Tão Longe Tão Perto


Encontro das águas

Casarão colonial - Cascalho RicoHenry voltou! Depois de um final de semana misterioso, a carteirinha apreendida, alguns cartazes com “Procura-se” no hall do elevador e um apelo em portunhol pedindo ajuda à equipe da limpeza, os funcionários da moradia estudantil conseguiram localizá-lo. Não faço idéia de onde estava, mas estou aliviada por recuperar minha identidade, essencial para usar a biblioteca, e por evitar o desembolso de 88 pounds. Agora vou cumprir a promessa que fiz à madrinha Carmélia e agradecer.

Como bem lembrou a Tia Eta, na minha família, quando perdemos alguma coisa importante, pedimos ajuda à Tia Carmélia, madrinha da minha mãe. Ela era irmã da minha avó Lucinha. Infelizmente não cheguei a conhecê-la, pois morreu cedo, vítima de um câncer de útero que, dizem, pode ter sido motivado pelo desgosto sofrido depois que o pai reprovou seu pretendente e proibiu seu casamento.

Cada mulher da família, principalmente das duas gerações anteriores à minha, tem uma história forte e emocionante, marcada por uma maneira peculiar de enfrentar o rigor da tradição patriarcal mineira. A história de Carmélia é simultaneamente breve e eterna. Como não se casou com Raimundo, dedicou a vida à família, mas nunca deixou de ser vaidosa. Adorava cozinhar, era extremamente bondosa, tinha papel importante na organização da festa de São João de Cascalho Rico e estava sempre elegantemente vestida e de salto alto, mesmo dentro de casa. Ela morreu em 1954 aos 40 anos, em Araguari, para onde a família Porto se mudou, num tempo em que não havia tanta medicação para aliviar as dores da doença, principalmente no interior de Minas.

Hoje consultei as bases familiares para entender como Tia Carmélia superou São Longuinho na arte de encontrar as coisas. Diz o Tio Babi que logo após a morte dela, Dona Marucha foi pro Rio de Janeiro com uma perua (carro com bagageiro) e teve o veículo roubado. Lembrando do sofrimento da amiga, ela pediu à sua alma que iluminasse os caminhos e acabou encontrando o carro!

Nesta família tem de tudo – dos que não acreditam em nada aos que não duvidam de nada. Eu costumo alternar entre as duas opções, mas como dizem que em acidente de avião não existe ateu, acho que todo mundo já pegou com a alma da Tia Carmélia na hora do desespero. Lembro-me de alguns casos clássicos, como o dia em que meu pai perdeu a carteira com todos os documentos, talões de cheque, cartões e dinheiro enquanto passávamos as férias em Rio das Ostras, no Rio de Janeiro, na década de 80. Ele já tinha anunciado a perda até na rádio da cidade, quando um trabalhador bateu na porta de casa porque a placa da caravan de Brasília que estava na garagem batia com a do documento do carro guardado na carteira que ele tinha encontrado e devolvia, intacta.

Hoje, andando ao longo do Tamisa, contei pros meus amigos, ávidos por notícias de Henry, histórias nascidas à beira do Alto Paranaíba, que atravessaram o oceano pra iluminar meus caminhos por aqui.



O misterioso desaparecimento de Henry

henryDez entre dez famílias inglesas contam com a ajuda de Henry para a limpeza de seus carpetes, que costumam cobrir não só o chão, mas também as paredes, muitas vezes até nos banheiros. Sorridente como Wilson – a bola de vôlei do filme O Náufrago – Henry é campeão de vendas desde o seu lançamento em 1980. Reconhecido por sua resistência, eficácia e economia, Henry é equipamento indispensável também nas escolas, hospitais e… no meu alojamento estudantil.

A gerência da moradia disponibiliza três aspiradores vermelhinhos para os 630 estudantes. No dia da faxina (cuja freqüência varia de acordo com a tolerância de cada um, o que, cá pra nós, costuma ser bem flexível), a gente vai até a recepção, entrega a carteirinha de estudante em troca do Henry número 1, 2 ou 3. Finalizada a limpeza, voltamos lá embaixo pra entregar o aspirador e pegar a carteirinha de volta.

Como tenho rinite alérgica desde pequena, Henry é meu companheiro constante na luta contra os ácaros. Nesta semana, ele me ajudou a limpar também o quarto de um colega que viajou e gentilmente me emprestou o aposento pra receber a ilustre visita de um casal de amigos que mora em Paris. Quando já estava no hall do elevador para devolvê-lo à recepção, tive que voltar ao quarto para me livrar de umas sacolas que carregava e acabei deixando-o sozinho por alguns minutos. Na volta, eis que Henry não estava mais lá! Corri todo o andar parando de porta em porta, ouvido ligado em busca do ronco do aspirador… nada! Desci com a esperança dele já ter sido devolvido à recepção… nada! E ainda tive que ouvir que a responsabilidade era minha, é propriedade do alojamento, bla, bla, bla, e que minha carteirinha não poderia ser devolvida!

Desde então, tenho perguntado sobre Henry pra todos os que encontro na esperança de que ele será devolvido espontaneamente, mas os guardas sempre respondem: “no news” (“nenhuma notícia”). O que fazer? Espalhar cartazes? Oferecer recompensa? Rezar pra São Longuinho?



Vou na janelinha
20/06/2009, 18:27
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BRI002

As olheiras são bem evidentes. Com o fim das provas, todo mundo está abatido e querendo usar as últimas forças pra beber até apagar tudo o que havia memorizado pros exames. O clima estressante invadiu todos os espaços. Biblioteca lotada, gente levando até travesseiro pra garantir o lugar de estudo e aquela energia pesada espalhando-se pelo carpete na mesma velocidade em que os ácaros se multiplicam. Na residência estudantil, ansiedade total: gente arrancando os cabelos das sobrancelhas, tendinites, dores de estômago, insônia, falta de ar e uma sensação de estar na iminência de ser atropelado por um ônibus de dois andares.

Não é novidade que a eficácia das provas como método de avaliação vem sendo questionada por educadores de todos os cantos. Mas em nome da tradição e como uma forma de evitar o plágio, uma das mais conceituadas escolas de ciências sociais britânicas continua apostando que pressão = qualidade.

Acordando do pesadelo, a tensão vai sendo substituída pela nostalgia das despedidas e por uma certa pressa de planejar o que ninguém sabe ao certo como vai ser. Pego o ônibus e procuro lugar lá no segundo andar, na janelinha da frente, pra tentar enxergar além do dia de hoje. Enquanto isso, sobem as vendas das pints nos pubs londrinos.



Fogo da discórdia
16/06/2009, 2:21
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Incêndio 1666

Vivo em Londres. “London? Yes, London. You know: fish, chips, cup ‘o tea, bad food, worse weather, Mary fucking Poppins… London” (Diálogo do filme Snatch, traduzido toscamente como: Londres? É, Londres, sabe: peixe com fritas, chá, comida ruim, clima pior ainda e a porra da Mary Poppins… Londres!). Com essa fama, tratei de requisitar acesso à cozinha na residência estudantil. Por isso, pago um pouco mais, mas garanto comidinhas mais saudáveis e gostosas do que as do bandejão. Não que meus dotes culinários sejam lá essas coisas, mas em terra de cego… É até covardia ter passado tanto tempo observando minha mãe preparar o prato preferido de cada um dos 20 que almoçam lá todo domingo. Resultado: qualquer bolinho batido à mão faz o maior sucesso.

Enquanto não tenho cacife pra provar as iguarias de Jamie Oliver ou do temido chef Gordon Ramsay, sigo acreditando que o melhor da culinária local é produzido na Cozinha N° 3 do 6° andar do meu alojamento.

Nicola garante o Parmiggiano Reggiano de primeira e uma conversa ácida sobre política. Ele capricha nos adjetivos, mas todo xingamento parece insuficiente diante da performance do premiê italiano.

Gaia é doce como o tiramissu que ela prometeu me passar a receita e estoca a geladeira comunitária com o legítimo pesto genovese preparado por sua avó.

David é um canadense que redime o pecado de usar catchup no macarrão com a sua simpatia.

Moetia veio do Taiti pra acompanhar o namorado norueguês que ela conheceu quando estudava na Austrália. Eu sempre tenho a sorte de estar por perto quando ela prepara crepe com nutella.

Tem também a Radca, uma estudante indiana de PhD em economia, que não perde muito tempo na cozinha, mas de vez em quando bate um papo; e a Lilly, uma inglesa que só usa o microondas pra esquentar feijão e sopa em lata. E tantos amigos (brasileiro, colombiano, português, alemão, nepalês, romena, búlgara…) que não têm acesso à cozinha, mas vêm pra tomar um café, celebrar o início e fim de cada semestre, usar o forno pra esquentar uma pizza, conversar, rir um pouco e disfarçar a saudade que cada um sente do tempero de casa.

Só que ultimamente, a cozinha tem nos feito colecionar inimigos. Alguns estudantes mais estressados começaram a ligar para a recepção, reclamando do barulho ou do risco de acionamento dos detectores de fumaça, extremamente sensíveis em todos os prédios londrinos, talvez por trauma do Grande Incêndio de Londres em 1666, que, aliás, começou em uma padaria…

Querem nos fazer obedecer às regras: “Respeitem os outros usuários. Convidados não são permitidos”, diz o cartaz, ignorando qualquer possibilidade de consenso sobre a presença dos amigos.

“Mantenha esta porta SEMPRE fechada”, informa outro cartaz, para onde apontou o dedinho da chinesa CDF que chegou disfarçada de fantasma da ópera, com metade do rosto coberto por uma máscara para a pele e saiu indignada quando percebeu que sugeria um verdadeiro atentado, nos trancando naquele cubículo sem janela ou qualquer ventilação.

Ontem foi a vez do subgerente nos explicar o que teimamos em não compreender: “Vocês não estão em casa. Esta cozinha é pra cozinhar, mas não pra cozinhaaaar. Entenderam?”