Na mesa: um fogão novo*
*Obs: O fogão mais comum da Índia é um fogareiro a gás de duas bocas. Longe dos panetones eleitoreiros e da carne assada, por aqui ninguém tem forno em casa. Os pratos locais são basicamente fritos e cozidos. Como não vivo sem bolinhos, já iniciei uma pesquisa por um forno elétrico. Mas o pão de queijo vai ter que esperar, pois até agora só vi daqueles pequeninos de tostar o pão.
Nível: médio
Ingredientes: uma xícara de leite, uma fruta, dois incensos e um punhado de: flores, folhas de curry, açúcar, lentilha e kumkum (aquele pó vermelho que os indianos usam na testa para pedir proteção. É açafrão).
Modo de fazer:
A vantagem do fogão/fogareiro é que é tão leve e pequeno que a gente transporta da loja para casa até de ônibus. Um com acendedor automático custa 3100 rúpias (115 reais), mas eu paguei só 2000 (R$ 74) graças ao Mr. Babu, o senhorio mais gente boa do pedaço que tive a sorte de encontrar. Ele é aposentado das forças armadas e por isso tem acesso a uma cooperativa que vende tudo a preço de custo. Pena que não tinha geladeira pois a que comprei no domingo em outra loja, cuja entrega foi prometida para o mesmo dia, até hoje necas. Para compensar a pechincha do batalhão, enfrentamos uma fila de duas horas, em meio ao pelotão inteiro, que se acotovelava no domingão livre para as compras. A segurança também é de dar medo, mas com Mr. Babu por perto estava tudo sob controle. Aliás, aqui não se pode perder o recibo antes de sair de qualquer loja, pois há sempre um guarda na porta que confere os pacotes e dá uma furadinha na nota, indicando que o cliente já saiu com o produto.
Chegando em casa feliz com o fim da ditadura da pimenta, conferi os procedimentos para a instalação.
- É só encaixar o cabo do gás encanado aqui do lado ó, explicou Mr. Babu pacientemente.
- Então posso começar a cozinhar?
- Que horas são?, perguntou Shruti, filha dele.
- 5 da tarde.
- Ainda não. Voltaremos aqui às 6h em ponto para o ritual de inauguração.
Antes da campanhia tocar, liguei pros meus pais para que eles pudessem participar via skype. Minha mãe riu um pouco durante o processo, mas a família do Mr. Babu também achou graça da gente, então tá 1 a 1. Aliás, a sogra dele já tinha vindo aqui só de curiosa. A velhinha subiu os três lances de escada, deixou o chinelinho do lado de fora e circulou pelo apê, rindo baixinho. Mas depois comentou que me achou gente-boa, pelo menos esta foi a tradução oficial feita pela neta dela. Talvez ela tenha até se decepcionado um pouco, porque apesar de ter cabelo curto e a pele mais clara, não há tanta diferença assim. Nada comparado a Mel, uma amiga do Rio Grande do Sul linda, branquinha, loirinha e de olhos azuis que encontrei no fim de semana passado em Goa. Pude ver de perto como os locais (principalmente homens) tentavam fotografá-la “sem ela perceber”, como acontece com as celebridades (só que sem o salário dos astros). Ela ficou dois meses e meio fazendo um estágio no norte da Índia e quando visitava os monumentos, tinha que segurar os bebês para uma foto com a fada encantada na frente dos templos.
Às seis badaladas, hora em que as rádios do interior do Brasil tocam “Ave Maria”, Jayanthi, esposa de Babu, trouxe a bandejinha com todos os ingredientes incluindo uma cumbuca de barro cheia de leite. Antes de usar o fogão pela primeira vez, deve-se deixar o leite ferver até derramar, como sinal de fatura, para nunca faltar nada nesta casa.
Ela enfeitou o fogão, passou kumkum em todos os botões, ofereceu uma fruta aos deuses, colocada em cima de uma folha, junto com a lentilha e o açúcar (no hinduismo pode-se comer os alimentos depois da oferenda), rezou, espalhando a fumaça do incenso, e me chamou para acender a primeira chama. Mas na minha vez, derrubei a bandejinha e a oferenda no chão, o que acabou dando um toque Chico Science ao ritual, no melhor estilo “Que eu desorganizando posso me organizar”.
Nunca esperei tão ansiosamente pela borbulha daquela panela. A gente sempre sabe que mais cedo ou mais tarde o leite vai ferver, mas não dá para calcular exatamente quando. E é mais ou menos assim que me sinto em relação ao meu processo de adaptação aqui. “O leite caiu pro lado direito, ótimo sinal”, comentou Jayanthi.
Se até os ladrões do GDF fazem oração pedindo apoio, eu também posso: Óh, Krishna, sei que prometi não ficar mais estressadinha, mas me ajude a entender porque todas as companhias telefônicas do mundo desrespeitam os clientes de forma tão grotesca. E por que mesmo sabendo disso, seguimos achando que a necessidade de estar conectado 24h por dia é tão vital que jamais desistimos do serviço? Se esbravejamos a ponto de quebrar o contrato com uma, assinamos com a concorrente, tão ruim quanto a primeira opção. Por que a privatização não tem nada a ver com eficiência? Por quê? Por quê? Mesmo sem respostas, óh deidade companheira, me ajude a manter a cabeça fria já que as orelhas não vão esquentar tão cedo pois continuam distantes das ondas eletromagnéticas do celular.
Na mesa: um celular pré-pago que funcionou por uma semana e parou; um celular pós-pago conseguido com muito suor e xerox. Ele envia mensagens e recebe chamadas, mas não liga pra casa; um modem de laptop comprado com a promessa de funcionar imediatamente, mas que um dia e meio depois ainda não disse a que veio.
Nível: dificílimo
Ingredientes:
- algumas rúpias;
- dez toneladas de paciência;
- muitas fotos “tamanho passaporte”, que na Índia fica entre a 3×4 e a 5×6. Melhor não tentar usar as do Brasil e tirar uma dúzia nova aqui mesmo;
- cópias do passaporte (com visto), comprovante de residência, registro de permissão de residência (emitido pela polícia, após uma saga de seis visitas, outras tantas fotos, carimbos e documentos);
- une-dune-tê para escolher uma das 17 empresa que vai te maltratar: Airtel (com grande área de cobertura), Reliance (sei…), Vodafone, TataDoCoMo, etc
Modo de fazer:
Se tiver um conhecido indiano que tope contratar o serviço em nome dele para você, invista nisso e evite dores de cabeça. Se conseguir que ele vá até a loja em seu lugar, você vai se poupar de ver alguns clientes locais se transformando em cachorros-doidos, latindo bravamente para vendedores que parecem nunca perder a cabeça, nem resolver os problemas.
Senão, ommmmm. Respire e mãos a obra!
O documento mais importante para conseguir o mínimo de respeito é o registro de permissão de residência. Todo brasileiro precisa de visto para entrar na Índia, mas quem fica mais de 180 dias, deve estar atento para o que dizem as letrinhas miúdas do visto escritas primeiro em Hindi, depois em inglês: o registro deve ser feito em até 14 dias da chegada, sob pena de pagar uma multa de 30 dólares por atraso. Mas não é em qualquer delegacia, é no comissariado de polícia, um prédio bem maior e com muito mais filas.
Os documentos necessários estão citados no site da instituição e apenas lá (www.bcp.gov.in). A lista é extensa e inclui o preenchimento de formulários, 5 fotos, comprovante de residência e, no meu caso que tenho visto de trabalho, o contrato e uma declaração dos empregadores com firma registrada em cartório dizendo que são responsáveis por minha conduta e que se eu vacilar, serei repatriada às custas do patrão. Na semana em que cheguei, a moça do RH pediu demissão e meus chefes viajaram para um congresso no Egito. Resultado: atraso para entender o procedimento e consequentemente para obter o vale-respeito nas companhias telefônicas.
As duas primeiras visitas ao comissariado foram café-com-leite: primeiro porque, apesar de abrir aos sábados, é feriado nacional todo segundo sábado do mês. E a segunda só para descobrir o endereço do website. As outras quatro visitas foram mesmo do passo-a-passo de tartaruga da burocracia, incluindo o dia de pagar a multa, quando me entregaram um papel escrito em Kannada (o idioma local) para ser pago num banco que ficava a uns 5 quarteirões dali, conforme o agente me explicou rapidamente com um sotaque muito forte. Mas quem tem boca vai ao Banco Estadual de Mysore, que graças aos deuses tinha pelos menos as iniciais em inglês escritas a caneta no boleto. Na fila do banco, mulheres costumam ser ignoradas pelos homens furões, mas eu mostrava o dedinho apontando pra trás: “cheguei primeiro, senhor”. Aliás, agora me lembro que foi por isso que estava nervosa no dia da mudança e com extrema necessidade de me fazer respeitar. Mas depois descobri que Mr. Babu já me respeitava.
Antes de conseguir o registro, Prasanna, o boy do escritório bem que se esforçou para comprar um chip pré-pago em meu nome, mas após uma semana o serviço foi bloqueado por falta de documentos. Quando tentamos solucionar o problema na Airtel, a moça olhou pra mim e disse: “Ih, é estrangeira? Vai demorar”. Então a solução foi comprar outro chip, desta vez pós-pago, já que depois de um mês podia sacar da pasta qualquer coisa que o vendedor me pedisse. Só que hoje, quase 48 horas depois, meus dados ainda estão sendo verificados, como me explicou o moço do call center. Ainda não chegou a hora de poder me conectar com o Brasil quando bem entender.
Voltando pra casa bastante frustrada, chutei um folheto colocado em meu caminho: “Aulas de ioga para prevenir tensão mental e aliviar dores físicas”. Parece que é na minha rua! “Vagas limitadas. Terá preferência quem chegar primeiro”. “Inscrições por… telefone”!
Alugar uma casa em Bangalore, terra da tecnologia, é muito, mas muito mais fácil que conseguir um celular em seu nome. Compare os dois processos, começando pelo produto final. A luta por um chip vai no próximo post.
Na mesa: Apê de um quarto a 5 minutos do trabalho com direito a companhia especial de alguém mais famoso que os Beatles*.
Nível: fácil, mas depende de uma grana inicial.
Ingredientes:
- Uma bolada financeira equivalente a 11 meses de aluguel. Os proprietários costumam cobrar 10 meses adiantado como caução, além do pagamento mensal. Esse dinheiro será devolvido no término do contrato. A 11ª parcela vai para o corretor. Sem dúvida é salgado, mas substitui a garantia dos fiadores, que no Brasil pode ser uma dor de cabeça para quem é de outra cidade, imagine outro país. De qualquer forma, os valores são bem inferiores aos aluguéis no Brasil, que dirá Brasília, onde o setor imobiliário é dominado pelo vice-governador. O aluguel de um apê de um quarto varia de 4000 a 9000 rúpias (150 a 350 reais), bem menos do que coube na meia do deputado Prudente.
- O semanário de classificados chamado Add Mag (10 rúpias), lançado no domingo e vendido em qualquer banca ou birosca.
- Aproximadamente 30 minutos para ver cada imóvel anunciado. Quatro visitas são suficientes para conhecer o padrão.
- Um telefone. Se já tiver sido bem-sucedido na saga para conseguir um celular antes do aluguel, ótimo. Senão, em cada esquina há um telefone público. Cada ligação sai por 1 rúpia.
Modo de fazer:
Os imóveis são anunciados por bairro e número de quartos. À primeira vista, os termos parecem indecifráveis (vaastu, lndp, brokers excuse, a/b, kavery), mas é só tirar as dúvidas com o corretor. Atenção pois alguns proprietários restringem o uso da cozinha para vegetarianos, mas isso costuma estar explicitado se for o caso.
Depois de selecionar um apartamento de dois quartos no jornal, marquei com o corretor na frente do Coffee Day (rede local de cafés, nada de Starbucks!) mais próximo do escritório. Segunda de manhã ele passou lá de moto, me deu carona e, quando viu que era só para mim, ofereceu um imóvel de um quarto, que ainda nem tinha sido anunciado. Topei ver primeiro. Pronto, já estava decidido. Os outros seis apartamentos só vi para achar os defeitos. Os de dois quartos são gigantes. Num quarto dorme o casal com alguns filhos. E no outro os sogros com o resto da meninada. Estou longe de precisar disso.
Marcamos um encontro com Mr. Babu, o proprietário. Ele quis mostrar o apartamento novamente. As coisas do antigo morador ainda estavam lá. Se eu não quisesse comprar os sofás deixados pelo moço, Mr. Babu o faria para equipar o imóvel. E assim foi. A próxima reunião foi pra assinar o contrato, bem parecido com o brasileiro e registrado em cartório.
No dia combinado, peguei a chave e me mandei com minha mala. Mas ao chegar no terracinho do terceiro e último andar, vi roupas no varal e poltronas do lado de fora. Na porta de casa, flores penduradas, e desenhos de giz e cumcum (pó vermelho usado para fazer uma marquinha na testa como forma de proteção/benção. Seria urucum?) na soleira para trazer bons fluidos. Na estante, a imagem de Krishna, geralmente retratado como um menino gordinho e mimado, num altarzinho recheado com flores, leite, açúcar, incenso. Esse Mr. Babu não tem palavra? Combina uma data em que o apartamento ainda não foi desocupado? Liguei brava para o corretor e descasquei. “No problem, madam. Vou falar com o proprietário para verificar”. Quando ligou de volta, morri de vergonha. Mr. Babu tinha feito puja (o ritual de adoração às deidades) especialmente para pedir proteção e prosperidade por minha entrada na casa!. Acredita-se que por meio dos mantras entoados nesse ritual, a energia cósmica desce, mantendo aquele ícone vivo. O puja é então o procedimento para comunicar espiritualmente seu desejo aos deuses. Lembrei que quando visitei o templo do poderoso Hanuman (o Deus-Macaco) em Mysore, vi uma pessoa levando uma moto novinha para ser “abençoada” por um puja antes de usar. Depois me explicaram que, numa casa nova, devemos deixar o leite ferver até derramar, para que não falte nada no novo lar.
Depois da primeira noite, ao sair para o trabalho, não consegui trancar a porta do lado de fora. Na minha confusão matinal, pensei que aquilo poderia ser uma lição de Krishna por eu ter me comportado como uma ocidentalzinha nervosa e desconfiada na noite anterior. Então comprei flores (vendidas nas ruas e na frente dos templos por toda a cidade), pedi desculpas e colori ainda mais o altar antes de acordar Mr. Babu para falar do problema da chave. Ele mora a duas casas da minha. Conheci sua esposa e sua filha, que deve ter uns 20 anos e ajuda na tradução quando os pais não se lembram das palavras em inglês. Me convidaram para o café da manhã, mas aleguei urgência por causa do trabalho. Ele se prontificou a verificar imediatamente e conseguiu trancar a porta com toda tranquilidade!
Pode ter sido só falta de jeito ou fraqueza sem o café da manhã. De qualquer forma, fiquei feliz por ter feito as pazes com Krishna e sigo cantando para ele aquela música do Jorge Ben (Frases), que como bem lembrou o baiano Luma, ficou famosa na voz do Caetano: “Eu só quero que Deus me ajude e o menino muito mais também… olha o menino, ui. Olha o menino, ui ui ui”.
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*Há uma semana, estava mostrando para as meninas da pensão as fotos da celebração dos 40 anos do disco Abbey Road. Dizia que uma multidão compareceu à frente da gravadora em Londres para imitar a famosa foto em que os quatro atravessam a faixa de pedestre, quando fui interrompida: “Que Beatles?”.
“B com I do BRIC”
Parte 1: Ressalvas
Com 7h e meia de diferença para o Brasil, quando começo o expediente, tenho conseguido alguns encontros virtuais felizes com minha tia Antonieta Goulart, cuja cabeça nunca pára e cujo corpo só descansa depois das 3 da manhã. Como seu instinto jornalístico foi e sempre será fortíssimo, ela me sugeriu que criasse um guia para brasileiros na Índia, misturando as culturas. Pensei no desafio de fazer algo como o “B com I do BRIC”. Hmm… eu topo! Mas preciso ser honesta e expor as ressalvas primeiro:
Para não reduzir a idéia a um relato do cotidiano, vou tentar me inspirar no que mais me chamou a atenção até o momento – sem dúvida a comida – e apresentar o que se passa como se fosse um livro de receitas, mesmo sabendo que por conta dos itens 1 e 2 não há receita para ninguém. Cada experiência é única.
Então vai funcionar assim: cada item – comunicação, transporte, registro, acomodação etc – terá um post neste blog, indicando o grau de dificuldade, os ingredientes e o modo de preparo. E cada um fica a vontade para testar a receita ou incrementá-la. Bom apetite!
Você já foi num daqueles clubes/hotéis de Caldas Novas com piscinas de água quente? No começo é legal, principalmente pra nadar de noite, no friozinho. Mas aí o dia amanhece, o sol do Goiás racha na nossa cabeça e a gente começa a notar que de todas as torneiras só sai água quente. Todas. Depois de escovar os dentes, nadar, tomar uma chuveirada na beira da piscina, tomar banho no quarto, a pele já mais enrugada que maracujá de gaveta, começa a bater aquela vontade de encontrar uma cachoeira, uma beira de rio ou qualquer fonte de água de bater o queixo, só pra lembrar como é gostoso mergulhar na água quente de novo.
Acho que o efeito Caldas Novas começa a bater em mim depois de três semanas comendo pimenta no café da manhã, almoço, jantar, salgadinhos, biscoitinhos, molhos, sopas. Juro que isso não é uma reclamação. Não como carne e estou no paraíso vegetariano. Também sou grata porque tenho a oportunidade de provar comida caseira, preparada por D. Uma, dona da pensão. A culinária indiana é muito rica: a variedade de folhas, temperos, tipos de lentilha e outros cereais demandam um glossário ilustrado anexo ao caderno de receita que pretendo começar a preparar. Mas como não estava acostumada, parece que preciso cada vez de mais iogurte para aliviar. O intestino agradece. E a reposição de cálcio também está garantida até a menopausa, já que a gente nunca sabe quando ela vai começar.
Ontem, depois de uma pratada de arroz temperado com limão, amendoim, lentilha, semente de mostarda, cominho e… muita pimenta no café da manhã, achei que tinha sentido um gostinho picante também no café. É na pensão que tenho o café mais forte e mais gostoso. Em todo canto, se serve café com leite, mas na pensão e no escritório o pessoal já sabe que gosto só do café, sem açucar, sem nada, embora achem tudo isso muito estranho.
Minha estratégia com Uma é assim: eu coleciono todos os adjetivos que consigo lembrar para elogiar a comida que ela faz. Sei que não é muito espontâneo, mas é verdadeiro e tem dado certo. No início, ela estava muito desconfiada, dizia não pra tudo o que eu pedia e chegou a me dar bronca porque perdi a hora do jantar. Agora ela amaciou e faz questão de me contar como se prepara cada coisa. Vou anotando tudo, sem saber como escrever os nomes dos pratos em Hindi ou Kannada. Então perguntei o que tinha de diferente naquele café que era muito melhor do que os que eu provei na rua. Pois ela torra e mói o café em casa! Na despensa ela guarda os grãos produzidos pela vizinha de baixo. O gostinho picante provavalmente é da chicória, que costuma ser misturado (ou até substituir) o café por ser muito mais barato, mas também mais saudável, já que é mais um regulador da flora intestinal. Então parece que a culinária indiana, assim como tudo o que pude vivenciar aqui até agora funciona assim: somos apresentados ao extremo, ao radical, pra ver até onde se suporta sentir, para então conhecermos o seu contraponto co-existindo ali naquela proposta de equilíbrio sutil.

Quarto das meninas
Daqui a três meses, Sam (Samyuktha, que significa União) assume um compromisso. Ela ainda não sabe quem será o noivo, mas seus pais já separaram o ouro do dote e estão em contato com as famílias amigas em busca de um moço à altura. Ela tem 23 anos, dois a mais que a idade considerada limite para se casar em sua comunidade, próxima a Hampi. Sam é formada em finanças e veio para Bangalore há quase um ano trabalhar na HP, que fica há mais de 20 quilômetros de casa. Mas a empresa banca o táxi, isso não é problema. Seus pais procuram alguém com nível educacional e profissão equivalentes. Este negócio que os opostos se atraem parece não colar por aqui. Antes de se casar, Sam deve voltar a Hampi para dez dias de intensivão com sua mãe. É que faz tempo que ela não cozinha, já que na pensão onde moramos o café da manhã e o jantar já estão inclusos no valor mensal. Aliás, Uma, a dona da pensão, cozinha super bem e procura fazer o gosto de cada uma. Tem usado menos pimenta em consideração a mim e me explica com toda paciência do mundo o modo de preparo de cada alimento. Até agora meu preferido foi o poori (purí), que parece um pastel frito, servido com batatas ao curry, preparado geralmente aos finais de semana ou feriados.
Pago 6000 rúpias por mês por um quarto só pra mim. Quando divido os preços daqui por 27 para chegar ao valor aproximado em reais, tudo parece de graça, mas tenho que me lembrar que agora meu salário também será na moeda local. É tudo muito simples no bangalô de Bangalore. Bem mais do que na minha vidinha de classe média em Brasília ou mesmo no alojamento estudantil de Londres. Faz todo sentido viver de forma simples, mas a adaptaçao mais difícil é com algo bem cotidiano – o banheiro, que fica no mesmo terraço onde está meu quarto, mantendo a tradição do vaso embutido no chão (já tinha visto em beira de estrada) e banho de cuia, combinado com meia hora de antecedência pra dar tempo da água esquentar. Paguei mais 100 rúpias para ter direito à segunda torneirada quente no fim do dia. Como disse Julieta, amiga que passou três meses na Ásia, o banho de cuia é educativo pra gente ver que precisa de pouca água. Mas aqueles lindos cabelões de Iracema das indianas requerem dois baldes no mínimo. Os banheiros públicos de shoppings ou restaurantes também me pregaram uma peça. A maioria tem o vaso ocidental, mas dingobel, nada de papel, só chuveirinho ou torneira com baldinho. Minha colega indiana contou que quando morou nos EUA ela é que teve dificuldade para se adaptar pois é a água que dá sensação de limpeza. E com roupas de algodão, tudo seca rápido.
Mas essas dificuldades são totalmente esquecidas na hora da refeição, quando fico totalmente entretida na conversa com Sam, Sujatha, Goura e Rashmi, meninas de 23 a 28 anos que vieram de outras cidades para trabalhar. Elas me ensinam algumas palavras em Kannada, o idioma local, fazem perguntas sobre o Brasil, falam sobre seus planos e traduzem o que Priya quer dizer. Ela é uma menina tímida que trabalha na casa, como um daqueles casos clássicos de trabalho infantil doméstico que a gente tanto vê no Brasil. Veio do estado de Tamil Nadu com George e Uma, os donos da pensão, e só fala Tamil, a língua daquela região. Não tem mãe, o pai é motorista e vive viajando. Ela tem um problema de audição e não se dá com a madrasta, então o pai prefere que ela fique aqui. Parece ter 11 anos. Uma disse que ela tem 19. Então, fazendo a média imagino que tenha uns 14 ou 15. Priya ficou muito preocupada porque eu tenho cabelo de menino, mas falei que a vantagem é que meu banho é mais rápido e econômico. As outras meninas falam pelo menos três idiomas: inglês e hindi, ensinados na escola, e kannada, o idioma de Karnataka, estado de Bangalore. Mas acabam aprendendo também a língua do lugar de origem dos seus pais e de seus amigos mais próximos.
Sam parece não ter dramas sobre seu futuro casamento arranjado. De fato, há casos bem sucedidos, em que as pessoas aprendem a se respeitar e se amar. Mas Goura coleciona algumas histórias menos felizes, como a de uma prima médica estudiosa e dedicada cujo marido (da mesma profissão) não aguentou o complexo de inferioridade e começou a maltratá-la, inclusive com violência física. Hoje divorciada e com uma filha, ela continua muito bem profissionalmente, mas o coração ficou congelado. A própria Goura não tem muita certeza se quer se casar. Ela é arquiteta, tem 28 anos, e já rejeitou uma proposta porque o pretendente era divorciado. “Se sou de primeira mão, porque devo aceitar alguém de segunda?”, disse. O problema é que se ela não se casar, empata a futura vida matrimonial da irmã mais nova, hoje com 19 anos, que só estará disponível depois que a primogênita se arranjar. Já Sujatha parece viver o meio termo. Foi ela quem escolheu seu futuro marido, que conheceu na Inglaterra, durante um curso de software. Ele é cristão e vai aproveitar a vinda para o Natal para apresentar sua noiva hindu para a família. Ela está contando os dias para preparar os dois casamentos – um em cada religião.
As meninas sabem que, como ocidental, minhas escolhas são bem mais flexíveis e menos impactantes na vida do restante da família. A pergunta mais pessoal que me fizeram foi minha idade, depois de uma aposta entre elas pra tentar adivinhar. Claro que o fato de ter 34 sem marido nem filhos gera um abismo entre nós, mas sigo observando sem juízo de valor. Seria muito precipitado arriscar qualquer comparação sobre o grau de liberdade e de respeito à mulher. A diferença não é tão óbvia assim. No Brasil, o leque de pessoas casáveis é bem restrito para cada grupo social, o que não deixa de ser um pouco arranjado. As festanças de bodas ainda são símbolo de status. E a máxima “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher” não ajuda a conter os índices de violência doméstica. Pelo menos a Lei Maria da Penha, tem conseguido aumentar a quantidade de denúncias e levar os machõezinhos pro xillindró.
Depois de três dias em território indiano, num percurso restrito a casa-trabalho-casa, seria muito arriscado expor qualquer tentativa de compreensão sobre a cultura local. No entanto, peço desculpa aos especialistas para jogar as primeiras impressões de forma leiga e tão caótica quanto o trânsito daqui. Sei que corro o risco de escrever bobagem, mas não quero perder a oportunidade de registrar um pouco do milhão de informações que recebo por minuto, o que me dá a sensação de que já cheguei há tempos, mesmo com todas as gafes e improvisos típicos de quem está em terra estrangeira tendo feito o dever de casa pela metade. É, só estudei um pouquinho antes de vir. Provavelmente tudo mudará na medida em que for me familiarizando. Mas em três dias, já deu tempo de:
Acabo de perceber que a lista está enorme e poderia continuar, mas vou guardar pro próximo texto. O bom de vir pra morar é que dá pra conter a ansiedade. Cada descoberta a seu tempo. Parece muito, mas há bem mais por vir.

Domingo, 01/11. Engraçado ter tanto número 1 na data de hoje. Estou saindo de Londres, Longitude 0° 0′ 0″, e começando a contar o tempo a partir de outras referências, reordenando também minha noção de espaço, estilo de vida, valores. Aparentemente sou uma das sete pessoas ocidentais entre os passageiros que aguardam o vôo da Air India no aeroporto de Heathrow. Depois de mais de quatro horas de atraso, a funcionária (de Sári vermelho) nos informa que vamos finalmente decolar. Daqui a 8h e meia estarei em Bombaim (Mumbai). De lá sigo para Bangalore, onde vou trabalhar na ONG IT for Change, que pesquisa o impacto das novas tecnologias nas mudanças sociais.
Não assisti a novela da Glória Peres e confesso com humildade minha ignorância sobre o país de Gandhi. Até o ano passado a Índia parecia um lugar muito distante, onde minha professora de ioga fez um curso de formação e Mila e Geraldinho encontraram seus gurus. Apesar da excelente produção da novela das oito, tenho minhas dúvidas se ela ajudou na compreensão da cultura oriental ou se reforçou ainda mais a arrogante déia de que vivemos no mundo civilizado à frente do exotismo dos costumes milenares, como se uma linha evolutiva dividisse as sociedades e tradição não pudesse co-existir com o moderno.
Para quem está em Londres, a Ryanair e o eurocentrismo do império parecem encurtar as distâncias entre os cantos do mundo. A Ryanair é a companhia aérea irlandesa com vôos de baixo custo, mas sem conforto. Em setembro, consegui uma passagem por 6 pounds (taxas inclusas) para fazer uma viagem emocionante até a terra dos meus antepassados, no Veneto. Fácil e rápido.
O histórico europeu de imigração – seja para dominar ou buscar melhores condições de vida – parece ter gerado pessoas mais desgarradas, que se lançam no mundo ainda hoje sem medo de perder suas raízes. Por aqui ninguém achou estranho que eu tenha decidido morar tão longe de casa por um tempo. Por outro lado, a presença dos indianos é fortíssima em Londres. Eles têm resignificado ícones britânicos e integrado elementos orientais no cotidiano da cidade, para além de tudo o que foi roubado e exposto no Museu Britânico: ioga, meditação, curry e a pimenta usada sem moderação são alguns exemplos mais óbvios. Achei simbólico que durante a comemoração dos 40 anos da foto do álbum Abbey Road, na frente da gravadora, estava tudo muito sem graça, com aquela multidão atravessando a famosa faixa de pedestres de um lado pro outro, tirando fotos sem parar até que dois indianos salvaram o evento, sacando um violão para levar as baladas dos Beatles e botar todo mundo pra cantar e dançar.
Mas minha ida para a Índia talvez tenha muito mais a ver com a tendência de cooperação sul-sul entre duas ex-colônias constantemente citadas nas aulas de mestrado por suas complexas experiências de desenvolvimento político e econômico. Assim como no Brasil, as contradições socioeconômicas da Índia não são fáceis de entender. É o pais das castas, mas garantiu eleições democráticas sem voto de cabresto. É conhecida por sua pobreza extrema, mas integra o chamado BRIC, termo referente aos países emergentes economicamente, junto com Brasil, Rússia e China. Agricultores são explorados nas plantações de chá, mas a indústria tecnológica cresce a passos largos, criando empregos, gerando renda e inovação.
Não tenho dúvida dos ganhos pessoais que esta experiência vai trazer. Já no avião, traço o plano ideal enquanto devoro o arroz doce da sobremesa: me concentrar no presente, observar a novidade, aceitar o estranhamento e domar a maior tecnologia brasileira que vou levando na bagagem – saudade.
*Devo dar o crédito do trocadilho a minha mãe, que não conhecia os kebabs, mas só “os que bebem” de Coromandel.
Ao sair de qualquer estação de metrô de Londres, uma das primeiras coisas que se avista é o letreiro verde e a sereia, logomarca da Starbucks Café. Não é ilusão de ótica: praticamente a cada quarteirão há uma loja idêntica a outra, com mesinhas de madeira, ambiente a meia luz, um cheiro de café delicioso, biscoitinhos duros de quebrar restauração e internet paga.
Só os turcos conseguiram ser mais onipresentes do que a rede americana, espalhando por toda a cidade balcões de venda de kebab, um amontoado de carne assada num espeto giratório preso na vertical conhecido no Brasil como churrasco grego. As lascas são cortadas e embrulhadas no pão árabe com húmus e uma saladinha. Vegetarianos têm vez, substituindo a carne por falafel (bolinho de grão de bico). Hambúrguer e batata frita também estão no menu, geralmente escrito a giz no quadro negro.
Em um improvável plebiscito para eleger um entre os dois empreendimentos mais numerosos da cidade, meu voto certamente seria dos turcos. Mesmo sabendo que eles nunca ouviram falar de vigilância sanitária. Pelo menos ali a gente sabe o que vai encontrar. Tomei birra da Starbucks desde que soube que eles tentaram impedir o governo da Etiópia de patentear três tipos de grãos de café de alta qualidade produzidos exclusivamente pelos etíopes e comercializados pela multinacional, contradizendo sua pretensa política de promoção do Comércio Justo (Fair Trade), que garante padrões sociais e ambientais equilibrados na cadeia produtiva, principalmente remunerando adequadamente os produtores locais. Um assimétrico cabo de guerra pela patente começou em 2005 até que em 2007 foi feito um acordo. Mas aí o café já tinha esfriado.
E a simpatia pelo sanduba árabe aumentou na semana passada, depois que minha amiga carioca Beta Novis me levou à Marathon Kebab House, em Camden. Na parte da frente, tudo o que se espera de um kebab: vendedores imigrantes trabalham até as 3h da manhã, mandando gordura pra dentro dos estômagos mais resistentes, como a cruz vermelha dos bebuns, para ajuda a amenizar a ressaca do dia seguinte.
Mas em Camden sempre acontece muito mais do que se espera. A região concilia o ar bucólico de canais, bosques e casarões antigos com a confusão de uma vida noturna elétrica e uma vida diurna capaz de congregar nas feiras e mercados comida asiática, mexicana, vegetariana, artesãos e o que sobrou dos punks e alternativos, que em tempos de reprodutibilidade ganharam um toque de Chinatown em versão excêntrica, tamanha a repetição de camisetas com as mesmas piadinhas sarcásticas, cabelos coloridos, piercings e tatoos.
Na Marathon, casa de kebab preferida de Amy Winehouse (não confundir com Rehab), um petisco ou lata de cerveja dá acesso ao fundo da loja, numa espécie de passagem secreta para um ambiente com som ao vivo de jazz ou rock, dependendo do dia da semana. O público reúne figuras tão diversas como um senhor imóvel diante de seu copo, que parece ter fugido do Madame Tussauds, um rapaz alto e barrigudinho vestido de odalisca; duas gordinhas com vestido de oncinha que teimam em roubar o microfone do cantor, entre outros curiosos e curiosidades. No fim da noite que a gente insiste em esticar para adiar o aperto das despedidas, tudo faz sentido. Levamos nossa amiga até o ônibus noturno, felizes por termos encontrado um ambiente democrático aberto até nossas últimas forças. E a qualidade da música parece ser o menos importante.
Mais sobre o caso Starbucks versus Etiópia em (somente em inglês):
Opiniões diversas sobre o Marathon Kebab House em (somente em inglês):
Salve o skype , engenhoca criada pelo sueco Niklas Zennström, santo padroeiro dos viajantes, que nos permite chegar tão perto de quem está longe, sem pagar um centavo pro Bill Gates, nem ser rastreado pelo onipresente google. Agradecendo as bençãos concedidas pela tecnologia VoiP, é preciso reconhecer, entretanto, o insubstituível poder da aviação, que em menos de 12 horas me levou direto pra casa, pra sentir o que ainda não foi possível alcançar por meio eletrônico – o cheiro do pão de queijo, que nesses dez dias só parou de sair do forno quando o fogão estava ocupado com outras delícias, devoradas a mil “megabites” por segundo.
Desde pequena fico impressionada com a velocidade com que minha mãe prepara o pão de queijo. Minha madrinha também herdou esse gene. Antes mesmo do polvilho escaldado esfriar, uma das mãos segura firme a gamela enquanto a outra colore a massa de amarelo com ovos de galinha capira, em movimentos firmes, rápidos, até que uma avalanche de queijo curado trazido de Coromandel, ralado antecipadamente, invade a mistura. A receita oficial é a mesma – e não está escrita em lugar nenhum – mas há alguma variação nos procedimentos entre as duas que ainda não descobri. Difícil é decidir qual o melhor resultado.
Na minha casa, a mineiridade cala a pieguice da saudade e as panelas é que dão o recado carinhoso, num afago exagerado, maternal, intenso, mas tão leve e espontâneo que não há sinais de trabalho ou fadiga. Pra temperar a comida: sal, pimenta, noz moscada, comentários políticos, princípios feministas e muitos causos. Boa parte das histórias a beira do fogão está cifrada num caderno de receitas despedaçado e totalmente manchado que encontrei na última gaveta do armário da cozinha. Fórmulas de doces, salgados e até uma novena milagrosa estão registradas com a letra da mãe, da avó e de algumas vizinhas de outros tempos. As páginas mais desgastadas denunciam um seleto grupo das mais pedidas. Mas essa lista continua em aberto, num processo dinâmico que se renova a cada domingo. A poucas horas do portão de embarque, vou planejando uma maneira de conhecer novos temperos que pretendo apresentar via skype para contribuir para a reforma dessa relíquia culinária.