Piu piu piu piu. Toca a campanhia no domingo. É Shruti, filha adolescente do Mr. Babu. Veio bater papo e contou que a vizinha de baixo, que estava com o maior barrigão, está toda feliz porque deu a luz a um menino. Por aqui, os médicos são orientados a não revelar o sexo da criança durante a gestação para evitar abortos seletivos. Como no clube do Bolinha, nas famílias mais tradicionais, meninas não são bem-vindas. É uma questão de status. Se vierem, serão criadas com muito carinho. Mas o que dá ibope mesmo é ter filho homem, que ainda economiza o ouro do dote.
A vizinha ainda está no hospital e de lá segue pra casa da mãe, onde fica até o dia da cerimônia da escolha do nome do bebê. Só depois volta pra casa da sogra, que mora aqui no predinho construído por Mr. Babu, o senhorio mais cuidadoso do pedaço. Tanto que planejou cada um dos quatro apartamentos segundo o Vaastu, o sistema Hindu de arquitetura e design, usado nos projetos dos templos e resgatado em construções modernas. O Vaastu calcula as proporções dos ambientes com o intuito de proporcionar bem-estar físico, espiritual e potencializar saúde, prosperidade e felicidade pra quem ocupar o espaço. Algo paralelo ao Feng Shui chinês. Shruti acha que o Vaastu pode ter influenciado na defininção do sexo do bebê.
Ser menina por aqui não é das tarefas mais fáceis. Também vim de uma cultura patriarcal que oprime, pressiona, violenta e desvaloriza suas mulheres ora sutil, ora explicitamente. Mas nasci numa geração que flexibiliza a tradição, que herdou muitas conquistas, mas que ainda tem muito o que fazer para diminuir a diferença de valor, remuneração, liberdade e principalmente de poder entre homens e mulheres.
E vim de uma família recheada de mulheres fortes e decididas. E tem particularmente minha mãe, que sempre equilibrou com força e delicadeza a panela e o panelaço, a preparação do pão de queijo e a atuação política, além de muitas outras batalhas femininas bem complicadas. Nos anos 80, lembro de acompanhá-la em reuniões que resultaram na fundação do Conselho dos Direitos da Mulher. E tenho uma imagem dela chegando ensopada, com uma flor no cabelo, da manifestação pelas Diretas Já. Então, a lente do feminismo esteve e continua sempre disponível para desnaturalizar a ordem das coisas e repensar como o mundo pode ficar melhor.
Só que não adianta trazer explicações nem soluções universalizantes pro lado de cá. Cada cultura deve encontrar suas ferramentas pra buscar esse equilíbrio com legitimidade. Moralismos à parte e bem longe, tenho repensado, por exemplo, até que ponto vestir ou despir é que mede o grau de questionamento de valores tradicionais, ao ver “no oriente” mulheres que não tiram o véu para se engajarem num debate questionador e politizado.
Na Índia, o feminino é mais uma das esferas em que o contraditório está tão evidente que nos arrebata e nos desnorteia, assim como acontece em relação à espiritualidade, à condição socioeconômica, à hierarquia, à relação com o meio ambiente… O próprio hinduísmo, berço da tradição deste país, narra o que acontece por meio de deuses e deusas poderosíssimas. Mas adorar as deusas no templo não garante necessariamente respeito à mulher entre quatro paredes. Ou pode garantir um tipo de respeito conservador, já que os hindus são ensinados a “ver em toda mulher a sua mãe”, como me explicou um colega da ioga, que já avisou à namorada que com ela não pode casar. A geração entre 20 e 30 anos já não sabe mais o que dá certo e vive numa panela de pressão: lá dentro, valores tradicionais que exigem, entre outros rituais, o casamento cedo com alguém da mesma casta, formação, religião, comunidade. Os pais têm um papel muito forte para “facilitar” esse processo, com direito a negociações com famílias amigas e muita chantagem emocional. Pela válvula de escape, as meninas e meninos escutam o apito de uma suposta liberdade de escolha, a chance de se envolver por amor e viver um pouco do conto romântico dos musicais de Bollywood. O emprego (muitas vezes na indústria de tecnologia) amplia a fresta que dá acesso ao mundo lá fora, proporciona autonomia e faz com que possam cozinhar os pais por mais tempo até tomarem uma decisão. Na prática, casos de fuga, divórcio, promessas não cumpridas tornam-se cada vez mais frequentes, gerando insegurança, decepção e estigma. Por outro lado, movimentos de resistência buscam transformar a tradição, não para adotar cegamente o modo de vida ocidental, até porque esse aí não contribui muito para uma vida mais harmônica e equilibrada, mas para minimizar o estigma e tentar buscar a felicidade dessas mulheres dentro de sua própria cultura. Um exemplo é a Associação de Mulheres Independentes e Fortes (Association of Single Strong Women), que desde o ano 2000 intervém no âmbito público e privado pelo direito (aposentadoria, trabalho, etc ) e inclusão social das viúvas, separadas e divorciadas, que na Índia somam um total de 36 milhões de mulheres, número equivalente à população do Canadá. Isso porque as estatísticas não incluem as que nunca se casaram ou foram simplesmente abandonadas, sem registros oficiais. O grupo garantiu, por exemplo, que uma viúva participasse sim da cerimônia de casamento do seu filho, de sári colorido e bindi vermelho na testa, a despeito da família, que tentava impedi-la por não considerar auspiciosa sua presença no ritual.
São mulheres fortes que seguem reinterpretando sua tradição em busca de felicidade. Pode estar aí a esperança das novas gerações aprenderem que a resposta pro que é feminino, “termina na hora de recomeçar”*.
*Trechos da música Feminina, da Joyce.
Hipnotizada pelos coqueirais que circundam minha casa e a cada dia mais impressionada com o que significa nascer mulher neste lugar, viajei no que o vozeirão de Dorival Caymmi cantaria em uma improvável convivência com a presença feminina na Índia.
O que é que a indiana tem? Que é que a indiana tem? Tem sári de seda, tem! Tem dote de ouro, tem! A força de um touro, tem! Tem trança nas costas, tem! Tem bata rendada, tem! Cajau no seu olho, tem! Orelha enfeitada, tem! A testa pintada, tem! Trabalha como ninguém. Sempre a esperar seu bem. Aos 16 vai se casar vestida de cetim. Pra sempre, não tem fim. Tradição manda assim. O que é que a indiana tem? Que é que a indiana tem? Espera nascer quem vem. O que tem no ventre, hein? Só vê quem é o neném… Quando escutar seu choro, espera chega ao fim. Se não tem balangandã, vai ser igual a mim. Oi, não é tão ruim. Vou te ensinar, enfim.
Sou estrangeira pela primeira vez. Mentira. Morei um ano em Londres, mas lá todo mundo é estrangeiro, o que torna impossível estar sozinho, mesmo numa sociedade completamente individualista. Agora, além de estar na Índia, não estou na capital. Não é nenhum vilarejo. Bangalore é “O” pólo de informática com aeroporto internacional. Provavelmente as ligações que fiz de Londres quando meu computador deu pau foram atendidas pelo call center daqui. Muita gente vem pra cá trabalhar. De dentro e de fora do país. Claro que tem estrangeiro. Mas ainda não conheci nenhum. Vi alguns nas seis vezes em que fui ao comissariado de polícia até conseguir a permissão de permanência: muitos asiáticos, principalmente chineses, um grupo de iraquianos, um ou outro branquelo europeu e eu. Do Brasil? Todo mundo imagina que é longe, mas o único que sabia algo além de Kaká e Ronaldo foi o vendedor de frutas do Benison, o mercado dos muçulmanos onde vou quase todo dia. Ops, acabo de perceber que mesmo na Índia tenho uma rotina parecida com a da minha mãe, que vai diariamente ao Carrefour Bairro e troca presentes de Natal e de aniversário com as Carrefour-girls. Ainda não fiz essas amizades todas. Mas o cara das frutas lembrou da Gabriela Sabatini quando falei meu nome. Tá, ela é argentina, mas até então o máximo que tinham conseguido entender do meu nome era Gabriel. Ele é lutador de artes-marciais e joga até capoeira. Assim me disse. Só mais uma pequena demonstração da falta de fronteiras pras coisas da Bahia, que teimam em me acompanhar desde que eu era criança e ajudava a vender patuá do lado da baiana de acarajé da Festa dos Estados, mesmo sendo de família mineira (um dia eu explico).
Em Bangalore, levo meu status de estrangeira de forma explícita e constante, como se carregasse um outdoor brilhando em pisca-pisca neon. Em ambientes lotados ou no trabalho ninguém parece dar muita bola e até eu esqueço que tenho um sinal de “não pertenço” na testa.
Geralmente, essa condição de estrangeira me dá leveza ao olhar e faz com que coisas corriqueiras tornem-se muito divertidas. É bom ver a empolgação da meninada jogando “pelada” de cricket na rua; receber visita surpresa da filha do Mr. Babu trazendo masala dosa preparada por sua mãe para o café da manhã; aguardar ansiosamente pelo momento em que a muçulmana de burca levanta o véu negro para – Nhac! - abocanhar seu petisco no upahar (fast-food indiano); se encantar pelas cores e brilhos dos saris que envolvem as indianas; observar homens que se acariciam e caminham de mãos dadas ou abraçados porque são amigos, se gostam e não sofrem estigma por isso; se impressionar pelo olhar dos bebês com olhos maquiados com cajau, combinando com uma pintinha feita na testa ou na bochecha; se confundir com menininhos vestidos como meninas e vice-versa para entender que eles são relativamente livres da definição de gênero até a puberdade, quando então as marcas do que é feminino e masculino se instalam de forma definitiva.
Outras vezes, meu painel luminoso barra minha entrada em certos ambientes. Não há o que disfarçar. Não sei como agir, sou excluída, iletrada, desconheço os códigos. E tudo o que seria curioso se fosse uma viagem de férias precisa ser decifrado porque amanhã continuo aqui. Vou selecionando pra ver onde posso passar com meu carro alegórico, serrando algumas arestas para me ajustar aos formatos locais. Ao mesmo tempo, esse esforço se limita pela consciência de que minha passagem por aqui é temporária. Então às vezes simplesmente me conformo com as diferenças e guardo tudo em casa, onde estou protegida e ligada ao meu mundo pela janela do computador.
Acho que só agora caíram algumas fichas do livro “O Estrangeiro”, de Albert Camus, que li aos 20 e poucos motivada pela música “Killing an Arab”, do Cure. O mundo do argelino morto não caberia nunca no mundo de Mersault nem no do júri que o condenou.
Mais que um ano novo qualquer, 2010 nos dá a chance de chegar a dez e começar do zero ao mesmo tempo. Já estamos na última semana do nove. Não há melhor hora, portanto, para elaborar uma lista em duas colunas. De um lado, o que já está quase chegando no dez, derramando, saturando, o que foi suficiente, “saco” (como se diz em canará). De outro, o que vai preencher o vazio do zero, o que dá pra fazer acontecer.
Sei que na aula de ioga o exercício é justamente não pensar, desapegar dos pensamentos. Mas como isso é muito difícil, aprendi uma coisa com a Betinha, professora de ioga de Brasília, que pretendo usar principalmente nesta semana de faxina pré-ano novo. E como não entendo o que o professor daqui fala (em canará), é a voz da Betinha que vou escutar no fim da aula, nos minutos dedicados ao pranayama, o exercício respiratório em que a gente inspira por uma narina e expira pela outra. Ela sugeriu que, ao expirar, a gente visualize o que quer jogar fora. E ao inspirar, lembre do que queremos trazer de positivo pra vida.
Mas se a gente espera a grande virada de zero a dez para encontrar os símbolos da renovação, por aqui, terra dos rituais, esse é um exercício cotidiano. Toda manhã, depois de limpar a casa, as mulheres do sul da Índia usam pó de arroz para desenhar formas geométricas a sua porta. O “kolam”, como é conhecido, traduz em desenho uma prece. O pó de arroz é um convite ao novo, à energia positiva, à prosperidade, trazida pela deusa Lakshmi, que além da riqueza também simboliza generosidade, sabedoria, fertilidade, coragem. LakS em sânscrito significa perceber, observar. Lakṣya é traçar uma meta. Ela é a deusa que provê os meios para alcançar os objetivos.
Ao longo do dia, o branco é pisado, borrado, apagado pelo vento ou pela chuva. Mas uma pintura é feita no dia seguinte, para garantir a vinda de novos seres (passarinhos e formigas, que podem aparecer para fazer uma boquinha no arroz, por exemplo), para dar as boas-vindas aos deuses, para receber o novo.
Quando criança, eu morria de medo do ano novo. Sei disso porque está registrado numa foto de família daquelas que não quero mostrar pra ninguém. Todo mundo festejando e eu abrindo o berreiro, com medo do que entraria pela porta, em meio a fogos de artifício e gritos de “lá vem o ano novooo”! Continuo sem saber o que vai chegar. Mas aqui no terceiro andar, é preciso passar por muitos “kolans” pra entrar na minha casa. Então melhor arrumar a bagunça pra receber a visita.
Seja bem-vindo, 2010!
Em meio a tantos deuses e deusas do hinduísmo, seres poderosos com cabeça de elefante ou macaco, criaturas com vários braços, deidades cultuadas diariamente, Jesus Cristo torna-se uma figura modesta, talvez mais próxima do personagem da história bíblica original.
Imersa no país da espiritualidade, sem pinheiro, amigo-oculto ou maratona de compras, até que foi fácil deixar o tal espírito de renovação chegar de mansinho, sem pressa, já que estou 7h e meia na frente dos meus amigos e familiares. Confesso que estava com certo medo da “dança da solidão”, mas em tempos de reconciliação, fiz as pazes com a Airtel, companhia de telefonia celular responsável também pela banda larga, que não falhou uma vez na noite de Natal e permitiu conversas, chats e troca de mensagens carinhosas com gente querida do outro lado do globo.
Aqui no sul da Índia, o Natal provou existir um certo sincretismo que me lembrou a Bahia, nas devidas proporções comparativas. Mas não é assim em todo o país. Estou mais perto do mar e longe de Caxemira, onde a guerra religiosa (entre hindus e muçulmanos) dá o tom da luta na fronteira com o Paquistão. Estou distante também das florestas de Orissa, onde grupos hindus reagem com veemência tentando impedir a controversa conversão praticada por missionários cristãos nas comunidades tribais.
Dia 25 de dezembro é feriado nacional, celebrado pelos cristãos, que representam 2,3% dos indianos, o que acaba sendo muita gente num país com mais de 1 bilhão de habitantes, segunda maior população do mundo (depois de China). Na véspera de Natal, já tinha ido ao shopping, onde vi um Papai Noel vestido de verde (provavelmente vindo da COP) e comprei pequenos luxos para minha ceia particular: produtos importados – macarrão Barilla, molho de tomate com manjericão e queijo granapadano – tudo um pouco mais caro que os petiscos locais, mas me prometi que naquela noite minha língua só adormeceria pelo vinho sul-africano, não pela pimenta.
No fim da tarde do dia 24, uma torta surpresa em que estava escrito com glacê “Merry Christmas” (Feliz Natal) interrompeu o ritmo de trabalho no escritório. Não sei se a galera estava comemorando o nascimento de Cristo ou a viagem dos chefes, que sairiam de férias no dia seguinte, mas foi legal fazer um intervalo. Alguém sugeriu um cântico natalino, mas ninguém foi capaz de ir além do Dingobel. Então na falta de saber o que fazer e condicionados pela presença de uma torta na sala de reuniões, cantamos parabéns pra você: “Happy Biiiirthday, dear Jesus…”.
Meus colegas hindus disseram que acompanhariam seus amigos cristãos na missa noturna. Fui à igreja conferir o presépio, mas a missa era em canará, o idioma local. Todos tinham também um convite para o almoço natalino no dia 25, inclusive eu! Levei uns brigadeiros para a casa dos avós da Nalini Andrade, de família 100% indiana, mas cujo sobrenome português veio com o “pacote conversão” recebido do catequizador de seus antepassados.
O que não sabia é que a trupe de Vasco da Gama não é a única responsável pela presença dos católicos em terras indianas. Acredita-se o apóstolo São Tomé (aquele do ver pra crer) tenha vindo ao sul da Índia em missão evangelizadora e que no ano 72 d.C. ele teria sido perseguido e morto sob mando do Rei de Mylapore (ao sul de Chennai, capital do estado de Tamil Nadu). Mas como a história é sempre contada pelos vencedores, hoje fica difícil saber o que de fato aconteceu depois que os portugueses dominaram essa região no século XVI, classificaram os hindus como pagãos, destruíram o maior templo dedicado a Shiva e construíram a Catedral de São Tomé. O lugar ficou famoso há exatamente cinco anos, quando o Tsunami destruiu tudo ao redor, mas não tocou a igreja, onde, conta a tradição, São Tomé teria cravado um poste na areia (hoje os degraus da catedral), anunciando que as águas não passariam dali.
Hoje, em ondas mais calmas, sigo firme no propósito de entender um pouco mais o lado de cá, mas sempre grata aos meus amigos e parentes que me mantêm em conexão afetiva constante com o lado de lá.
PS: Acabo de descobrir que a roupa original do Papai Noel era verde!! Vivendo e aprendendo. Roupa vermelha deve ser coisa da Coca-Cola!!! Vejam o link: Santa Claus
Páh!… Páh!… Páh!… A partir das 6h da manhã, esse pode ser o som do despertar na Índia. Não se trata de fogo cruzado, nem do senador Eduardo Suplicy declamando o Rap dos Racionais. É trabalho, e pesado: a lavadeira já está na laje.
Sindoor (pó vermelho) na testa, piercing no nariz, pé descalço com anel no dedo (que só as casadas usam), sari impecável, ela já fez o puja (ritual de adoração), preparou o idly (panquequinha de arroz fermentado) no café da manhã e está literalmente batendo (n)a roupa da família, algumas vezes com a ajuda de um bastão.
Máquina de lavar não parece muito popular por aqui. No meu apê nem achei onde poderia instalar. Mas na parte de cima das casas, há sempre uma pedra cuja função é aparar a roupa que apanha e se esfrega nas mãos da lavadeira. Depois de um bom mergulho no balde com sabão, ela lança o pano contra a pedra repetidas vezes, com a mesma obstinação do avatar que mata o demônio no hinduismo.
Aqui a lida começa cedo e isso fica muito claro com os sons que a gente escuta antes de levantar. Parece haver uma competição para ver quem é mais dedicado e trabalhador, sem vencedores ou perdedores aparentes. Antes ainda de ouvir as chibatadas de sabão: uuuuuoooô…ôoouuuôoo… um zumbido mântrico parecido com o som das corridas de fórmula 1 transmitidas pela TV chega até os ouvidos (sem a voz do chato do Galvão Bueno, claro). Diariamente, às 5h30, os muçulmanos reúnem-se para a primeira meia hora de cânticos e orações.
Em Roma, como os romanos. Para fazer a minha parte no processo de adaptação, tenho tentado desembarcar do sono com esta toada vinda das mesquitas, a tempo de me juntar a meus vizinhos na aula de ioga das 6h, na escola que fica a um quarteirão de casa. Quando consigo usar a madrugada para dormir mais e pensar menos, integro o coro do ômmmm antes do sol nascer para então iniciar os exercícios de respiração e alongamento conduzidos em kannada, o idioma local. Vou imitando o mestre, só não dá para fechar os olhos. Meu nome é o último da chamada, depois de uma lista de 20 colegas, que inclui diversos deuses e deusas: Gowri, Lakshmi, Ganesh… Gabhrielll “Yes, sir!”.
Voltando para casa, escuto os primeiros “créus” dos corvos e sons de sininhos que emanam junto com o perfume de incenso vindo do altar de cada família. A esta hora (7h30), o trânsito já gerou suas primeiras buzinadas e os vendedores de rua começaram a circular com seus carrinhos, gritando em kannada qual o produto da vez: “Huá!!”, berra a dona das flores (que devem ser renovadas diariamente no puja). “Sopúuuu!”, grita o menino do cheiro verde (que aqui tem muito coentro e folha de curry). “Aiô!!”, brada o homem das bananas, como se aplicasse um golpe de kung fu (tá, sei que em Minas aio é aio, uai, mas o que ele diz é uma cifra para “baale hannu”, como se diz banana em kannada). Eles seguem um estilo entre o “garrafeeeeeiroooo” da minha infância (que não faz mais sentido em tempos de garrafas pet) e os vendedores de “Bixscoito Grobo” de Ipanema, só que bem mais tímidos e lamentadores que os cariocas.
Fecho a porta para me arrumar para o trabalho e ligo o som bem alto antes de entrar no chuveiro (sem banho de cuia desde que me mudei!). É claro que vai ter cantoria. Só que pelo menos ali eu sou o DJ.
P.S. A roupa lavada tem que sair de casa para a etapa seguinte, mas conto sobre o processo de passar roupa em outra ocasião.
Na quarta-feira (10 de dezembro), Dia Internacional dos Direitos Humanos, minha colega Niveditha, pesquisadora na área de gênero, não almoçou com a gente. Ela e outros ativistas de ONGs indianas ficaram em jejum até as 6 da tarde em solidariedade à jornalista e poetisa Irom Sharmila, que há dez anos está em greve de fome pela retirada da lei de 1958 que garante poderes especiais às forças armadas no estado de Manipur, Nordeste da Índia. Sharmila começou o protesto no ano 2000, quando tinha 28 anos. Seu jejum foi motivado pela morte de dez pessoas num ponto de ônibus (sete anos após a Chacina da Candelária, só para não esquecer da nossa própria luta contra os abusos da polícia). Em nome da segurança e da ordem pública, os militares de Manipur matam, estupram, prendem, torturam, incendeiam. Volta e meia, Sharmila é levada à força ao hospital, alimentada por sonda e presa por tentativa de suicídio.
Após as seis, os manifestantes acenderam velas em frente à estátua de Mahatma Gandhi, encerrando a manifestação com uma vigília.
No mesmo dia 10, o líder político separatista K Chandrasekhara Rao quebrou a greve de fome que fazia há 11 dias depois que o congresso anunciou a abertura do processo pela criação do estado de Telangana, até então integrado a Andhra Pradesh, no sul do país.
Em tempos de protesto contra a corrupção no DF, cinicamente justificada pela compra de panetones, é intrigante observar como do lado de cá a lição de não-violência de Gandhi permanece viva: líderes fecham a boca para gritar e assim conseguem mobilizar tanta força política. Tá certo que cada cultura encontra suas ferramentas de resistência, mas qual o preço do silêncio dos mártires?
Na mesa: um fogão novo*
*Obs: O fogão mais comum da Índia é um fogareiro a gás de duas bocas. Longe dos panetones eleitoreiros e da carne assada, por aqui ninguém tem forno em casa. Os pratos locais são basicamente fritos e cozidos. Como não vivo sem bolinhos, já iniciei uma pesquisa por um forno elétrico. Mas o pão de queijo vai ter que esperar, pois até agora só vi daqueles pequeninos de tostar o pão.
Nível: médio
Ingredientes: uma xícara de leite, uma fruta, dois incensos e um punhado de: flores, folhas de curry, açúcar, lentilha e kumkum (aquele pó vermelho que os indianos usam na testa para pedir proteção. É açafrão).
Modo de fazer:
A vantagem do fogão/fogareiro é que é tão leve e pequeno que a gente transporta da loja para casa até de ônibus. Um com acendedor automático custa 3100 rúpias (115 reais), mas eu paguei só 2000 (R$ 74) graças ao Mr. Babu, o senhorio mais gente boa do pedaço que tive a sorte de encontrar. Ele é aposentado das forças armadas e por isso tem acesso a uma cooperativa que vende tudo a preço de custo. Pena que não tinha geladeira pois a que comprei no domingo em outra loja, cuja entrega foi prometida para o mesmo dia, até hoje necas. Para compensar a pechincha do batalhão, enfrentamos uma fila de duas horas, em meio ao pelotão inteiro, que se acotovelava no domingão livre para as compras. A segurança também é de dar medo, mas com Mr. Babu por perto estava tudo sob controle. Aliás, aqui não se pode perder o recibo antes de sair de qualquer loja, pois há sempre um guarda na porta que confere os pacotes e dá uma furadinha na nota, indicando que o cliente já saiu com o produto.
Chegando em casa feliz com o fim da ditadura da pimenta, conferi os procedimentos para a instalação.
- É só encaixar o cabo do gás encanado aqui do lado ó, explicou Mr. Babu pacientemente.
- Então posso começar a cozinhar?
- Que horas são?, perguntou Shruti, filha dele.
- 5 da tarde.
- Ainda não. Voltaremos aqui às 6h em ponto para o ritual de inauguração.
Antes da campanhia tocar, liguei pros meus pais para que eles pudessem participar via skype. Minha mãe riu um pouco durante o processo, mas a família do Mr. Babu também achou graça da gente, então tá 1 a 1. Aliás, a sogra dele já tinha vindo aqui só de curiosa. A velhinha subiu os três lances de escada, deixou o chinelinho do lado de fora e circulou pelo apê, rindo baixinho. Mas depois comentou que me achou gente-boa, pelo menos esta foi a tradução oficial feita pela neta dela. Talvez ela tenha até se decepcionado um pouco, porque apesar de ter cabelo curto e a pele mais clara, não há tanta diferença assim. Nada comparado a Mel, uma amiga do Rio Grande do Sul linda, branquinha, loirinha e de olhos azuis que encontrei no fim de semana passado em Goa. Pude ver de perto como os locais (principalmente homens) tentavam fotografá-la “sem ela perceber”, como acontece com as celebridades (só que sem o salário dos astros). Ela ficou dois meses e meio fazendo um estágio no norte da Índia e quando visitava os monumentos, tinha que segurar os bebês para uma foto com a fada encantada na frente dos templos.
Às seis badaladas, hora em que as rádios do interior do Brasil tocam “Ave Maria”, Jayanthi, esposa de Babu, trouxe a bandejinha com todos os ingredientes incluindo uma cumbuca de barro cheia de leite. Antes de usar o fogão pela primeira vez, deve-se deixar o leite ferver até derramar, como sinal de fartura, para nunca faltar nada nesta casa.
Ela enfeitou o fogão, passou kumkum em todos os botões, ofereceu uma fruta aos deuses, colocada em cima de uma folha, junto com a lentilha e o açúcar (no hinduismo pode-se comer os alimentos depois da oferenda), rezou, espalhando a fumaça do incenso, e me chamou para acender a primeira chama. Mas na minha vez, derrubei a bandejinha e a oferenda no chão, o que acabou dando um toque Chico Science ao ritual, no melhor estilo “Que eu desorganizando posso me organizar”.
Nunca esperei tão ansiosamente pela borbulha daquela panela. A gente sempre sabe que mais cedo ou mais tarde o leite vai ferver, mas não dá para calcular exatamente quando. E é mais ou menos assim que me sinto em relação ao meu processo de adaptação aqui. “O leite caiu pro lado direito, ótimo sinal”, comentou Jayanthi.
Se até os ladrões do GDF fazem oração pedindo apoio, eu também posso: Óh, Krishna, sei que prometi não ficar mais estressadinha, mas me ajude a entender porque todas as companhias telefônicas do mundo desrespeitam os clientes de forma tão grotesca. E por que mesmo sabendo disso, seguimos achando que a necessidade de estar conectado 24h por dia é tão vital que jamais desistimos do serviço? Se esbravejamos a ponto de quebrar o contrato com uma, assinamos com a concorrente, tão ruim quanto a primeira opção. Por que a privatização não tem nada a ver com eficiência? Por quê? Por quê? Mesmo sem respostas, óh deidade companheira, me ajude a manter a cabeça fria já que as orelhas não vão esquentar tão cedo pois continuam distantes das ondas eletromagnéticas do celular.
Na mesa: um celular pré-pago que funcionou por uma semana e parou; um celular pós-pago conseguido com muito suor e xerox. Ele envia mensagens e recebe chamadas, mas não liga pra casa; um modem de laptop comprado com a promessa de funcionar imediatamente, mas que um dia e meio depois ainda não disse a que veio.
Nível: dificílimo
Ingredientes:
- algumas rúpias;
- dez toneladas de paciência;
- muitas fotos “tamanho passaporte”, que na Índia fica entre a 3×4 e a 5×6. Melhor não tentar usar as do Brasil e tirar uma dúzia nova aqui mesmo;
- cópias do passaporte (com visto), comprovante de residência, registro de permissão de residência (emitido pela polícia, após uma saga de seis visitas, outras tantas fotos, carimbos e documentos);
- une-dune-tê para escolher uma das 17 empresa que vai te maltratar: Airtel (com grande área de cobertura), Reliance (sei…), Vodafone, TataDoCoMo, etc
Modo de fazer:
Se tiver um conhecido indiano que tope contratar o serviço em nome dele para você, invista nisso e evite dores de cabeça. Se conseguir que ele vá até a loja em seu lugar, você vai se poupar de ver alguns clientes locais se transformando em cachorros-doidos, latindo bravamente para vendedores que parecem nunca perder a cabeça, nem resolver os problemas.
Senão, ommmmm. Respire e mãos a obra!
O documento mais importante para conseguir o mínimo de respeito é o registro de permissão de residência. Todo brasileiro precisa de visto para entrar na Índia, mas quem fica mais de 180 dias, deve estar atento para o que dizem as letrinhas miúdas do visto escritas primeiro em Hindi, depois em inglês: o registro deve ser feito em até 14 dias da chegada, sob pena de pagar uma multa de 30 dólares por atraso. Mas não é em qualquer delegacia, é no comissariado de polícia, um prédio bem maior e com muito mais filas.
Os documentos necessários estão citados no site da instituição e apenas lá (www.bcp.gov.in). A lista é extensa e inclui o preenchimento de formulários, 5 fotos, comprovante de residência e, no meu caso que tenho visto de trabalho, o contrato e uma declaração dos empregadores com firma registrada em cartório dizendo que são responsáveis por minha conduta e que se eu vacilar, serei repatriada às custas do patrão. Na semana em que cheguei, a moça do RH pediu demissão e meus chefes viajaram para um congresso no Egito. Resultado: atraso para entender o procedimento e consequentemente para obter o vale-respeito nas companhias telefônicas.
As duas primeiras visitas ao comissariado foram café-com-leite: primeiro porque, apesar de abrir aos sábados, é feriado nacional todo segundo sábado do mês. E a segunda só para descobrir o endereço do website. As outras quatro visitas foram mesmo do passo-a-passo de tartaruga da burocracia, incluindo o dia de pagar a multa, quando me entregaram um papel escrito em Kannada (o idioma local) para ser pago num banco que ficava a uns 5 quarteirões dali, conforme o agente me explicou rapidamente com um sotaque muito forte. Mas quem tem boca vai ao Banco Estadual de Mysore, que graças aos deuses tinha pelos menos as iniciais em inglês escritas a caneta no boleto. Na fila do banco, mulheres costumam ser ignoradas pelos homens furões, mas eu mostrava o dedinho apontando pra trás: “cheguei primeiro, senhor”. Aliás, agora me lembro que foi por isso que estava nervosa no dia da mudança e com extrema necessidade de me fazer respeitar. Mas depois descobri que Mr. Babu já me respeitava.
Antes de conseguir o registro, Prasanna, o boy do escritório bem que se esforçou para comprar um chip pré-pago em meu nome, mas após uma semana o serviço foi bloqueado por falta de documentos. Quando tentamos solucionar o problema na Airtel, a moça olhou pra mim e disse: “Ih, é estrangeira? Vai demorar”. Então a solução foi comprar outro chip, desta vez pós-pago, já que depois de um mês podia sacar da pasta qualquer coisa que o vendedor me pedisse. Só que hoje, quase 48 horas depois, meus dados ainda estão sendo verificados, como me explicou o moço do call center. Ainda não chegou a hora de poder me conectar com o Brasil quando bem entender.
Voltando pra casa bastante frustrada, chutei um folheto colocado em meu caminho: “Aulas de ioga para prevenir tensão mental e aliviar dores físicas”. Parece que é na minha rua! “Vagas limitadas. Terá preferência quem chegar primeiro”. “Inscrições por… telefone”!
Alugar uma casa em Bangalore, terra da tecnologia, é muito, mas muito mais fácil que conseguir um celular em seu nome. Compare os dois processos, começando pelo produto final. A luta por um chip vai no próximo post.
Na mesa: Apê de um quarto a 5 minutos do trabalho com direito a companhia especial de alguém mais famoso que os Beatles*.
Nível: fácil, mas depende de uma grana inicial.
Ingredientes:
- Uma bolada financeira equivalente a 11 meses de aluguel. Os proprietários costumam cobrar 10 meses adiantado como caução, além do pagamento mensal. Esse dinheiro será devolvido no término do contrato. A 11ª parcela vai para o corretor. Sem dúvida é salgado, mas substitui a garantia dos fiadores, que no Brasil pode ser uma dor de cabeça para quem é de outra cidade, imagine outro país. De qualquer forma, os valores são bem inferiores aos aluguéis no Brasil, que dirá Brasília, onde o setor imobiliário é dominado pelo vice-governador. O aluguel de um apê de um quarto varia de 4000 a 9000 rúpias (150 a 350 reais), bem menos do que coube na meia do deputado Prudente.
- O semanário de classificados chamado Add Mag (10 rúpias), lançado no domingo e vendido em qualquer banca ou birosca.
- Aproximadamente 30 minutos para ver cada imóvel anunciado. Quatro visitas são suficientes para conhecer o padrão.
- Um telefone. Se já tiver sido bem-sucedido na saga para conseguir um celular antes do aluguel, ótimo. Senão, em cada esquina há um telefone público. Cada ligação sai por 1 rúpia.
Modo de fazer:
Os imóveis são anunciados por bairro e número de quartos. À primeira vista, os termos parecem indecifráveis (vaastu, lndp, brokers excuse, a/b, kavery), mas é só tirar as dúvidas com o corretor. Atenção pois alguns proprietários restringem o uso da cozinha para vegetarianos, mas isso costuma estar explicitado se for o caso.
Depois de selecionar um apartamento de dois quartos no jornal, marquei com o corretor na frente do Coffee Day (rede local de cafés, nada de Starbucks!) mais próximo do escritório. Segunda de manhã ele passou lá de moto, me deu carona e, quando viu que era só para mim, ofereceu um imóvel de um quarto, que ainda nem tinha sido anunciado. Topei ver primeiro. Pronto, já estava decidido. Os outros seis apartamentos só vi para achar os defeitos. Os de dois quartos são gigantes. Num quarto dorme o casal com alguns filhos. E no outro os sogros com o resto da meninada. Estou longe de precisar disso.
Marcamos um encontro com Mr. Babu, o proprietário. Ele quis mostrar o apartamento novamente. As coisas do antigo morador ainda estavam lá. Se eu não quisesse comprar os sofás deixados pelo moço, Mr. Babu o faria para equipar o imóvel. E assim foi. A próxima reunião foi pra assinar o contrato, bem parecido com o brasileiro e registrado em cartório.
No dia combinado, peguei a chave e me mandei com minha mala. Mas ao chegar no terracinho do terceiro e último andar, vi roupas no varal e poltronas do lado de fora. Na porta de casa, flores penduradas, e desenhos de giz e cumcum (pó vermelho usado para fazer uma marquinha na testa como forma de proteção/benção. Seria urucum?) na soleira para trazer bons fluidos. Na estante, a imagem de Krishna, geralmente retratado como um menino gordinho e mimado, num altarzinho recheado com flores, leite, açúcar, incenso. Esse Mr. Babu não tem palavra? Combina uma data em que o apartamento ainda não foi desocupado? Liguei brava para o corretor e descasquei. “No problem, madam. Vou falar com o proprietário para verificar”. Quando ligou de volta, morri de vergonha. Mr. Babu tinha feito puja (o ritual de adoração às deidades) especialmente para pedir proteção e prosperidade por minha entrada na casa!. Acredita-se que por meio dos mantras entoados nesse ritual, a energia cósmica desce, mantendo aquele ícone vivo. O puja é então o procedimento para comunicar espiritualmente seu desejo aos deuses. Lembrei que quando visitei o templo do poderoso Hanuman (o Deus-Macaco) em Mysore, vi uma pessoa levando uma moto novinha para ser “abençoada” por um puja antes de usar. Depois me explicaram que, numa casa nova, devemos deixar o leite ferver até derramar, para que não falte nada no novo lar.
Depois da primeira noite, ao sair para o trabalho, não consegui trancar a porta do lado de fora. Na minha confusão matinal, pensei que aquilo poderia ser uma lição de Krishna por eu ter me comportado como uma ocidentalzinha nervosa e desconfiada na noite anterior. Então comprei flores (vendidas nas ruas e na frente dos templos por toda a cidade), pedi desculpas e colori ainda mais o altar antes de acordar Mr. Babu para falar do problema da chave. Ele mora a duas casas da minha. Conheci sua esposa e sua filha, que deve ter uns 20 anos e ajuda na tradução quando os pais não se lembram das palavras em inglês. Me convidaram para o café da manhã, mas aleguei urgência por causa do trabalho. Ele se prontificou a verificar imediatamente e conseguiu trancar a porta com toda tranquilidade!
Pode ter sido só falta de jeito ou fraqueza sem o café da manhã. De qualquer forma, fiquei feliz por ter feito as pazes com Krishna e sigo cantando para ele aquela música do Jorge Ben (Frases), que como bem lembrou o baiano Luma, ficou famosa na voz do Caetano: “Eu só quero que Deus me ajude e o menino muito mais também… olha o menino, ui. Olha o menino, ui ui ui”.
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*Há uma semana, estava mostrando para as meninas da pensão as fotos da celebração dos 40 anos do disco Abbey Road. Dizia que uma multidão compareceu à frente da gravadora em Londres para imitar a famosa foto em que os quatro atravessam a faixa de pedestre, quando fui interrompida: “Que Beatles?”.