Tão Longe Tão Perto


Vida de inseto
27/05/2009, 2:28
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bugOntem foi a primeira vez que vi um inseto em Londres.  Não, ainda não visitei o Museu de História Natural, foi no meu quarto! Uma espécie de aranha voadora subiu até o 7º andar e se enfiou pelo pequeno vão da janela, que aqui só abre uma fresta lá em cima. E agora não há jeito de ensinar o bicho a escapar, já tentei levá-lo até o lugar por onde entrou várias vezes, mas ele se assusta, voa pra dentro, o danado. Então desde ontem ele mora aqui. Confesso que na primeira noite fiquei com um pouquinho de medo de acordar com zum zum na minha cara, mas ele encostou em algum canto e apagou. Acordei aflita pensando que ele poderia não ter resistido ao aquecedor, que deixa o ambiente extremamente ressecado, mas ele estava lá, aquele ponto de exclamação preto na parede, patas compridas com os joelhos dobrados.

Não é novidade que poluição e biodiversidade não combinam. E Londres é conhecida pelo smog – mistura de smoke (fumaça) com fog (neblina), um fenômeno resultante de muitas reações químicas que acontecem simultaneamente quando os níveis de concentração de ozônio ultrapassam muito os padrões. Nos anos 50, várias cidades industrializadas sofreram com o smog causado pela poluição. Em Londres, os níveis de enxofre e fuligem aumentaram tanto que, concentrados em uma massa de ar, causaram a morte de 4.000 pessoas em poucos dias. Mesmo no início do século 20, ainda no período vitoriano, há sinais de smog por aqui. E isso parece ter sido registrado nas paisagens impressionistas que Claude Monet pintou do Parlamento, observado do terraço do segundo andar do Hospital St. Thomas. É sério, tem um grupo de especialistas analisando as obras para definir o nível de poluição naquele período.

Mas como uma amiga que já morou aqui bem observou, a primavera chegou a toda, melhorando a temperatura, os humores e… a vida dos insetos. Sim, porque embora pareça uma aranha meu novo companheiro é um inseto: tem 6 patas, corpo dividido em cabeça, tórax e abdômen (malhador), 1 par de antenas, não possui quelíceras (aquilo que a aranha tem do lado da boca pra apanhar a presa, ufa!) e possui mandíbula (mas aqui no quarto não tem nada pra comer). Inseto pode ou não ter asa. Ele tem. Ou ela. Como não sei o sexo, vou chamar de It (isso, objeto indefinido, coisa). E se It for menina, será que vou tratá-la de forma diferente (ô coisinha tão bonitinha do pai)?

Imagine se a gente nascesse sendo chamado de It até que definíssemos o nosso papel no mundo. Que nada, muito antes de nascer, um(a) doutor(a) já diz qual é a cor da roupa que a gente vai ganhar. Tente escapar, não dá. Qual a primeira coisa que se pergunta pra uma grávida? Alguns pais ficam tão agoniados pra saber logo o sexo do bebê que fazem um exame caríssimo de DNA antes dos três meses de gestação. A partir daí, está definida a relação que a mãe, o pai e todo mundo estabelece com a criança. A maneira como falam com ela, o que esperam dela, o que reforçam, o que reprimem. E quem revela a verdade sobre nós é a ciência. Estamos acostumados a dizer que é uma diferença natural, biológica, e assim explicar o papel do homem e da mulher no mundo. Mas até que ponto as categorias de homem e mulher são resultados de uma performance iniciada antes mesmo do nascimento, reforçando o que é entendido como natural?

P.S. 1: A questão sobre sexo/gênero não caiu na prova, para surpresa de todos. Ainda teria muito mais para falar, mas o texto está ficando muito grande e fui avisada que só as mulheres lêem esses assuntos até o final!

P.S. 2: O que faço com pobre It? Ele/ela já deve estar faminto(a). Se eu abro a porta, não haverá chances de chegar até o térreo. Alguns colegas me sugeriram um inseticídio, mas não tive coragem nem quando o/a vi pela primeira vez, ainda mais agora.

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Prova de Amor
22/05/2009, 19:09
Filed under: Prova de Amor

blog 2 imageNa adrenalina da primeira vez, não me sentia preparada, mas o jeito era encarar sem medo três horas de suor que estavam por vir. Tentei memorizar os passos mais importantes até o minuto anterior para garantir ao menos a performance básica. “Sexo, parentesco e gênero” foi o tema da primeira prova do mestrado. A matéria foi interessante do começo ao fim, mas foi estudando na carreira pra prova que percebi como foi bom ter lido tanta coisa sobre a gente, como amamos e nos relacionamos. De alguma forma, as aulas deram continuidade aos debates dos almoços familiares de domingo, conversas e pensamento que povoavam meu golzinho enquanto cruzava o eixo até chegar ao fim da Asa Norte.

Só que a minha sala de aula era bem mais diversa que minha família, que por sorte minha já abriga diferentes estilos, credos, estados civis, posicionamentos políticos e ideológicos, garantindo acaloradas discussões entre as garfadas nas delícias que minha mãe prepara.

Só pra dar uma idéia de quem são meus colegas, vou citar alguns: uma mulher inglesa que divide seu tempo entre o mestrado e seus cinco filhos (outro dia, ela foi interrompida no grupo de estudos por um telefonema da escola porque o de 8 anos teimava em ficar pendurado na janela da sala de aula como estratégia pra ser mandado pra casa); uma doce iraniana que deve ter uns 20 e poucos anos, esconde os cabelos com lenços coloridos e está sempre acompanhada por um barbudão enquanto estuda na biblioteca; uma paquistanesa com os olhos muito maquiados e um cabelo de Iracema , que resolveu estudar antropologia para ter uma visão mais holística da vida. Ela já está com o dote garantido, mas comentou que depois do mestrado ficará mais complicado conseguir um noivo à altura; uma simpática indiana que me conta sobre as contradições de um sistema de castas que se transforma na vida pública, gerando mais oportunidades políticas e econômicas, mas se mantém na vida privada, reproduzindo em casa as tradições alimentares e a maneira como se define quem serão seus/suas companheiros(as) e como celebram essas uniões. Há também um psicólogo búlgaro que estudou sobre o suicídio, uma inglesa que morou no Quênia, uma islandesa que estudou antropologia nos EUA, uma chinesa andrógina.

Pois um dos temas mais discutidos na aula foi justamente o assunto onipresente nas revistas femininas, nas conversas das amigas a partir dos 30 anos, o que move a indústria de bolos, docinhos e buffets, é discutido nos divãs, cartórios, igrejas, é ritualizado com a troca de alianças e grandes festas, o cimento e o tijolo usado na construção da sociedade: o casamento.

Até que ponto somos livres para escolher se casamos ou não, e com quem? Casamentos com primos cruzados, tão comuns tanto nas tradicionais famílias inglesas da era vitoriana como nas sociedades consideradas primitivas pelos mesmos ingleses, indicavam de forma explícita não apenas quem estava proibido como potencial parceiro(a), mas também a que grupo pertencia o(a) noivo(a) mais apropriado(a). Desde então, ficou claro que quando falamos em casamento, estamos tratando da aliança entre dois grupos, clans, famílias, não da aliança entre duas pessoas (quem nunca ligou pra ex-sogra pra justificar a “devolução da mercadoria”?).  Lévi-Strauss foi além e disse que a aliança entre os grupos acontece por meio da troca de bens, direitos, obrigações e… mulheres. As mulheres não seriam, portanto, agentes nessa negociação,  mas objetos – os mais preciosos objetos que o clan poderia oferecer, já que elas não apenas simbolizam a união, mas a constituem, e geram os filhos que garantirão a continuação daquela linhagem.

E a polêmica esquentou mesmo quando fomos apresentados aos textos que comparam o casamento heterosexual “por amor” com os casamentos arranjados, mostrando que eles podem não ser tão distintos assim. Madhu Kishwar foi a autora mais enfática. Ela rebatizou o casamento por amor como casamento “auto-arranjado”, e mostrou as suas desvantagens, já que a mulher é responsável por traçar sozinha, sem a ajuda dos seus familiares, as estratégias para caçar um marido e para manter outras longe dele, se submetendo a algumas humilhações e torturas (ela não cita, mas poderíamos exemplificar: lipo, cilicone e afins) para aumentarem as suas chances no mercado das “casáveis”.

Apesar de radicalizar, trazendo apenas exemplos negativos de casamentos ocidentais para fazer valer o seu argumento (o que poderia ser contra-argumentado por exemplos de casamentos legais, que contam com o apoio da família dos dois lados), a pesquisadora indiana trouxe alguns pontos interessantes: nos dois tipos de casamento, pesam os mesmos fatores: desejo por sexo regularmente, segurança financeira, status social e o desejo de ter filhos. E no ocidente, a tendência não é que os casamentos aconteçam entre grupos da mesma classe social, origem, formação… casta?

No final, ela arrisca uma receita que pode determinar o destino da mulher no casamento: 1. a independência financeira  (bem que minha mãe dizia que o melhor marido é a profissão!); 2. a disposição do marido em assumir as responsabilidades de ter uma família (mas todo o debate não se resume à definição de quais seriam essas responsabilidades? Acho que cada um acha que é uma coisa, ninguém fala nada supondo que o outro já sabe, e aí…); a receptividade da família do marido; o respeito entre as famílias envolvidas no contrato; possíveis restrições sociais, familiares e comunitárias em relação ao comportamento masculino; a disponibilidade (ou não) de outras mulheres para o homem depois ele que cagou na cabeça de sua esposa; o apoio dos seus pais. Qualquer semelhança com o teste da Marie Claire é mera coincidência!

P.S.: pedi ajuda à alma do Malinowski, que fundou o curso de antropologia da minha escola, para me iluminar na prova, mas o resultado só sai em julho. Pelo que entendi até agora, na antropologia, assim como na vida fora dos textos, longas observações sobre o comportamento humano resultam em conclusões que vêm em forma de mais perguntas.



A revanche dos claptomaníacos
15/05/2009, 1:06
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dr1014_eric_clapton_c753347_1203811723Naquela tarde de 1990 fui a pé até a 2001 do Conjunto Nacional pra comprar o ingresso do Diogo pro show do Eric Clapton no Nilson Nelson. Tinha 15 anos e no dia seguinte eu descolaria a grana com meu pai pra comprar o meu, mas aí já era tarde demais. Esgotados. E na Gabriela Discos? Nada. Me consolei pensando que o Diogo merecia mais que eu pois ele era guitarrista, estava até deixando o cabelo crescer há um ano e eu nunca passei dos dois acordes de RPM. Até os 12, quando fazia aula de violão, eu achava que Paulo Ricardo era roqueiro e pedi pro professor me ensinar a única música que não sei tocar até hoje.

Ouvi Clapton pela primeira vez na casa dos meus primos, que me apresentaram muitos outros sons, entre otras cositas más, incluindo o filme que sempre associei com ele, apesar de ter sido inspirado no Robert Johnson: A Encruzilhada, em que Ralph Macchio (de Karatê Kid, cadê ele?) é levado até o lugar onde o bluesman fez um pacto com o demo. (Duelo de guitarras com Steve Vai).

She don’t lie, she don’t lie não fazia sentido nas aulas da Cultura Inglesa, mas foi tema de algumas conversas no gramadão do Sigma. Era apologia à Cocaína? Parece que o Clapton teria dito que a letra na verdade era anti-droga (If you wanna get down, down on the ground; cocaine), mas pouca gente sabia a história do bluesman J. J. Cale, que escreveu e gravou a música no ano em que eu nasci, pra tentar argumentar algo mais consistente.

O fato é que perdi o show e tive que amargar o silêncio no recreio do dia seguinte, quando todo mundo comentava o virtuosismo do mestre Clapton, que deu uma aula pra galera. Realmente, aluno de guitarra era o que não faltava naquela escola. Num churrasco dois anos depois, a idéia era fazer uma Jam, mas ficou meio inviável, pois apareceram uns 13 guitarristas (Robert, Diogo, Tales…), 1 baixista (quem era? A Krishna também tocava baixo, mas só sozinha porque era tímida) e uns 3 bateristas (meu primo, Karine, não lembro mais).

Eis que 19 anos depois, consegui a chance da reparação: show do Eric Clapton na próxima quarta-feira, no Royal Albert Hall, em Londres (acústica perfeita), com direito a recreio no dia seguinte na LSE pra me fartar nos comentários. E ainda tenho dois ingressos extras pra levar mais gente, pois meu namorado adiou a viagem pra Londres pra que eu pudesse estudar mais. E meu amigo que iria comigo vai ter que se fantasiar de garçom pra um jantar Black Tie de trabalho. Pelo tempo que já se passou desde que anunciei que tenho os ingressos disponíveis sem ninguém se manifestar, estou desconfiada que vou ter que ligar pro Brasil pra contar minhas impressões depois do show. Meus colegas têm em média dez anos a menos que eu. Eles nunca ouviram o chiado dos bolachões, nem gravaram fita-cassete pra namorada. Quem conhecia Eric Clapton me perguntou: “mas ele ainda tá vivo?”, desavisados do pacto.