Tão Longe Tão Perto


Quantas palavras?
17/08/2009, 20:05
Filed under: Quantas palavras?

more-than-wordsNo meu mundinho de estudante, ninguém mais diz Oi, tudo bem? quando encontra um(a) amigo(a). A pergunta do momento é “Quantas palavras?”, seguida daquela caretinha apreensiva. O desespero é o mesmo se a pessoa já escreveu menos de 5 mil ou mais de 12 mil. Daqui a duas semanas, todo mundo já terá entregue suas 10 mil palavras (incluindo notas de rodapé) que compõem a dissertação.

A neurose coletiva é tão previsível e ao mesmo tempo tão difícil de evitar. Pior é que o clima de despedida está deixando todo mundo tão nostálgico e melancólico que as reuniõezinhas que deveriam servir para relaxar ficam ganham um quê de velório, em que todo mundo só fala bem do morto, já com saudade até dos dias cinzas e do sanduíche com gripe suína do Wright’s, a lanchonete “Torre de Babel” da escola, em que o humor da atendente espanhola atinge graus tão negativos quanto a higiene do cozinheiro romeno.

Não tive coragem de contar minhas palavras ainda. Sim, deixei pra última hora, como sempre. Sim, prometo não escrever mais no blogue até terminar o trabalho. Sim, estou empolgada com minha pesquisa, mas acho que a demora para escrever se explica por um certo apego, uma tentativa de estender um pouco mais esta fase, enquanto  procuro resposta para a pergunta coletiva da próxima etapa: e agora?

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Conversa matinal
16/08/2009, 23:44
Filed under: Conversa Matinal | Tags: , ,

BikeSaindo do alojamento com trovão azul, a bicicleta que Robert me emprestou por um ano e que me garante os minutos mais prazerosos do dia: 1. colete amarelão pra não ter medo de ser atropelada pelo ônibus de dois andares – ok; 2. óculos escuros pra não ter medo de atropelar os mosquitos e polens – ok; 3. capacete azul combinando com a bike pra proteger os neurônios que me restam numa possível queda – ok; 4. meias pra fora, segurando a barra da calça pra não prender na corrente nem sujar de graxa – ok; 5. livros na mochila, mochila na cestinha – ok.

Hoje ainda não choveu. Beleza, em 17 minutos estarei na biblioteca. Antes da primeira pedalada, ainda na porta de casa, uma vozinha baixa me pede licença. Vejo um senhor de 70 e poucos anos; terno verde escuro de lãzinha, calça marrom, lenço branco na lapela, boina estilo escocês: “Esta casa ainda abriga mulheres sem-lar?”. Confiro novamente meu tosco modelito, buscando a motivação daquela pergunta. Mas já tinha observado que aqui o respeito pelo outro não depende da apresentação pessoal. “Não, senhor, agora são estudantes que moram aqui. Mas ouvi mesmo dizer que a última vítima de Jack tinha um quarto neste lugar”.

O papo rendeu uns 20 minutos, ouvi detalhes que ainda não conhecia sobre o crime e sobre o arquivamento do caso pela polícia. Mr. Terry então me perguntou de onde eu era e cantarolou Aquarela do Brasil quando ouviu minha resposta. Contou algumas histórias antigas do bairro e perguntou ser eu era católica (acho que por causa do nome de inspiração bíblica. Ele não deve conhecer a personagem de Jorge Amado) ou se, pelo menos, eu tinha fé.

Num exercício de auto-afirmação em que ultrapasso carrões, taxis, motos e ônibus enormes, segui firme com trovão azul pelo asfalto, reforçando minha fé no dialogo intergeracional, intercultural e interdisciplinar que procuro praticar aqui, estudando meu país. Abre a cortina do passado, tira a mãe preta do cerrado, bota o rei congo no congado e tenha um bom dia, Mr. Terry.



Bebida é pint, comida é pasto!

Pára tudo que eu atravessei os Alpes pra mudar o rumo dessa prosa e por os pratos na mesa.Ariel - TV Rádio Clube de Goiânia - Rede Tupi - 1964 6

Difficoltà: Media

Cottura: 15 min

Preparazione: 30 min

E os ingredientes?  Farinha de grão de bico, água, azeite e sal. Mas só isso? Vou arriscar! Não consigo esquecer daquela farinata, uma espécie de crepe bem fininho, que decolou do forno a lenha e aterrissou quentinha, crocante e saborosa na nossa mesa em Sestri, na Liguria, Itália. Dizem que ela foi inventada por soldados romanos que precisavam de um alimento simples, nutritivo e de preparo rápido. O “fast food” deles era assim: misturavam água com farinha de grão de bico e depois cozinhavam ao sol, usando o escudo como panela.

Dois mil anos depois, a panquequinha dourada coroou um final de semana especial, com direito a bienal de arte, praia (de pedrinha, mas com sol de 40 graus) e conversas filosóficas deliciosamente intermináveis com velhos e novos amigos, que agüentaram meu “italianês” pacientemente.

Me esforcei pra lembrar tudo o que minha indisciplina me permitiu aprender desde que meu pai iniciou um trabalho apaixonado de costurar os pedacinhos de uma história de família cujos personagens – oriundos das pequenas cidades de Badia Polesine e Breda di Piave,  no Veneto – povoavam nossos almoços, festas, Natais, viagens de carro…

Aprender o italiano era requisito básico nesse processo. Então, quando a gente era criança (vou entregar), ele estudava na frente pra depois dar aula pros quatro filhos, usando como base o Curso de Idiomas Globo.  Só percebi que nosso professor também não sabia falar italiano naquela época (hoje ele é fluente) porque quando não dava tempo de adiantar o ponto, ele “revisava” a lição anterior. Nessa toada, fizemos a “prima lezione” umas dez vezes, até decorar o diálogo da Senhora Fabris com  o marido que embarcava num trem: “Ecco il treno parte: arrivederci, adio, buon viaggio!”.

De lá pra cá, a história tem se mantido cada vez mais viva num roteiro narrado com a voz de locutor do Ariel, “lábios de mel”, como escreviam na parede as meninas do Colégio das Irmãs de Araguari (Ele trabalhou como radiojornalista e âncora de TV nos anos 60 em Araguari e Goiânia).

De alguma forma acho que a narrativa se renova nessa breve visita à Itália, embora ainda não tenha ido pra terra dos antepassados. Quero  voltar com calma, mas sem a pretensão de conseguir entender todas as contradições de um povo tão interessante que só não aprendeu ainda a fritar seu indigesto chefe de estado.

Por enquanto, me restrinjo às maravilhas daquele oásis gastronômico, que ajudou a salvar quem vem se alimentando de pint, comida gratuita do Hare Krishna e do que consigo produzir nas incontroláveis chapas elétricas do fogão do alojamento. Tá, prometo não chutar cachorro morto e não falar mal do tradicional fish and chips (peixe frito com batata), que se come com vinagre por aqui. Ops, falei.

PS: Sei que estou ignorando a reforma ortográfica, mas me comprometo a estudar pra seguir as novas regras no próximo texto.