Tão Longe Tão Perto


Kebab ao Kibeb*
21/10/2009, 2:33
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*Devo dar o crédito do trocadilho a minha mãe, que não conhecia os kebabs, mas só “os que bebem” de Coromandel.

marathon-1_300x300_crop_leAo sair de qualquer estação de metrô de Londres, uma das primeiras coisas que se avista é o letreiro verde e a sereia, logomarca da Starbucks Café. Não é ilusão de ótica: praticamente a cada quarteirão há uma loja idêntica a outra, com mesinhas de madeira, ambiente a meia luz, um cheiro de café delicioso, biscoitinhos duros de quebrar restauração e internet paga.

Só os turcos conseguiram ser mais onipresentes do que a rede americana, espalhando por toda a cidade balcões de venda de kebab, um amontoado de carne assada num espeto giratório preso na vertical conhecido no Brasil como churrasco grego. As lascas são cortadas e embrulhadas no pão árabe com húmus e uma saladinha. Vegetarianos têm vez, substituindo a carne por falafel (bolinho de grão de bico). Hambúrguer e batata frita também estão no menu, geralmente escrito a giz no quadro negro.

Em um improvável plebiscito para eleger um entre os dois empreendimentos mais numerosos da cidade, meu voto certamente seria dos turcos. Mesmo sabendo que eles nunca ouviram falar de vigilância sanitária. Pelo menos ali a gente sabe o que vai encontrar. Tomei birra da Starbucks desde que soube que eles tentaram impedir o governo da Etiópia de patentear três tipos de grãos de café de alta qualidade produzidos exclusivamente pelos etíopes e comercializados pela multinacional, contradizendo sua pretensa política de promoção do Comércio Justo (Fair Trade), que garante padrões sociais e ambientais equilibrados na cadeia produtiva, principalmente remunerando adequadamente os produtores locais. Um assimétrico cabo de guerra pela patente começou em 2005 até que em 2007 foi feito um acordo. Mas aí o café já tinha esfriado.

E a simpatia pelo sanduba árabe aumentou na semana passada, depois que minha amiga carioca Beta Novis me levou à Marathon Kebab House, em Camden. Na parte da frente, tudo o que se espera de um kebab: vendedores imigrantes trabalham até as 3h da manhã, mandando gordura pra dentro dos estômagos mais resistentes, como a cruz vermelha dos bebuns, para ajuda a amenizar a ressaca do dia seguinte.

Mas em Camden sempre acontece muito mais do que se espera. A região concilia o ar bucólico de canais, bosques e casarões antigos com a confusão de uma vida noturna elétrica e uma vida diurna capaz de congregar nas feiras e mercados comida asiática, mexicana, vegetariana, artesãos e o que sobrou dos punks e alternativos, que em tempos de reprodutibilidade ganharam um toque de Chinatown em versão excêntrica, tamanha a repetição de camisetas com as mesmas piadinhas sarcásticas, cabelos coloridos, piercings e tatoos.

Na Marathon, casa de kebab preferida de Amy Winehouse (não confundir com Rehab), um petisco ou lata de cerveja dá acesso ao fundo da loja, numa espécie de passagem secreta para um ambiente com som ao vivo de jazz ou rock, dependendo do dia da semana. O público reúne figuras tão diversas como um senhor imóvel diante de seu copo, que parece ter fugido do Madame Tussauds, um rapaz alto e barrigudinho vestido de odalisca; duas gordinhas com vestido de oncinha que teimam em roubar o microfone do cantor, entre outros curiosos e curiosidades. No fim da noite que a gente insiste em esticar para adiar o aperto das despedidas, tudo faz sentido. Levamos nossa amiga até o ônibus noturno, felizes por termos encontrado um ambiente democrático aberto até nossas últimas forças. E a qualidade da música parece ser o menos importante.

Mais sobre o caso Starbucks versus Etiópia em (somente em inglês):

The New Black Magazine

Oxfam

Opiniões diversas sobre o Marathon Kebab House em (somente em inglês):

View London

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Tecnologia da gamela
05/10/2009, 14:54
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pao de queijoSalve o skype , engenhoca  criada pelo sueco Niklas Zennström,  santo padroeiro dos viajantes, que nos permite chegar tão perto de quem está longe, sem pagar um centavo pro Bill Gates, nem ser rastreado pelo onipresente google. Agradecendo as bençãos concedidas pela tecnologia VoiP, é preciso reconhecer, entretanto, o insubstituível poder da aviação, que em menos de 12 horas me levou direto pra casa, pra sentir o que ainda não foi possível alcançar por meio eletrônico  – o cheiro do pão de queijo, que nesses dez dias só parou de sair do forno quando o fogão estava ocupado com outras delícias, devoradas a mil “megabites” por segundo.

Desde pequena fico impressionada com a velocidade com que minha mãe prepara o pão de queijo.  Minha madrinha também herdou esse gene. Antes mesmo do polvilho escaldado esfriar, uma das mãos segura firme a gamela enquanto a outra colore a massa de amarelo com ovos de galinha capira, em movimentos firmes, rápidos, até que uma avalanche de queijo curado trazido de Coromandel, ralado antecipadamente, invade a mistura. A receita oficial é a mesma – e não está escrita em lugar nenhum – mas há alguma variação nos procedimentos entre as duas que ainda não descobri. Difícil é decidir qual o melhor resultado.

Na minha casa, a mineiridade cala a pieguice da saudade e as panelas é que dão o recado carinhoso, num afago exagerado, maternal, intenso, mas tão leve e espontâneo que não há sinais de trabalho ou fadiga. Pra temperar a comida: sal, pimenta, noz moscada, comentários políticos, princípios feministas e muitos causos.  Boa parte das histórias a beira do fogão está cifrada num caderno de receitas despedaçado e totalmente manchado que encontrei na última gaveta do armário da cozinha. Fórmulas de doces, salgados e até uma novena milagrosa  estão registradas com a letra da mãe, da avó e de algumas vizinhas de outros tempos. As páginas mais desgastadas denunciam um seleto grupo das mais pedidas. Mas essa lista continua em aberto, num processo dinâmico que se renova a cada domingo. A poucas horas do portão de embarque, vou planejando uma maneira de conhecer novos temperos que pretendo apresentar via skype para contribuir para a reforma dessa relíquia culinária.