Tão Longe Tão Perto


24/7
02/07/2016, 0:09
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Sexta à noite, a cidade ferve. Segunda não foi diferente. Ebulição 24/7. A Time Out tem uns 300 eventos gratuitos ao meu redor. Outros 2.000 se desembolsar uns dólares, só aqui no Brooklyn. Shows, peças, bares, restaurantes, telescópios para ver as estrelas, meditação, yoga, feiras, cultos religiosos, nada escapa da megaprodução na terra do entretenimento.

Às vésperas do Dia da Independência, me esforço para me libertar da FoMO – Fear of Missing Out. Pavor de, no nanosegundo do piscar, perder o ritmo da cidade que não dorme. Deve existir um grupo de apoio estilo AA para essa doença contemporânea das grandes cidades. Uma colega confessou que, às vezes, anuncia aos amigos que vai em três lugares ao mesmo tempo para despistar, mas fica quietinha no escuro do seu quarto.

Em meus 4 finais de semana, foram 5 shows inesquecíveis, 3 parques indescritíveis, 2 desfiles performáticos, temperos de 5 continentes e 4 amigos brasileiros que passaram por aqui de férias. No trabalho, o inglês carregado de 15 sotaques, relatórios de 14 países, despedida com bollywood, apresentação de 12 projetos. No espelho do elevador, ajeita-se o sári, o terno, o vestido, o qípáo. Para voltar para a segunda casa da minha temporada, aprendi 4 novas rotas, experimentei 5 linhas de metrô, atropelei 15 mil pessoas fingindo estar mais apressada que todas e fui expulsa do ônibus na Primeira Avenida, desatenta para o tíquete que devia ter impresso na parada. Divagação é crime inafiançável em Nova Iorque, mas o inspetor foi simpático. Me livrou da multa, mas não do mico de ser a única desavisada do pedaço.

Ainda não tive coragem de fazer a lista do que não posso perder. Hoje só quero ser barata morta, amanhã volto a ser barata tonta.



A Outra Margem
20/03/2016, 0:55
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A_Outra_Margem

Arte: Mariana Carpanezzi

“Bom mesmo é o livro que quando a gente acaba de ler fica querendo ser grande amigo do autor, para se poder telefonar para ele toda vez que der vontade”*. O maluco do Holden Caulfield sacou logo essa espécie de mágica: a gente mergulha na história de um jeito que ela se estende do papel para a nossa vida. Assim, o livro não morre na última página. E a gente também se sente mais vivo por ter visto e sentido o que não viu nem sentiu.

Quem inventou a história original torna-se, então, interlocutor em um diálogo que gera outras narrativas sobre as quais o autor não tem o menor controle. Nem se quisesse, esse cara que nunca recebe os telefonemas imaginários do personagem de Salinger, poderia influenciar o que viria a ser feito da sua história, maculada desde a primeira leitura. Caulfield, esse adolescente anti-hipocrisia que nos habita e aos milhões de leitores do Apanhador no campo de centeio, escancara os segredos do pacto autor-leitor, muitas vezes esquecido tamanho o número de intermediadores entre esses dois sujeitos.

Para radicalizar esse encontro, às vezes tenso, outras mais amigável, grupos de escritores, ilustradores e editores investem na autopublicação, abrindo mão dos atravessadores, da estética, da distribuição em gôndolas alugadas e todo um modus-operandi de uma indústria que mantém cada um no seu lugar.

No final de 2013, ao lançar a pimentinha “Depois das Monções – relato de uma temporada na Índia” pelo Selo Longe, nesse esquema faça você mesmo, mas com a cumplicidade de velhos Caulfields que integram ou apoiam o Selo, jamais poderia imaginar que a solidão mais radical que vivi do outro lado do mundo me proporcionaria encontros tão verdadeiros. De repente, eu não era mais a única estrangeira a não mostrar a barriga em sáris coloridos nas ruas de Jayanagar. Estavam comigo no terracinho do Mr. Babu outros viajantes analfabetos nos códigos dos pujas, tão incapazes quanto eu de decifrar os mistérios do Ramayana. Essas pessoas fizeram sua viagem particular, mas nos encontrávamos aqui, acolá entre escalas e conexões. Algumas viajantes, principalmente mulheres, entraram em contato comigo por email e skype, prestes a embarcar ou recém-chegadas. Enquanto isso, eu tentava juntar os pedaços do ano mais intenso que havia vivido para ver se cabiam de volta no quadradinho do Goiás. Mas eram tantas peças com arestas irreparáveis que jamais seria possível encaixá-las nos eixos. Coletivizar uma pequena parte da história, até então só minha, em formato de livreto vermelho, foi fundamental para conseguir trocar, resignificar e dar sentido para sensações que me atropelavam sem piedade.

Mais de 20 iniciativas desse movimento de publicação independente (de Brasília e outras praças) estarão no melhor café da cidade, daqui a pouco, para a primeira edição d’A Outra Margem, feira de livros independentes. Nos vemos lá!

A Outra Margem, feira de livros independentes – 1ª Edição
Domingo, dia 20•03•16, de 13h às 19h, no Ernesto Cafés Especiais (115 sul)

Programação:

14h00 – Bate-papo com o autor Wélcio de Toledo
14h30 – Bate-papo com Ana Luiza Flauzina, autora do livro Utopias de Nós Desenhadas a Sós
15h00 – Workshop de Pequenos Escritores com Carolina Nogueira, autora dos livros A História de Você e A Rua de Todo Mundo
15h30 – Bate-papo e lançamento da coleção Aqui Tem Feiras, de Aqui Em Bsb
16h00 – Bate-papo com autores e ilustradores do selo Longe
16h30 – Bate-papo com Conceição Freitas, da Banca da Conceição
17h00 – Bate-papo/coquetel de lançamento com autores e ilustradores do livro Róbi.
18h00 – Lançamento da edição 5 da revista Traços: Bate-papo com a Porta-Voz da Cultura Maria Aparecida e declamações poéticas de Cris Sobral

Participantes:

Selo Longe
BRADO Negro
Isca Conteúdo e Projetos Culturais
Livro Paúra
Subversos – Livro de Wélcio de Toledo
Revista Traços
Mil Folhas do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB)

A Bolha Editora
Lote 42
Aqui em BSB
DENTE
Extraterrestre
LTG
Lovelove6
MÊS
Piqui
Heron Prado
Gurulino
Luda Lima
ARTEliana Carneiro
Banca da Conceição
Bendito Brasil
Patrícia Baikal
Palavras de Bandeja

*Trecho do livro “O apanhador no campo de centeio”, de J. D. Salinger



Umidade Relativa*
27/12/2015, 22:48
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Dirceu_Maués

Foto de Dirceu Maués

Brunoooooo! Só mais meia hora!”, gritou da janela, com a assertividade de todas as mães. Em poucos minutos, recomeçaria a negociata pelo prazo do toque de recolher, repetido toda noite no fim da novela. O ritual começou aos seis anos de idade, quando conseguiu convencer a mãe de que já tinha maturidade e amigos suficientes para descer sem os pais.

Ficou combinado, então, que não sairia do campo de visão do quinto andar, que incluía praticamente tudo o que importava: o futebol na entrequadra, a pista de bicicross e o parquinho de madeira. Nada foi dito sobre a casa da avó do Ricardo, vulgo “fábrica de bolos de chocolate”.

Talvez fosse melhor omitir esse item no contrato inicial, sob risco de estar proibida a expedição secreta via passarela subterrânea rumo às quatrocentas. Esse era só mais um entre tantos casos em que se cumpriu a profecia do urbanista Lúcio Costa, que determinou que os blocos residenciais do plano piloto jamais ultrapassariam seis andares para que a voz materna estivesse sempre ao pé do ouvido da criança: “O almoço tá na meeeeesa!”.

Victor, ciclista sem rodinha desde os cinco anos, faria a ronda para avisar se o pitbull do segundo andar circulava entre as paineiras. Ninguém jamais esqueceu a cena do pardal decapitado na boca do cão, o que motivou pesadelos coletivos do bloco A ao H.

Quando o cachorro não aparecia, dava tempo de jogar três partidas até a mãe gritar para subir. Assim que terminava a escola, começava a convocação para o jogo do dia seguinte. De manhã, portas e janelas fechadas até terminar o dever de casa, quando, então, Bruno estava liberado para descer. E assim aconteceu todos os dias, dos seis aos 12 anos de idade. Lá embaixo, a vida nunca tinha sido tão superquadra. O céu cabia inteiro nos pulmões, a vista alcançava até o lago e parecia dotar a meninada de superpoderes.

Bruno, Victor, Ricardo e pelo menos outras quinze crianças estudavam na mesma escola e moravam no mesmo bloco praticamente desde que nasceram. Os pais se conheceram no Banco Central, quando decidiram trocar Minas, Rio e Ceará por uma vida estável como servidores públicos na capital do País. Na mistura de sotaques e temperos cresceu uma geração de brasilienses contando do 2 ao 16, o que já deixou muita gente perdida na maioria das cidades brasileiras em que as ruas têm nomes.

Os horários ficavam mais elásticos e os pais se revezavam para acudir em caso de fome, sede, contusão ou pequenos desentendimentos. Com a chegada dos primos do interior de muitos dos vizinhos o time passava a ter jogador reserva, árbitro e comentarista. Lá de cima ficava mais difícil diferenciar as cabeças suadas e os irmãos mais velhos inventavam assovios exclusivos para chamar o clã para as refeições.

Bruno, até então exímio goleiro, começou a comer um frango atrás do outro. Seu Alex, o porteiro, já tinha reparado que ele passou a descer sem luvas, se posicionava na lateral da trave e adiava a subida, mendigando um possível “oi” da Clarice, entre uma coreografia e outra. Ela passava a tarde no pilotis com a prima Joana, dublando as rainhas do pop americano.

Estavam muito ocupadas para prestar atenção em qualquer movimento além dos quadris, até que um dia, depois de quase cem dias sem chuva, as cigarras já estouravam suas cascas e os ouvidos das Asas Norte a Sul, e, então, os primeiros pingos limparam o suor do futebol e mudaram o humor da 102. Como a primavera sempre pega os românticos de surpresa, aquela chuva de setembro antecipou um gol, interrompeu a novela e arrebatou um amor.

A louca do 206 foi a primeira a descer, ligando no meio das escadas para contar a novidade ao namorado imaginário. O metaleiro do 103 pôs um samba na agulha e começou a dançar. A senhora do 505 levou o poodle para brincar com o pitbull em projetos de poças d’água. E Bruno e Clarice riam daquela situação improvável, sem a menor ideia de que passariam juntos outros vinte anos de seca e de chuva, alternando as duas únicas estações que conheciam, até que seus filhos estivessem um dia lá embaixo, explorando a deliciosa sensação de autonomia interrompida pelo previsível grito da janela: “Só mais meia hora”!

1 é 3 e 2 é 5

— Bijuuuuuuu. Da janela, João encomendou: “Seu Manoel, separa dois pra mim que tô descendo!!!”. Tinha economizado o dinheiro do lanche já sabendo que encontraria melhor investimento do que a coxinha gordurosa. Duro foi resistir ao churros da kombi estacionada na saída da escola, mas na última semana de aula, o transporte escolar o resgatou antes da gula. Resultado: final de semana sem doce de leite grudado na mochila e trocados sobrando no bolso do agasalho.

Naquela manhã de sábado, João estava sozinho em casa. O pai, Bruno, tinha viajado com os amigos para uma pescaria em Paracatu. A mãe, Clarice, tinha tentado convocá-lo para acompanhá-la ao supermercado, mas nem a vontade de se perder de propósito só para ouvir o locutor das promoções relâmpago anunciar “Senhora Clarice, seu filho João, de 11 anos, te espera na sessão de doces” foi suficiente para tirá-lo da frente do playstation. Ele ouviu o sininho do Seu Manoel tilintando lá para as bandas do bloco I. Pausou o jogo, catou o dinheiro do lanche no cesto de roupa suja, desceu correndo dois degraus de cada vez.

Já estava com a boca na bandeja do Seu Manoel quando ouviu a porta bater. No bolso: só dinheiro amassado. Mão na cabeça, uma engolida mais seca e espessa até olhar para cima e ver a velha do 206, como sempre, na janela. Ela levaria facilmente a notícia de um possível choro mais longe do que farelo de biju ao vento.

Era o primeiro dia de férias e quase todos os amigos da quadra já tinham viajado. Até Seu Alex estava de recesso. No lugar dele ficou um porteiro de cara tão amarrada que o bom dia agitava na boca, mas não conseguia escapar. O melhor a fazer seria puxar papo com Seu Manoel até que a mãe voltasse. Se conheciam desde que ele dividia o sinal da L2 sul com o vendedor de balões metalizados.

Toda sexta, na saída da escola, quase todos os carros enfileirados para fazer o retorno, inclusive o de Clarice, levavam o biju do Seu Manoel para a sobremesa. Aqueles tubinhos secos derreteram na boca de muitos brasilienses. Seu Manoel já não tem mais saúde para ficar embaixo do sol de segunda a sexta. Aos 70 anos, ele agora só trabalha aos sábados. Acorda cedo e pega o ônibus de Ceilândia para o plano, onde circula embaixo dos blocos, mostrando a dentadura para a criançada, que sorri de volta com a boca recheada.

Compra efetuada, mastigadas crocantes, Seu Manoel agradeceu e foi se retirando, para o desespero de João, que ficou meio sem assunto, depois de cinco perguntas sobre as vendas naquele sábado. “Como sempre, meu filho. Tenho minha clientela fiel. Daqui vou andando até a 16 e de lá pego o ônibus de volta para Ceilândia”. Antes que o vendedor respirasse, João emendou: “Posso ir com o senhor”?

A mãe morreu no parto da caçula. Seu Manoel e dois irmãos vieram com o tio para Brasília. As quatro meninas e o bebê ficaram com o pai, que acabou se casando com a irmã da falecida.

Já com a lata semivazia na altura da 114, Seu Manoel catou umas dez mangas para levar para os netos. Descascando uma madurinha com canivete, contou para João que quem prepara o biju é Dona Cecília, sua esposa há 40 anos. Eles se conheceram na cantina do aeroporto de Brasília. Ela cozinheira, ele atendente. Ela começou a prestar atenção nele quando soube que Juscelino fez careta porque Manoel esqueceu o açúcar do café do cliente mais importante de Brasília. “Depois disso, a vida nunca mais perdeu o doce”.

No fim da W3, João pegou o ônibus com Seu Manoel, que recomendou que ele passasse por baixo da roleta e sentasse logo na primeira cadeira. “Chegando em casa, a gente liga pra sua mãe”, disse Seu Manoel, saltitando com o solavanco da partida rumo ao Setor O.

Fora do eixo

No sábado, o oxigênio parecia voltar a circular fora dos carros. Uma das únicas praças com pipoqueiro da cidade estava lotada. Na frente da torre de TV, 50 noivos refrescavam-se à beira da fonte de águas coloridas minutos antes do casamento coletivo.

As largas vias do eixo estavam tão livres que seria possível navegá-la num cruzeiro rodoviário até as cidades satélites. Na guinada rumo ao Setor de Indústrias Gráficas, João devolveu o adeus a JK, que acenava lá de cima. Seu Manoel arrancou um riso do menino: “Aceita um cafezinho, presidente?”

A cada parada, embarcavam de três a quatro mulheres, banho recém-tomado nos apartamentos do Sudoeste, Lúcio Costa, Vicente Pires, prontíssimas para o final de semana. A esta altura, seu Manoel cochilava, cabeça encostada no vidro, até que, na Praça do Relógio, em Taguatinga, ele acordou com o perfume de uma senhora que cruzou a roleta toda vestida de vermelho.

Os olhares se cruzaram e o que parecia um sonho morto há tantos anos teimou em acontecer na cidade dos encontros. Em silêncio, ele se levantou. Firmou o corpo para não perder o equilíbrio e a envolveu num abraço aguardado há 40 anos, desde que ele visitou a família em Pernambuco pela última vez e deixou com a irmã caçula a esperança de recomeçar a vida na capital.

Dez anos mais nova, ela já não se lembrava mais do rosto do irmão, quando ele fez a primeira visita à família, aos 18 anos. Nessa primeira visita, a afinidade entre Manoel e a irmã mais nova foi imediata. Ainda menina, ela era a mais interessada pelas histórias do planalto central. Já casado, Manoel voltou a Alagoinha e reencontrou a irmã, ainda mais desejosa de partir. Mas nos anos seguintes, vieram filhos e netos, um novo endereço e ele acabou não dando mais notícias para a família pernambucana.

Mesmo assim, Francisca veio para Brasília. Como cabelereira, garantiu o primeiro aluguel em uma kit em Taguatinga. Suas mãos ganharam a cabeça e o coração de um manauara, com quem se casou. Nos dez anos em que vivia no Distrito Federal, não ficou um só dia sem pensar no irmão, sem encontrá-lo. Quem poderia adivinhar que uma ida à Feira de Ceilândia traria outros sabores familiares perdidos?

Na casa de Seu Manoel, Dona Cecília recebeu as visitas com uma rodada de tapioca. E João brincou de bete com as crianças na rua até sua mãe chegar. Na estrutural, trazendo João de volta para casa, o pôr do sol explodia de vermelho e Clarice pensava como aquele sábado tinha mudado sua relação com a cidade onde cresceu.

*Esta crônica integra o livro Mobilidade em 1 Instante, com fotografias e histórias de dez cidades onde a ONG EMBARQ Brasil, agora chamada WRI Brasil Cidades Sustentáveis, atuou nos últimos dez anos no País, buscando soluções de transporte sustentável.



O gato subiu no telhado
12/12/2015, 23:29
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mulher-gatoTodo dia, lá pelas 6 e pouco da tarde, Dona Zefa desce na penúltima parada da W3, na altura da 15 sul, e caminha até as quatrocentos via passagem subterrânea. Naquela sexta, a gente acabou alinhando o passo na calçada paralela aos fundos da comercial quando eu saía do Ernesto pra pegar o possante no estacionamento do Bloco C. Seguíamos na convencional cumplicidade silenciosa das superquadras até que a marcha foi interrompida pelo voo de dois tigres negros em nossa frente. Eles saltaram a cerca viva e finalizaram a performance com um mortal acrobático sincronizado na grama, acompanhado do miau mais selvagem que já ouvi.

 

“Tão bonitos esses bichos”, comentou Dona Zefa, admirada, enquanto eu ainda recuperava o fôlego.

 

“Acho que a família cresceu”, respondi, lembrando da mágica do aparecimento e desaparecimento de gatinhos entre um gole e outro de café, no horizonte de quem passa as tardes embaixo da mangueira mais aconchegante da asa sul. “Você gosta de gato?”

 

“Gosto de bicho. Outro dia, passando por aqui, ouvi um miado lá em cima. Achei estranho, dobrei o pescoço e vi só as orelhinhas”, contou Dona Zefa, apontando para o telhado do Bloco A. “O porteiro me contou que  fazia três dias que o gato estava preso na laje. A partir de então, deixo ração e o porteiro entrega”.

 

E nesse pé estava a história quando Dona Zefa se despediu à beira do eixinho, sem explicar se o bichano usou o elevador ou encarou seis andares de escada. Mas agradeço por ter recheado meus cafés de mistério, imaginando a vida de pequenos anti-heróis, que, entre 11 blocos, driblam a muda aridez do concreto.



Mesa posta
21/02/2014, 9:40
Filed under: Mesa posta

Imagem

Ao contar histórias – reais ou fictícias, curtas ou longas, densas ou leves – perde-se o controle. Um pedaço de papel recheado de memórias e invenções agora segue sem rumo. A porta de casa está aberta para quem quiser entrar, acomodar-se e servir-se de um petisco apimentado, enquanto beberica alguma coisa que pegou da geladeira. Por favor, entenda que ainda estou testando as panelas, portanto, proponho um menu compacto, mas bem temperado, curtido por três anos em simbolismos que só agora proponho organizar minimamente, mas que você tem toda a liberdade para embaralhar de novo. Com um brinde de boas-vindas, agradeço a visita e te convido a viajar por aproximadamente duas horas. O tempo de um voo doméstico.

Por esse período, estamos conectados, compartilhamos o status de viajante. Mas não me engano, não tenho o menor controle sobre suas interpretações ou julgamentos. Fique à vontade. Uma das partes mais saborosas do processo dessa primeira escrita é receber de volta as mais diversas leituras. Todas igualmente interessantes para quem começa a brincar com as palavras: a de quem seguiu de trem, decifrando detalhes quase não ditos ou de quem pegou um avião e vê um recorte da cidade lá de cima, em perspectiva panorâmica.

Na auspiciosa noite de 11/12/13, eu e meus comparsas do selo Longe abrimos a cozinha no Cine Brasília. Apareceu tanta gente interessante que o lançamento tornou-se uma verdadeira Festa de Babete, com aproximadamente mil convidados das mais diversas fases da vida. Agora chegou a hora de pôr a mesa em São Paulo, na não menos cabalística data de 22/2. Com o frio na barriga de quem não sabe bem quem vai aparecer para jantar, arrisco trazer a pimentinha indiana para a matinée da Livraria da Vila (da Fradique). Você é meu convidado de honra.

Lançamento do selo Longe no dia 22/2, de 15h às 18h, na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915)

Livros:

Depois das Monções: relato de uma temporada na Índia, de Gabriela Goulart Mora

Chéri a Paris: um brasileiro na terra do fromage, de Daniel Cariello

Anti-Heróis e Aspirinas, de Yury Hermuche

A Rua de Todo Mundo, de Carol Nogueira

Mais sobre o selo e os livros neste link.



Tão Longe
04/12/2013, 7:16
Filed under: Longe

livros

Uma viagem que se preze deixa marcas. Nunca consegui me recuperar da temporada fora de casa. Tornou-se um vício a sensação de ser a estranha. Talvez esse motivo tenha se combinado às oportunidades ou à falta delas, para me manter longe. Em cinco anos, foram cinco cidades diferentes. Cinco oportunidades para me reinventar e perceber também o que nunca muda, independente do tempero, por mais forte que ele seja.

Quando penso que há algo errado, encontro outros viajantes. Gente que também deixou Brasília, voltou para casa e, de certa forma, continua seguindo viagem. Amigos que seguem atentos às mudanças, desafiam a cidade, se propõem a viver algo diferente, se frustram porque não conseguem, pensam em sair de novo, duvidam.

Há três meses, um desses encontros reuniu quatro velhos amigos na mesma cidade – Brasília. E o brinde se desdobrou na ideia de escrever livros sob o impacto dessa sensação de distância e estranhamento permanente, tão comum aos viajantes.

Longe virou um selo, que carimba quatro livretos produzidos de forma caseira e extremamente coletiva, com o apoio imprescindível dos amigos que vão e dos que permanecem.

Chéri à Paris – Daniel Cariello apresenta 48 crônicas selecionadas entre as quase 300 escritas nos 5 anos em que o autor viveu na capital francesa.

Anti-heróis e Aspirinas – Yury Hermuche faz um retrato nada otimista sobre o mundo contemporâneo e aponta as rachaduras na religião, na política, na publicidade e no cinema para encontrar o mecanismo que faz da realidade uma prisão.

A rua de todo mundo – Carol Nogueira ilustra e escreve um livro infantil, colorido pela diversidade de crianças de vários países.

Depois das monções – E eu resgato a mais forte da minha pequena coleção de viagens para expor rajadas e trovoadas causadas pelas diferenças culturais em uma temporada de nove meses na Índia.

Eles serão lançados juntos, no auspicioso dia 11/12/13, no foyer do Cine Brasília, às 19h, enquanto a telona exibe curta-metragens de cineastas locais que também possuem relação com os temas da noite.

Dia de Folga, de André Carvalheira, retrata um pedreiro fora do seu ambiente de trabalho. Dias de greve, de Adirley Queirós, mostra um grupo de metalúrgicos que descobre uma cidade que já não lhes pertence. Oficina Perdiz, de Marcelo Díaz, expõe a vida de um mecânico que transforma sua oficina em espaço cultural. O cego estrangeiro, de Marcius Barbieri, traz para a tela um sujeito que não vê nada e ouve muito. E a animação O lobisomem e o coronel, de Elvis K. Figueiredo, Ítalo Cajueiro, fala de uma aparição que muda a vida de uma cidade do interior.

Comidas e bebidas do Ernesto Cafés Especiais serão vendidas no local.

Espero você lá!



Música Salva a dor
26/08/2013, 21:54
Filed under: Música salva a dor

ImagemEu adoro adoro adoro ave maria adoro os nomes das ruas, praças e demais logradouros em Salvador.

As placas parecem traduzir toda a angústia, resignação ou deboche com nossas imperfeições no Largo dos Aflitos, Ladeira da Preguiça, Beco da Gasosa, Bairro do Pau Miúdo ou na Graça, para quem sabe um dia alcançar a Rua da Paz.

E as manchetes de jornal não conseguem evitar contradições ou cenas surreais: “Assassinato na Praça da Piedade”, “Atropelamento no Alto do Coqueirinho”, “Janelas serradas na Sete Portas”, “Silêncio no Chame Chame”.

Da janela do busú, ler as placas é como acionar a discoteca mental dos anos 70 e reconhecer de onde vem Beleza Puura, Federação. Beleza Puura, Boca do Rio. E no fim de semana, ver quem é João, que naquele domingo não foi pra lá, pra Ribeira, foi namorar no Farol, iluminando as águas da Bahia. Onde se chega de barco, mãe. Que nem lá  – na Ilha de Maré!

Tudo é chique demais, tudo é muito elegante.