Filed under: De 12 em 12
Como os números passaram a ter outra importância depois de uma temporada na Índia, tentei esperar o décimo segundo dia do ano pra escrever sobre 2012. Sobre meu ano novo, assim, assumidamente egocêntrico. Com ansiedade, libero o texto alguns dias antes, nutrindo a esperança de conseguir agir assim também em relação às promessas profissionais.
Para a próxima temporada, uma dúzia de pensamentos vão e vêm na maré da consciência. Que tolice querer pegar todas as ondas. Sente-se na beira da praia e observe.
Aos 12 anos, antes da menarca, o feminino parecia não ter limites. Um ano depois, o corpo já precisava de cuidados pra entrar no mar.
Aos 24, que sede! O vento sopra aqui, ali, solto os cabos do barco, mas por medo ou prudência, nem vou tão longe da praia.
36, a “volta do fiel”: alguns nós feitos e desfeitos. Após curtas, mas intensas viagens em alto mar, mantenho o barco amarrado temporariamente. Liberdade ainda que tardia. Inicia-se mais um ciclo. Os procedimentos automatizados se apagaram e as águas trazem de volta aquela sensação dos 12 anos, que estranho.
Aos 48 voltaremos a conversar. Pode ser que o mundo acabe. Enquanto houver incerteza, está tudo bem.
Filed under: Feliz Saturnália!
- Quando você acha que vou nascer?
- Por que a pergunta, criaturinha?
- Sensibilidade natalina, talvez. Me lembro do nascimento do bebê mais importante da história ocidental e me dá certa ansiedade pra vir logo ao mundo.
- Que bobagem, bem antes disso, os romanos já cultuavam Saturno em uma festa pagã estilo vale tudo nesta mesma época do ano. Todo mundo curtia sem culpa, trocava presentes, pedindo ao sol pra ele se manter firme e forte e, assim, proteger as plantações no inverno.
- Como se todo dia fosse sexta-feira?
- É, só que por menos de dez dias.
- Hmmmm, que nem no carnaval. Então vou tentar segurar a ansiedade até fevereiro, aí aumentam muito minhas chances de nascer.
- Mas você quer mesmo nascer gente? Meio imperfeito demais, não? Por que não nasce amor?
- Ah, isso morre logo.
- Mas pode renascer, ué. Cê preferiria ser pedra?
- Pode renascer… Que otimismo o seu!
- Deve ser o espírito natalino.
- Ahá, você acabou de falar que isso é só uma invenção da Igreja!
- Pensa bem, tanto faz, de qualquer forma, é mais uma tentativa de controlar o incontrolável e gerenciar a esperança de ser feliz.
- Tá, dá aqui um abraço. Te desejo que nasça muito feliz, sendo inteiro no seu estado de gente imperfeita, pedra dura, água mole ou amor inconstante.
- Não me venha com ironias, a gente ainda nem existe!
- Mas a gente pensa.
- Xi… descartou Descartes…
- Feliz Natal!
- Feliz Saturnália!
Filed under: Marginal brasileiro
Sugestão: clique para ouvir Zé Keti
Não sei onde o Baiano mora, mas deu uma preocupação danada porque ele ficou mais de uma semana sem aparecer no estacionamento. Veio uma lembrança triste do Antônio, que acabou preso depois de protagonizar uma tragédia familiar daquelas de capa da imprensa marrom. Magrinho e gentil, ele abria a porta do carro e chamava a mulherada de linda ali num pedaço do que simula o centro de uma capital – a plataforma da rodoviária.
A versão contada no escritório é que o Baiano arruma uns bicos nas casas das pessoas de vez em quando. Ele já estava lá há dez, quinze anos, só que ao contrário de grande parte dos que estacionam ali, não vai se aposentar.
Não sei o nome do Baiano, mas ele me chama de Gabi, seguido de um sorrisão malandro, para o qual respondo perguntando: “bóra dar um banho no possante hoje”? Custa 15 reais por dentro e por fora. De manhã ele ensaboa uns dez carros e de tarde ele perde ou ganha mais que isso na jogatina com os porteiros e outros trabalhadores informais . Vi da janela do segundo andar.
Brasília tem uma vida ímpar embaixo dos blocos, um vai e vem de domésticas, babás, crianças e gente que vêm de longe. Alguns parecem ter saído de um filme surrealista: o vendedor de espelhos que exibe molduras pro céu, o empurrador do carrinho de música com CDs originais e chineses, e adolescentes que, com a falta de praças, namoram ali no pasto verdinho das entrequadras nesse tempo de chuva.
Nem sei o dia do aniversário do Baiano, mas me iludo achando que sou amiga dele. Bem que ele me defendeu quando um baixinho invocado, funcionário do Banco do Brasil, saiu do carrão branco cuspindo grosserias porque eu não tinha olhado pelo retrovisor.
Trim. “Lava-jato móvel está aqui”, diz Nina, a recepcionista mais elegante de todos os tempos.
E lá vem ele, nos trinques, fim de mais um expediente, depois de se ajeitar no vestiário do edifício da W3.
Em Brasília, a data de hoje parece ter sido criada por Niemeyer. Concretos de pé, um anexo ao outro, como na esplanada. Números um em alerta, como dragões da independência posicionados em dupla, imóveis, num dia sem vento. A perfeição de um dominó que não cai. Pés fincados no chão, elegantemente dispostos em simetria, como se assim continuassem repetidamente até o infinito. Cabeça erguida e olhar para o alto, marchando segundo a rota definida, sem o incômodo de qualquer incerteza. Mas amanhã, toda a altivez será perturbada.
Filed under: Brasil
*título do filme documentário de Izabel Jaguaribe sobre Paulinho da Viola
Depois de um domingo de jazz com minha família de Londres, acordei no meio da madrugada fria, tomei um copo de coragem e um Alegra D, vesti as luvas cirúrgicas e finalmente abri a mala que o Igor já tinha feito a gentileza de tirar da garagem.
E então me encontrei comigo mesma. Mas não eu hoje. Eu antes da Índia, onde 9 meses talvez tenham sido 9 anos. Eu depois da Inglaterra, onde o mundo encolheu tão rápido, que não deu tempo de planejar o que viria depois, achando perfeitamente aceitável cair do outro lado do planeta como num xote desavisado – dois passinhos pra lá, dois pra cá.
Antes do ritual solitário que só tem importância pra mim mesma, passei dois dias sem conseguir tocar na mala, com receio não sei bem do quê. Talvez da cápsula do tempo revelar fragilidades que estavam estocadas no mofo. Ou quem sabe por prudência, para evitar que os fantasmas da saudade fugissem da caixa de pandora. Mas não haveria data melhor que hoje, Dia das Bruxas, para desafiar medinhos antigos com a leveza das crianças fantasiadas de monstro em busca de guloseimas.
Agora tenho a chance de separar o que vai ser descongelado do que já perdeu o prazo de validade por pertencer exclusivamente àquele tempo, tão próximo e ao mesmo tempo tão distante. Começo a selecionar o que será reaquecido, reutilizado, resignificado, saboreado com doçura, responsabilidade e uma dose de desapego. No melhor estilo “Quando eu penso no futuro, não esqueço o meu passado”, desfaço a mala no ritmo de Paulinho da Viola, em “Meu tempo é hoje”, excelente documentário de Izabel Jaguaribe lançado em 2003, mas que assisti ontem pela primeira vez.
Fala, Paulinho:
“Sempre falo que não sinto saudade. Para mim, vale o que está no presente. É difícil de traduzir, como se o passado fosse vivo em mim. Mas tudo que vivi faz parte de uma única vida, é uma coisa só. A saudade anula a vida e, quando digo isso, pode até ser uma certa pretensão. Mas veja bem: a perda de uma pessoa, o que você sente em relação à ela, é natural; mas não é isso de que eu estou falando. É outra coisa, aquilo dos momentos vividos, que você guarda como se tivesse que voltar exatamente como era, o saudosismo. Isso que não é bom e eu não carrego comigo”.
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Confesso que não consigo mais ouvir uma história de viagem impunemente. Por mais longínquo que seja o destino do viajante, meu fôlego imaginário infla até alcançar a balsa que cruza o rio Mekong, as bicicletas de Hanói, o pé do Himalaia. E volto para lembrar que estou mais próxima de tanta riqueza cultural e ambiental aqui nos Lençóis Maranhenses, Peru, Cuba, México… E conto os anos que passei no mesmo lugar, o tempo que tenho versus o dinheiro que não tenho. E vem a importância de cada coisa: ter raiz, não se deixar enterrar. Essas viagens imaginárias não tem muito de turístico porque o que guardo de mais precioso não são souvenires, mas amigos, histórias de vida e laços que embaraçam e desembaraçam as pessoas, seus valores, suas culturas. Só que tudo tem um preço. E o de ser viajante talvez seja a distância que faz desaparecer aquele cotidiano comum, familiar, aconchegante, confortável, seguro. E pra alguém voar, alguém tem que ancorar. E ficar também pode ser uma opção de roteiro a seguir. Mas agora?
Filed under: Institucionalizando a impermanência | Tags: impermanência, provisório
Hoje recebi o crachá eletrônico do trampo e nele está escrito “Provisório”. Agora este é o código para abrir as portas. Opa, vou aproveitar. Obrigada!
É curioso andar com isso no peito, como se exibisse a misteriosa interrogação do futuro, que faz parte da vida de todo mundo, em qualquer lugar. No meu caso, só reparei que podia ampliar o repertório de “quem sou eu” ao deixar de portar cartão de visita, crachá, carro com adesivo e, consequentemente, salário e uma agenda daquelas que a gente aproveita a capa e vai trocando o miolo a cada ano, sem grandes surpresas. Mas não foi isso que sempre quis?
Ao abrir mão da estabilidade do previsível, tudo pode acontecer. Mas até que ponto o leque de escolhas é assim tão vasto? As combinações começam a girar como naqueles jogos de jackpot. Plim! Estudante+Estrangeira+Dura. Sedutor, mas não é das alternativas mais sustentáveis. Plim! Profissional+Muito mais Estrangeira+Solitária. Dói um pouquinho a cada dia, é até suportável, mas seria pedir muito ter algum retorno no curto prazo? Plim! Filha+Amiga+Confusa. Hmmm, deixa essa passar logo! Plim! Enquanto giro a manivela do acaso, sem perder a esperança de encontrar a combinação perfeita, a vida acontece, sem se importar muito com o que está escrito no crachá. Já chegou? Sim, mas vai passar.
Às vésperas do São João, não tinha um lugar vago no vôo de Brasília para São Luís. Entre os passageiros, a média de idade era de 70 anos. Minha companheira de viagem estava nos trinques: ruguinhas cobertas de pó de arroz, cheiro de leite de rosas e a boca vermelhinha de batom, me contando como ela encara todas as doenças que já acometeram sua família, com preocupação especial com a irmã mais nova, hoje com 59 anos. Aos vinte e pouco ela esteve em Brasília protestando contra a ditadura e acabou levando uma porrada tão violenta na cabeça que a deixou com problemas mentais e neurológicos para o resto da vida.
Embaixo da poltrona, sacolas cheias de presente para quem não saiu do Nordeste rumo à capital. Lembrancinhas pra gente como o Ribamar, pra Creuziane e pra Creidimes, que agora já sabe que na terceira gravidez vem uma menina, pra alegria da caçula de 3 anos, Gleice Kelly, um tiquim de gente com esse nome cheio de “eles”, adaptado da musa de Hollywood que virou princesa. Quando me conheceu, ela pediu a “bença”. E me deixou assim meio sem jeito porque confesso que eu estava despreparada pra lembrar que claro, sou mais velha que a mãe dela. Ali na Vila Maranhão, assim como na Índia, é raro viver até os 36 sem assumir a identidade de uma senhora com uma penca de meninos.
Em comum com o Senado em Brasília, as autoridades de lá têm o mesmo sobrenome há muitos anos. Isso ajuda a explicar boa parte dos contrastes de um lugar que ainda têm presente elementos da corte portuguesa e da escravidão. Viva o boi de todos os sotaques, o tambor de crioula, o chapéu com fita, o bordado colorido, a criatividade do povo! Mas para não fazer parte do cenário do Centro Histórico, a meninada sem fantasia é levada para longe de onde flanam bandeirinhas coloridas entre os azulejos portugueses. E foi durante a apresentação de uma dança da corte lusitana, que um grupo de bombeiros, policiais e agentes do juizado apareceram para uma operação desafiadora: tirar da vista dos turistas um único menino que ignorou o festival e continuou explicitando sua existência de quem conhece cada paralelepípedo daquela cidade. Mais difícil do que convencê-lo a abandonar a festa para ser levado a um abrigo foi convencer o grupo dos supostos responsáveis por ele a deixar de lado as luvas que faziam o menino tremer e investir no argumento. Mas enquanto a estratégia adotada for de “limpeza urbana” e não uma abordagem de proteção e de direitos, que chega de mansinho e aos poucos ganha a confiança de quem teve que se defender sozinho desde cedo, como fazem tantos educadores de rua Brasil a dentro, a festa vai ter um gosto mais azedo do que arroz de cuxá quando a vinagreira passa do ponto. “Que São João te abençoe, querida”.
Filed under: Brasil, O sonho (não) acabou | Tags: Central do Brasil, Paul McCartney, Rio
Pow! Estouraram as caixas de som. Paul! O besouro vivo entrou no palco com um terninho azul como o do rei Roberto, que ele logo tirou, mantendo um suspensório que parece não fazer sentido em ninguém além dele. Simples, com camisa branca e muita vitalidade. Hello helloooo. Na entrada da área, os amigos cruzaram olhares com a cumplicidade de três gerações. Atrás do outro gol, o sorriso branco exagerado do baterista-percussionista-vocal era pura simpatia. Cada frase ensaiada em português, dita com tanta naturalidade, parecia ter um efeito dilatador das veias, cortando o caminho até as artérias de quem tem o rock inscrito no código genético. E assim, o Engenhão foi transportado para um mundo de sonhos.
Um mundo da música visceral de qualidade técnica impecável, sem apelos pirotécnicos.
Um mundo em que o estádio de futebol é limpo, pacífico, organizado, aconchegante e seguro para eles e para elas.
Um mundo em que a estação Central do Brasil (para ver inglês) é toda sinalizada, policiada, com equipes simpáticas e treinadas, com seus coletes “Posso Ajudar?”.
E a para a classe média da zona sul e do Brasil, a “Magical Mystery Tour” começou no trem especialmente disponível para o show, com vagões espaçosos, confortáveis, refrigerados e com música ambiente pra galera ir entrando no clima, enquanto viajava até o Engenho de Dentro em 15 breves minutinhos.
Mas na terça de manhã, os vagões especiais já não estavam mais lá. E o trabalhador da zona Norte encarou as latas de sardinha para ir e voltar do trabalho, sem qualquer vaga lembrança do sonho “geladinho” que experimentei em uma das noites musicais mais especiais da minha vida.
Para ver notícia sobre a volta dos trens à rotina, clique aqui.
Daniel, que desembarcou na França há quatro anos, tropeçou no concreto de Niemeyer que abriga a sede do partido comunista e se viu em Brasília no meio de Paris. E se lembrou de uma história de sua infância arquitetônica, contada por seu pai lá nas areias de Ipanema (clique para ler Chéri à Paris desta semana).
Julia, que desembarcou em Brasília há cinco meses, rodava de carro por ruas largas, cheias de árvores, mas nenhum sinal de bípedes pensantes, e imaginou estar dentro de uma nave espacial, visitando um planeta desconhecido e sem oxigênio, onde só é possível sobreviver dentro de cápsulas protetoras. Ela não se lembrou de nada e por isso mesmo se encantou com uma sensação nova, deixando-se levar por uma sensibilidade aberta para a estranheza, que arrebata sem aviso prévio no meio desta cidade.
William, que se virou como motorista de táxi na nova capital quando chegou de Minas, não segurou a bronca quando uma passageira desandou a criticar os preços abusivos dos imóveis em Brasília, sugerindo que com o mesmo valor seria possível comprar um apê em Tóquio ou Nova Iorque. Ele se lembrou de um amigo que, deslumbrado, vendeu tudo para tentar a vida nos Estados Unidos, mas teve que voltar bem antes do que pensava porque o oficial de imigração não foi com a sua cara. E comentou: o que eu faria com uma propriedade num lugar que não é o meu?
Eu, que passei a vida aqui, mas dei um rolé ali do outro lado do mundo que me fez confundir um pouco quem sou, conduzi o possante na madrugada do último sábado até um dos estacionamentos mais antigos da capital. Havia estado no mesmo prédio comercial às 3 da tarde para uma reunião. Desta vez, os escritórios estavam todos fechados. Menos uma sala no último andar acolchoada por espumas acústicas que há três gerações capturam rifles de guitarra. Naquela noite, o estúdio funcionou como passagem para uma outra dimensão: na laje que circunda todo o prédio, um palco foi improvisado com rock de primeira, que vibrava no ritmo da surpresa de conseguir enxergar o plano piloto em 360 graus, mas tão próximo da W3 como nunca seria possível do alto da torre de TV. E me lembrei de tantos amigos que rompem a burocracia com musicalidade, reinventando o que vem a ser Brasília. E ri por ter recebido de presente naquela noite a senha que decifra a sensação de estar de volta num lugar cuja maior familiaridade é o que há de mais estranho. E agradeci por me reconhecer, enquanto mirava as estrelas entre colunas de concreto.
