“B com I do BRIC”
Parte 1: Ressalvas
Com 7h e meia de diferença para o Brasil, quando começo o expediente, tenho conseguido alguns encontros virtuais felizes com minha tia Antonieta Goulart, cuja cabeça nunca pára e cujo corpo só descansa depois das 3 da manhã. Como seu instinto jornalístico foi e sempre será fortíssimo, ela me sugeriu que criasse um guia para brasileiros na Índia, misturando as culturas. Pensei no desafio de fazer algo como o “B com I do BRIC”. Hmm… eu topo! Mas preciso ser honesta e expor as ressalvas primeiro:
Para não reduzir a idéia a um relato do cotidiano, vou tentar me inspirar no que mais me chamou a atenção até o momento – sem dúvida a comida – e apresentar o que se passa como se fosse um livro de receitas, mesmo sabendo que por conta dos itens 1 e 2 não há receita para ninguém. Cada experiência é única.
Então vai funcionar assim: cada item – comunicação, transporte, registro, acomodação etc – terá um post neste blog, indicando o grau de dificuldade, os ingredientes e o modo de preparo. E cada um fica a vontade para testar a receita ou incrementá-la. Bom apetite!
Você já foi num daqueles clubes/hotéis de Caldas Novas com piscinas de água quente? No começo é legal, principalmente pra nadar de noite, no friozinho. Mas aí o dia amanhece, o sol do Goiás racha na nossa cabeça e a gente começa a notar que de todas as torneiras só sai água quente. Todas. Depois de escovar os dentes, nadar, tomar uma chuveirada na beira da piscina, tomar banho no quarto, a pele já mais enrugada que maracujá de gaveta, começa a bater aquela vontade de encontrar uma cachoeira, uma beira de rio ou qualquer fonte de água de bater o queixo, só pra lembrar como é gostoso mergulhar na água quente de novo.
Acho que o efeito Caldas Novas começa a bater em mim depois de três semanas comendo pimenta no café da manhã, almoço, jantar, salgadinhos, biscoitinhos, molhos, sopas. Juro que isso não é uma reclamação. Não como carne e estou no paraíso vegetariano. Também sou grata porque tenho a oportunidade de provar comida caseira, preparada por D. Uma, dona da pensão. A culinária indiana é muito rica: a variedade de folhas, temperos, tipos de lentilha e outros cereais demandam um glossário ilustrado anexo ao caderno de receita que pretendo começar a preparar. Mas como não estava acostumada, parece que preciso cada vez de mais iogurte para aliviar. O intestino agradece. E a reposição de cálcio também está garantida até a menopausa, já que a gente nunca sabe quando ela vai começar.
Ontem, depois de uma pratada de arroz temperado com limão, amendoim, lentilha, semente de mostarda, cominho e… muita pimenta no café da manhã, achei que tinha sentido um gostinho picante também no café. É na pensão que tenho o café mais forte e mais gostoso. Em todo canto, se serve café com leite, mas na pensão e no escritório o pessoal já sabe que gosto só do café, sem açucar, sem nada, embora achem tudo isso muito estranho.
Minha estratégia com Uma é assim: eu coleciono todos os adjetivos que consigo lembrar para elogiar a comida que ela faz. Sei que não é muito espontâneo, mas é verdadeiro e tem dado certo. No início, ela estava muito desconfiada, dizia não pra tudo o que eu pedia e chegou a me dar bronca porque perdi a hora do jantar. Agora ela amaciou e faz questão de me contar como se prepara cada coisa. Vou anotando tudo, sem saber como escrever os nomes dos pratos em Hindi ou Kannada. Então perguntei o que tinha de diferente naquele café que era muito melhor do que os que eu provei na rua. Pois ela torra e mói o café em casa! Na despensa ela guarda os grãos produzidos pela vizinha de baixo. O gostinho picante provavalmente é da chicória, que costuma ser misturado (ou até substituir) o café por ser muito mais barato, mas também mais saudável, já que é mais um regulador da flora intestinal. Então parece que a culinária indiana, assim como tudo o que pude vivenciar aqui até agora funciona assim: somos apresentados ao extremo, ao radical, pra ver até onde se suporta sentir, para então conhecermos o seu contraponto co-existindo ali naquela proposta de equilíbrio sutil.

Quarto das meninas
Daqui a três meses, Sam (Samyuktha, que significa União) assume um compromisso. Ela ainda não sabe quem será o noivo, mas seus pais já separaram o ouro do dote e estão em contato com as famílias amigas em busca de um moço à altura. Ela tem 23 anos, dois a mais que a idade considerada limite para se casar em sua comunidade, próxima a Hampi. Sam é formada em finanças e veio para Bangalore há quase um ano trabalhar na HP, que fica há mais de 20 quilômetros de casa. Mas a empresa banca o táxi, isso não é problema. Seus pais procuram alguém com nível educacional e profissão equivalentes. Este negócio que os opostos se atraem parece não colar por aqui. Antes de se casar, Sam deve voltar a Hampi para dez dias de intensivão com sua mãe. É que faz tempo que ela não cozinha, já que na pensão onde moramos o café da manhã e o jantar já estão inclusos no valor mensal. Aliás, Uma, a dona da pensão, cozinha super bem e procura fazer o gosto de cada uma. Tem usado menos pimenta em consideração a mim e me explica com toda paciência do mundo o modo de preparo de cada alimento. Até agora meu preferido foi o poori (purí), que parece um pastel frito, servido com batatas ao curry, preparado geralmente aos finais de semana ou feriados.
Pago 6000 rúpias por mês por um quarto só pra mim. Quando divido os preços daqui por 27 para chegar ao valor aproximado em reais, tudo parece de graça, mas tenho que me lembrar que agora meu salário também será na moeda local. É tudo muito simples no bangalô de Bangalore. Bem mais do que na minha vidinha de classe média em Brasília ou mesmo no alojamento estudantil de Londres. Faz todo sentido viver de forma simples, mas a adaptaçao mais difícil é com algo bem cotidiano – o banheiro, que fica no mesmo terraço onde está meu quarto, mantendo a tradição do vaso embutido no chão (já tinha visto em beira de estrada) e banho de cuia, combinado com meia hora de antecedência pra dar tempo da água esquentar. Paguei mais 100 rúpias para ter direito à segunda torneirada quente no fim do dia. Como disse Julieta, amiga que passou três meses na Ásia, o banho de cuia é educativo pra gente ver que precisa de pouca água. Mas aqueles lindos cabelões de Iracema das indianas requerem dois baldes no mínimo. Os banheiros públicos de shoppings ou restaurantes também me pregaram uma peça. A maioria tem o vaso ocidental, mas dingobel, nada de papel, só chuveirinho ou torneira com baldinho. Minha colega indiana contou que quando morou nos EUA ela é que teve dificuldade para se adaptar pois é a água que dá sensação de limpeza. E com roupas de algodão, tudo seca rápido.
Mas essas dificuldades são totalmente esquecidas na hora da refeição, quando fico totalmente entretida na conversa com Sam, Sujatha, Goura e Rashmi, meninas de 23 a 28 anos que vieram de outras cidades para trabalhar. Elas me ensinam algumas palavras em Kannada, o idioma local, fazem perguntas sobre o Brasil, falam sobre seus planos e traduzem o que Priya quer dizer. Ela é uma menina tímida que trabalha na casa, como um daqueles casos clássicos de trabalho infantil doméstico que a gente tanto vê no Brasil. Veio do estado de Tamil Nadu com George e Uma, os donos da pensão, e só fala Tamil, a língua daquela região. Não tem mãe, o pai é motorista e vive viajando. Ela tem um problema de audição e não se dá com a madrasta, então o pai prefere que ela fique aqui. Parece ter 11 anos. Uma disse que ela tem 19. Então, fazendo a média imagino que tenha uns 14 ou 15. Priya ficou muito preocupada porque eu tenho cabelo de menino, mas falei que a vantagem é que meu banho é mais rápido e econômico. As outras meninas falam pelo menos três idiomas: inglês e hindi, ensinados na escola, e kannada, o idioma de Karnataka, estado de Bangalore. Mas acabam aprendendo também a língua do lugar de origem dos seus pais e de seus amigos mais próximos.
Sam parece não ter dramas sobre seu futuro casamento arranjado. De fato, há casos bem sucedidos, em que as pessoas aprendem a se respeitar e se amar. Mas Goura coleciona algumas histórias menos felizes, como a de uma prima médica estudiosa e dedicada cujo marido (da mesma profissão) não aguentou o complexo de inferioridade e começou a maltratá-la, inclusive com violência física. Hoje divorciada e com uma filha, ela continua muito bem profissionalmente, mas o coração ficou congelado. A própria Goura não tem muita certeza se quer se casar. Ela é arquiteta, tem 28 anos, e já rejeitou uma proposta porque o pretendente era divorciado. “Se sou de primeira mão, porque devo aceitar alguém de segunda?”, disse. O problema é que se ela não se casar, empata a futura vida matrimonial da irmã mais nova, hoje com 19 anos, que só estará disponível depois que a primogênita se arranjar. Já Sujatha parece viver o meio termo. Foi ela quem escolheu seu futuro marido, que conheceu na Inglaterra, durante um curso de software. Ele é cristão e vai aproveitar a vinda para o Natal para apresentar sua noiva hindu para a família. Ela está contando os dias para preparar os dois casamentos – um em cada religião.
As meninas sabem que, como ocidental, minhas escolhas são bem mais flexíveis e menos impactantes na vida do restante da família. A pergunta mais pessoal que me fizeram foi minha idade, depois de uma aposta entre elas pra tentar adivinhar. Claro que o fato de ter 34 sem marido nem filhos gera um abismo entre nós, mas sigo observando sem juízo de valor. Seria muito precipitado arriscar qualquer comparação sobre o grau de liberdade e de respeito à mulher. A diferença não é tão óbvia assim. No Brasil, o leque de pessoas casáveis é bem restrito para cada grupo social, o que não deixa de ser um pouco arranjado. As festanças de bodas ainda são símbolo de status. E a máxima “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher” não ajuda a conter os índices de violência doméstica. Pelo menos a Lei Maria da Penha, tem conseguido aumentar a quantidade de denúncias e levar os machõezinhos pro xillindró.
Depois de três dias em território indiano, num percurso restrito a casa-trabalho-casa, seria muito arriscado expor qualquer tentativa de compreensão sobre a cultura local. No entanto, peço desculpa aos especialistas para jogar as primeiras impressões de forma leiga e tão caótica quanto o trânsito daqui. Sei que corro o risco de escrever bobagem, mas não quero perder a oportunidade de registrar um pouco do milhão de informações que recebo por minuto, o que me dá a sensação de que já cheguei há tempos, mesmo com todas as gafes e improvisos típicos de quem está em terra estrangeira tendo feito o dever de casa pela metade. É, só estudei um pouquinho antes de vir. Provavelmente tudo mudará na medida em que for me familiarizando. Mas em três dias, já deu tempo de:
Acabo de perceber que a lista está enorme e poderia continuar, mas vou guardar pro próximo texto. O bom de vir pra morar é que dá pra conter a ansiedade. Cada descoberta a seu tempo. Parece muito, mas há bem mais por vir.

Domingo, 01/11. Engraçado ter tanto número 1 na data de hoje. Estou saindo de Londres, Longitude 0° 0′ 0″, e começando a contar o tempo a partir de outras referências, reordenando também minha noção de espaço, estilo de vida, valores. Aparentemente sou uma das sete pessoas ocidentais entre os passageiros que aguardam o vôo da Air India no aeroporto de Heathrow. Depois de mais de quatro horas de atraso, a funcionária (de Sári vermelho) nos informa que vamos finalmente decolar. Daqui a 8h e meia estarei em Bombaim (Mumbai). De lá sigo para Bangalore, onde vou trabalhar na ONG IT for Change, que pesquisa o impacto das novas tecnologias nas mudanças sociais.
Não assisti a novela da Glória Peres e confesso com humildade minha ignorância sobre o país de Gandhi. Até o ano passado a Índia parecia um lugar muito distante, onde minha professora de ioga fez um curso de formação e Mila e Geraldinho encontraram seus gurus. Apesar da excelente produção da novela das oito, tenho minhas dúvidas se ela ajudou na compreensão da cultura oriental ou se reforçou ainda mais a arrogante déia de que vivemos no mundo civilizado à frente do exotismo dos costumes milenares, como se uma linha evolutiva dividisse as sociedades e tradição não pudesse co-existir com o moderno.
Para quem está em Londres, a Ryanair e o eurocentrismo do império parecem encurtar as distâncias entre os cantos do mundo. A Ryanair é a companhia aérea irlandesa com vôos de baixo custo, mas sem conforto. Em setembro, consegui uma passagem por 6 pounds (taxas inclusas) para fazer uma viagem emocionante até a terra dos meus antepassados, no Veneto. Fácil e rápido.
O histórico europeu de imigração – seja para dominar ou buscar melhores condições de vida – parece ter gerado pessoas mais desgarradas, que se lançam no mundo ainda hoje sem medo de perder suas raízes. Por aqui ninguém achou estranho que eu tenha decidido morar tão longe de casa por um tempo. Por outro lado, a presença dos indianos é fortíssima em Londres. Eles têm resignificado ícones britânicos e integrado elementos orientais no cotidiano da cidade, para além de tudo o que foi roubado e exposto no Museu Britânico: ioga, meditação, curry e a pimenta usada sem moderação são alguns exemplos mais óbvios. Achei simbólico que durante a comemoração dos 40 anos da foto do álbum Abbey Road, na frente da gravadora, estava tudo muito sem graça, com aquela multidão atravessando a famosa faixa de pedestres de um lado pro outro, tirando fotos sem parar até que dois indianos salvaram o evento, sacando um violão para levar as baladas dos Beatles e botar todo mundo pra cantar e dançar.
Mas minha ida para a Índia talvez tenha muito mais a ver com a tendência de cooperação sul-sul entre duas ex-colônias constantemente citadas nas aulas de mestrado por suas complexas experiências de desenvolvimento político e econômico. Assim como no Brasil, as contradições socioeconômicas da Índia não são fáceis de entender. É o pais das castas, mas garantiu eleições democráticas sem voto de cabresto. É conhecida por sua pobreza extrema, mas integra o chamado BRIC, termo referente aos países emergentes economicamente, junto com Brasil, Rússia e China. Agricultores são explorados nas plantações de chá, mas a indústria tecnológica cresce a passos largos, criando empregos, gerando renda e inovação.
Não tenho dúvida dos ganhos pessoais que esta experiência vai trazer. Já no avião, traço o plano ideal enquanto devoro o arroz doce da sobremesa: me concentrar no presente, observar a novidade, aceitar o estranhamento e domar a maior tecnologia brasileira que vou levando na bagagem – saudade.
*Devo dar o crédito do trocadilho a minha mãe, que não conhecia os kebabs, mas só “os que bebem” de Coromandel.
Ao sair de qualquer estação de metrô de Londres, uma das primeiras coisas que se avista é o letreiro verde e a sereia, logomarca da Starbucks Café. Não é ilusão de ótica: praticamente a cada quarteirão há uma loja idêntica a outra, com mesinhas de madeira, ambiente a meia luz, um cheiro de café delicioso, biscoitinhos duros de quebrar restauração e internet paga.
Só os turcos conseguiram ser mais onipresentes do que a rede americana, espalhando por toda a cidade balcões de venda de kebab, um amontoado de carne assada num espeto giratório preso na vertical conhecido no Brasil como churrasco grego. As lascas são cortadas e embrulhadas no pão árabe com húmus e uma saladinha. Vegetarianos têm vez, substituindo a carne por falafel (bolinho de grão de bico). Hambúrguer e batata frita também estão no menu, geralmente escrito a giz no quadro negro.
Em um improvável plebiscito para eleger um entre os dois empreendimentos mais numerosos da cidade, meu voto certamente seria dos turcos. Mesmo sabendo que eles nunca ouviram falar de vigilância sanitária. Pelo menos ali a gente sabe o que vai encontrar. Tomei birra da Starbucks desde que soube que eles tentaram impedir o governo da Etiópia de patentear três tipos de grãos de café de alta qualidade produzidos exclusivamente pelos etíopes e comercializados pela multinacional, contradizendo sua pretensa política de promoção do Comércio Justo (Fair Trade), que garante padrões sociais e ambientais equilibrados na cadeia produtiva, principalmente remunerando adequadamente os produtores locais. Um assimétrico cabo de guerra pela patente começou em 2005 até que em 2007 foi feito um acordo. Mas aí o café já tinha esfriado.
E a simpatia pelo sanduba árabe aumentou na semana passada, depois que minha amiga carioca Beta Novis me levou à Marathon Kebab House, em Camden. Na parte da frente, tudo o que se espera de um kebab: vendedores imigrantes trabalham até as 3h da manhã, mandando gordura pra dentro dos estômagos mais resistentes, como a cruz vermelha dos bebuns, para ajuda a amenizar a ressaca do dia seguinte.
Mas em Camden sempre acontece muito mais do que se espera. A região concilia o ar bucólico de canais, bosques e casarões antigos com a confusão de uma vida noturna elétrica e uma vida diurna capaz de congregar nas feiras e mercados comida asiática, mexicana, vegetariana, artesãos e o que sobrou dos punks e alternativos, que em tempos de reprodutibilidade ganharam um toque de Chinatown em versão excêntrica, tamanha a repetição de camisetas com as mesmas piadinhas sarcásticas, cabelos coloridos, piercings e tatoos.
Na Marathon, casa de kebab preferida de Amy Winehouse (não confundir com Rehab), um petisco ou lata de cerveja dá acesso ao fundo da loja, numa espécie de passagem secreta para um ambiente com som ao vivo de jazz ou rock, dependendo do dia da semana. O público reúne figuras tão diversas como um senhor imóvel diante de seu copo, que parece ter fugido do Madame Tussauds, um rapaz alto e barrigudinho vestido de odalisca; duas gordinhas com vestido de oncinha que teimam em roubar o microfone do cantor, entre outros curiosos e curiosidades. No fim da noite que a gente insiste em esticar para adiar o aperto das despedidas, tudo faz sentido. Levamos nossa amiga até o ônibus noturno, felizes por termos encontrado um ambiente democrático aberto até nossas últimas forças. E a qualidade da música parece ser o menos importante.
Mais sobre o caso Starbucks versus Etiópia em (somente em inglês):
Opiniões diversas sobre o Marathon Kebab House em (somente em inglês):
Salve o skype , engenhoca criada pelo sueco Niklas Zennström, santo padroeiro dos viajantes, que nos permite chegar tão perto de quem está longe, sem pagar um centavo pro Bill Gates, nem ser rastreado pelo onipresente google. Agradecendo as bençãos concedidas pela tecnologia VoiP, é preciso reconhecer, entretanto, o insubstituível poder da aviação, que em menos de 12 horas me levou direto pra casa, pra sentir o que ainda não foi possível alcançar por meio eletrônico – o cheiro do pão de queijo, que nesses dez dias só parou de sair do forno quando o fogão estava ocupado com outras delícias, devoradas a mil “megabites” por segundo.
Desde pequena fico impressionada com a velocidade com que minha mãe prepara o pão de queijo. Minha madrinha também herdou esse gene. Antes mesmo do polvilho escaldado esfriar, uma das mãos segura firme a gamela enquanto a outra colore a massa de amarelo com ovos de galinha capira, em movimentos firmes, rápidos, até que uma avalanche de queijo curado trazido de Coromandel, ralado antecipadamente, invade a mistura. A receita oficial é a mesma – e não está escrita em lugar nenhum – mas há alguma variação nos procedimentos entre as duas que ainda não descobri. Difícil é decidir qual o melhor resultado.
Na minha casa, a mineiridade cala a pieguice da saudade e as panelas é que dão o recado carinhoso, num afago exagerado, maternal, intenso, mas tão leve e espontâneo que não há sinais de trabalho ou fadiga. Pra temperar a comida: sal, pimenta, noz moscada, comentários políticos, princípios feministas e muitos causos. Boa parte das histórias a beira do fogão está cifrada num caderno de receitas despedaçado e totalmente manchado que encontrei na última gaveta do armário da cozinha. Fórmulas de doces, salgados e até uma novena milagrosa estão registradas com a letra da mãe, da avó e de algumas vizinhas de outros tempos. As páginas mais desgastadas denunciam um seleto grupo das mais pedidas. Mas essa lista continua em aberto, num processo dinâmico que se renova a cada domingo. A poucas horas do portão de embarque, vou planejando uma maneira de conhecer novos temperos que pretendo apresentar via skype para contribuir para a reforma dessa relíquia culinária.
A validade da carteirinha da escola expira no início de outubro e até lá o alojamento se esvazia para a chegada da nova leva de estudantes. Na sala de convivência, uma montanha de objetos para doação: edredons, travesseiros, casacões, luminárias, cabides, pastas, livros, material de papelaria aguardam seus novos donos, que iniciam o ano letivo no próximo mês. Também fui me despedindo de muita coisa até que todos os meus pertences coubessem em duas malas, que espero pesarem menos do que eu.
A sessão do desapego é motivada pela necessidade de carregar no braço todo o patrimônio de volta pra casa ou para um novo endereço temporário. Pensar naquele peso martelando os degraus da estação de metrô escada abaixo e aumentando a coleção de varizes escada acima também ajuda a seguir a risca a regra dos 3 Rs – Reduzir, Reciclar, Reutilizar, máxima dos movimentos ecológicos.
Claro que o valor da libra esterlina também contribui para a política anti-consumo, principalmente depois de um ano sem remuneração financeira, mas com muitos outros valiosos erres: Repensar as perguntas básicas da filosofia (donqueuvim, oncotô, proncovô); Refletir sobre causas e consequências das escolhas; Reaprender a estudar, viver com pouco, achar os limites, esticar os limites, reencontrar os limites; Retomar planos que estavam adormecidos; Renovar a capacidade de conhecer, admirar, se indignar, se assustar, testar, arriscar, se frustrar, enfim, tudo o que acontece também no dia-a-dia da vida familiar, social e profissional, mas de uma forma tão repetitiva e apressada, que a gente fica com a sensação que um ano de afastamento provocou muito mais mudança. Talvez porque o estranhamento nos exija desautomatizar tanta coisa que fica difícil voltar pro mesmo trilho, sem tentar um caminho diferente. O exercício é viciante. 1, 2, 3, lá vou eu.
No meu mundinho de estudante, ninguém mais diz Oi, tudo bem? quando encontra um(a) amigo(a). A pergunta do momento é “Quantas palavras?”, seguida daquela caretinha apreensiva. O desespero é o mesmo se a pessoa já escreveu menos de 5 mil ou mais de 12 mil. Daqui a duas semanas, todo mundo já terá entregue suas 10 mil palavras (incluindo notas de rodapé) que compõem a dissertação.
A neurose coletiva é tão previsível e ao mesmo tempo tão difícil de evitar. Pior é que o clima de despedida está deixando todo mundo tão nostálgico e melancólico que as reuniõezinhas que deveriam servir para relaxar ficam ganham um quê de velório, em que todo mundo só fala bem do morto, já com saudade até dos dias cinzas e do sanduíche com gripe suína do Wright’s, a lanchonete “Torre de Babel” da escola, em que o humor da atendente espanhola atinge graus tão negativos quanto a higiene do cozinheiro romeno.
Não tive coragem de contar minhas palavras ainda. Sim, deixei pra última hora, como sempre. Sim, prometo não escrever mais no blogue até terminar o trabalho. Sim, estou empolgada com minha pesquisa, mas acho que a demora para escrever se explica por um certo apego, uma tentativa de estender um pouco mais esta fase, enquanto procuro resposta para a pergunta coletiva da próxima etapa: e agora?
Saindo do alojamento com trovão azul, a bicicleta que Robert me emprestou por um ano e que me garante os minutos mais prazerosos do dia: 1. colete amarelão pra não ter medo de ser atropelada pelo ônibus de dois andares – ok; 2. óculos escuros pra não ter medo de atropelar os mosquitos e polens – ok; 3. capacete azul combinando com a bike pra proteger os neurônios que me restam numa possível queda – ok; 4. meias pra fora, segurando a barra da calça pra não prender na corrente nem sujar de graxa – ok; 5. livros na mochila, mochila na cestinha – ok.
Hoje ainda não choveu. Beleza, em 17 minutos estarei na biblioteca. Antes da primeira pedalada, ainda na porta de casa, uma vozinha baixa me pede licença. Vejo um senhor de 70 e poucos anos; terno verde escuro de lãzinha, calça marrom, lenço branco na lapela, boina estilo escocês: “Esta casa ainda abriga mulheres sem-lar?”. Confiro novamente meu tosco modelito, buscando a motivação daquela pergunta. Mas já tinha observado que aqui o respeito pelo outro não depende da apresentação pessoal. “Não, senhor, agora são estudantes que moram aqui. Mas ouvi mesmo dizer que a última vítima de Jack tinha um quarto neste lugar”.
O papo rendeu uns 20 minutos, ouvi detalhes que ainda não conhecia sobre o crime e sobre o arquivamento do caso pela polícia. Mr. Terry então me perguntou de onde eu era e cantarolou Aquarela do Brasil quando ouviu minha resposta. Contou algumas histórias antigas do bairro e perguntou ser eu era católica (acho que por causa do nome de inspiração bíblica. Ele não deve conhecer a personagem de Jorge Amado) ou se, pelo menos, eu tinha fé.
Num exercício de auto-afirmação em que ultrapasso carrões, taxis, motos e ônibus enormes, segui firme com trovão azul pelo asfalto, reforçando minha fé no dialogo intergeracional, intercultural e interdisciplinar que procuro praticar aqui, estudando meu país. Abre a cortina do passado, tira a mãe preta do cerrado, bota o rei congo no congado e tenha um bom dia, Mr. Terry.