, trabalhadores, todo mundo come do mesmo jeito.
  4. Experimentar o trânsito mais sem lei da história – e como pedestre. Como não tem lei, a regra é esperar os motoristas notarem sua existência e se jogar como uma vaca na pista pra atravessar a rua. Parece não ter perigo. Os motoristas vão buzinar muito de qualquer jeito. Vi todo mundo fazendo assim e adotei o modelo bovino. Tem dado certo.  As faixas que dividem as pistas no asfalto não representam nada. É carro, moto, auto (aquele táxi-triciclo também conhecido como tuctuc), bicicleta, caminhão, ônibus, um tentando ultrapassar o outro por qualquer lado. O motorista leva a mão na marcha e outra na buzina. A cada piscada de olho, um “pêpé”. E como ex-colônia da Inglaterra a Índia herdou a mão inglesa: volante do lado direito.
  5. Ver duas vacas na rua. Uma na avenida movimentada. Era um bezerro adolescente, quase virando vaca.  Os motoristas não pararam e a pobre acelerou o passo. A outra comendo lixo amontoado. Mas não era pra ser sagrada? Hoje uma colega fez um comentário que se não gostasse da comida, ia dar pra uma vaca na rua. Então tive a impressão que vaca é igual cachorro vira-lata de rua. Só que cocô de cachorro é bem menor.
  6. Conhecer MUITA gente legal: no trabalho e na pensão. As pessoas são interessantes, interessadas, gentis, receptivas, engraçadas, mas também sabem ser bravas.
  7. Me confundir com os nomes de todas as pessoas legais que conheci: Krittika, Aishwarya, Anupama, que têm significados lindos como Constelação, Prosperidade, Incomparável. Tenho escrito num caderninho que não sai da bolsa, mas preciso marcar qual a sílaba mais forte na pronúncia.
  8. Curtir a dormência na língua provocada pela pimenta, mas jogando muito iogurte por cima pra aliviar. Estou apenas no início do processo, mas não tem escapatória. A comida apimentada começa no café da manhã com o “sambar”, que aqui é um mollho de “dal” (lentilha) triturada, que também costuma ser servido no almoço e no jantar.
  9. Aprender o nome de três pratos típicos que um dia vou saber preparar: idly, masala dosa e o tal do sambar com curds (iogurte).
  10. Não ver NENHUMA mulher mostrando mais do que a canela. Ombros, pernas, bunda, tudo fechado nos sáris ou batas com calça larga. Mas no meio do tecido entrelaçado, um pedaço da barriga fica a mostra, dependendo do movimento. Os homens usam aqueles panos amarrados como fraldões ou calças largas, mas entre eles há muito mais gente com roupas ocidentais: calça e camisa. Antes de vir, encontrei um colega indiano em Londres que me orientou a ser o mais discreta e conservadora possível até sentir o clima do trabalho e outros ambientes que frequento. Depois que vi a mulherada na rua pensei até em começar com uma burca, pra depois ir me despindo aos poucos: mostrando as mãos, o nariz, para quem sabe chegar até o cotovelo. Mesmo no trabalho, não vi ninguém, por exemplo, usando camiseta que deixa os ombros de fora, apesar do calor. Já ia jogando meus vestidinhos no fundo da mala, mas resolvi perguntar pra uma colega pesquisadora dos direitos das mulheres, que me explicou que quanto mais coberta, menos chance de alguém te incomodar na rua. Segundo ela, no centro da cidade, principalmente no fim de semana, o povo solta mais a franga e libera ombrinhos e pernocas pra galera.

Acabo de perceber que a lista está enorme e poderia continuar, mas vou guardar pro próximo texto. O bom de vir pra morar é que dá pra conter a ansiedade. Cada descoberta a seu tempo. Parece muito, mas há bem mais por vir.



Minha novela das oito
02/11/2009, 10:12
Filed under: Minha novela das oito

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Domingo, 01/11. Engraçado ter tanto número 1 na data de hoje. Estou saindo de Londres, Longitude 0° 0′ 0″, e começando a contar o tempo a partir de outras referências, reordenando também minha noção de espaço, estilo de vida, valores. Aparentemente sou uma das sete pessoas ocidentais entre os passageiros que aguardam o vôo da Air India no aeroporto de Heathrow. Depois de mais de quatro horas de atraso, a funcionária (de Sári vermelho) nos informa que vamos finalmente decolar. Daqui a 8h e meia estarei em Bombaim (Mumbai). De lá sigo para Bangalore, onde vou trabalhar na ONG IT for Change, que pesquisa o impacto das novas tecnologias nas mudanças sociais.

Não assisti a novela da Glória Peres e confesso com humildade minha ignorância sobre o país de Gandhi. Até o ano passado a Índia parecia um lugar muito distante, onde minha professora de ioga fez um curso de formação e Mila e Geraldinho encontraram seus gurus. Apesar da excelente produção da novela das oito, tenho minhas dúvidas se ela ajudou na compreensão da cultura oriental ou se reforçou ainda mais a arrogante déia de que vivemos no mundo civilizado à frente do exotismo dos costumes milenares, como se uma linha evolutiva dividisse as sociedades e tradição não pudesse co-existir com o moderno.

Para quem está em Londres, a Ryanair e o eurocentrismo do império parecem encurtar as distâncias entre os cantos do mundo. A Ryanair é a companhia aérea irlandesa com vôos de baixo custo, mas sem conforto. Em setembro, consegui uma passagem por 6 pounds (taxas inclusas) para fazer uma viagem emocionante até a terra dos meus antepassados, no Veneto. Fácil e rápido.

O histórico europeu de imigração – seja para dominar ou buscar melhores condições de vida – parece ter gerado pessoas mais desgarradas, que se lançam no mundo ainda hoje sem medo de perder suas raízes. Por aqui ninguém achou estranho que eu tenha decidido morar tão longe de casa por um tempo. Por outro lado, a presença dos indianos é fortíssima em Londres. Eles têm resignificado ícones britânicos e integrado elementos orientais no cotidiano da cidade, para além de tudo o que foi roubado e exposto no Museu Britânico: ioga, meditação, curry e a pimenta usada sem moderação são alguns exemplos mais óbvios. Achei simbólico que durante a comemoração dos 40 anos da foto do álbum Abbey Road, na frente da gravadora, estava tudo muito sem graça, com aquela multidão atravessando a famosa faixa de pedestres de um lado pro outro, tirando fotos sem parar até que dois indianos salvaram o evento, sacando um violão para levar as baladas dos Beatles e botar todo mundo pra cantar e dançar.

Mas minha ida para a Índia talvez tenha muito mais a ver com a tendência de cooperação sul-sul entre duas ex-colônias constantemente citadas nas aulas de mestrado por suas complexas experiências de desenvolvimento político e econômico. Assim como no Brasil, as contradições socioeconômicas da Índia não são fáceis de entender. É o pais das castas, mas garantiu eleições democráticas sem voto de cabresto. É conhecida por sua pobreza extrema, mas integra o chamado BRIC, termo referente aos países emergentes economicamente, junto com Brasil, Rússia e China. Agricultores são explorados nas plantações de chá, mas a indústria tecnológica cresce a passos largos, criando empregos, gerando renda e inovação.

Não tenho dúvida dos ganhos pessoais que esta experiência vai trazer. Já no avião, traço o plano ideal enquanto devoro o arroz doce da sobremesa: me concentrar no presente, observar a novidade, aceitar o estranhamento e domar a maior tecnologia brasileira que vou levando na bagagem – saudade.